Título: Custo do trabalho tem aumento recorde
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Fonte: Valor Econômico, 14/01/2009, Brasil, p. A3
A queda na produção industrial em novembro superior à desaceleração dos custos com folha de pagamento provocou um salto no custo unitário do trabalho. O indicador, que mede a evolução do salário real descontada a produtividade, apresentou aumento de 10,9% no penúltimo mês do ano, comparado a igual período do ano anterior, a maior da série produzida pela Tendências Consultoria Integrada, que teve início em dezembro de 2001. Em relação a outubro, houve aumento de 2,6% no custo unitário do trabalho, feitos os ajustes sazonais. Silvia Costanti/Valor
David Kupfer: "Demitir significa piorar o índice de produt, de São Paulo
A elevação do indicador, que se baseia em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já era esperada por economistas e é interpretada como um sinalizador de que as indústrias poderão demitir nos próximos meses para ajustar o nível de mão-de-obra à atual escala de produção. Em novembro, a produtividade da indústria apresentou queda de 3,5% em comparação com o mês anterior, resultado da redução de 5,2% na produção e de 1,7% no total de horas pagas, na série dessazonalizada. Em relação a novembro de 2007, a perda de produtividade foi de 5,9% - ambos resultados foram recordes na série da consultoria. No mês, a folha média real de pagamentos cresceu 3,68%.
"A piora na produtividade e no custo do trabalho já era esperada devido à queda na produção e deve apresentar piora nos próximos meses, com a redução mais intensa na produção", avalia a economista da Tendências Ariadne Vitoriano. A consultoria prevê para dezembro queda na produção industrial de 4,7% ante novembro. Ela também estima piora na folha real de pagamentos, mas em ritmo mais lento, dado que a queda no emprego será menos intensa que na produção e a evolução na folha real de pagamentos será favorecida pela inflação mais baixa em dezembro.
O cálculo da consultoria aponta rápida aceleração no custo unitário do trabalho no acumulado de 12 meses, passando de 0,46% até outubro para 1,3% em 12 meses até novembro. As maiores variações ocorreram em setores que não registraram redução significativa em sua força de trabalho, como no caso de coque, refino de petróleo, combustíveis e álcool (17,3%), produtos de metal (8,9%), metalurgia básica (6,8%), minerais não-metálicos (5,9%), produtos químicos (4,9%) e máquinas e aparelhos elétricos e eletroeletrônicos (3,5%). A exceção ficou com o segmento de madeira, que mesmo tendo reduzido mão-de-obra, ainda apresentou alta de 9% no custo unitário do trabalho.
Houve queda no custo nos setores de calçados e couro (1%) e vestuário (0,8%), que já fizeram ajustes na folha até novembro. O desempenho produtivo ainda superior à elevação dos custos com contratações garantiu queda no custo do trabalho em papel e gráfica (6%), borracha e plástico (2,1%), meios de transporte (2,7%) e máquinas e equipamentos (0,7%).
O diretor de pós-graduação do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), David Kupfer, observa que a discrepância entre o ritmo de queda na produção e do emprego é natural, tendo em vista que as indústrias analisam a tendência do mercado no médio prazo antes de demitir ou contratar. "Reduzir a produção resolve o problema de estoque, que é de curto prazo. Demitir significa perder mão-de-obra qualificada e piorar o índice de produtividade. É preciso que o aumento do custo do trabalho se repita para afirmar com certeza quais setores irão reduzir pessoal."
Para Kupfer, os ajustes no mercado de trabalho ocorrerão ao longo dos próximos meses e os efeitos desse encolhimento vão perdurar no longo prazo, a não ser que o governo promova medidas que contribuam para reaquecer a economia brasileira.
A economista da Rosenberg e Associados Thaís Marzola Zara também estima que haverá piora no mercado de trabalho industrial. "Em um primeiro momento houve queda brusca da produção com uma redução menos precisa do emprego. Com isso, a folha média real aumentou acima da produtividade. A tendência é que os setores com pior desempenho efetuem cortes a partir de agora", afirma. A consultoria estima para dezembro queda de 8% na produção industrial, em relação a novembro, com ajuste sazonal.
Ontem, dois indicadores que refletem a atividade industrial ratificaram a tendência de queda prevista por economistas. As vendas do setor de papelão ondulado recuaram 4,52% em dezembro, comparado a igual mês de 2007, informou a Associação Brasileira do Papelão Ondulado (ABPO). O Sinalizador da Produção Industrial, indicador produzido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em parceria com a AES Eletropaulo, apontou para dezembro queda na produção industrial paulista de 13,5% em relação a novembro, com ajuste sazonal. Se confirmado o número, no ano, a produção paulista terá crescido 5,4%, ante 7% no acumulado de 12 meses até novembro. O indicador apontou para novembro queda de 6%, mas os dados oficiais indicaram queda de 3,2%.