Título: Nakano e Bresser vêem recessão no país e pedem corte do juro
Autor: Lamucci , Sergio
Fonte: Valor Econômico, 13/01/2009, Brasil, p. A5

O Brasil já está em recessão, disseram ontem os economistas Yoshiaki Nakano e Luiz Carlos Bresser Pereira, defendendo cortes agressivos dos juros para enfrentar o impacto da crise global sobre o país. Para os dois professores da Escola de Economia de São Paulo (EESP) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a alta do dólar não vai causar pressões inflacionárias relevantes, devido ao enfraquecimento da demanda e à queda dos preços das commodities. Críticos ferrenhos da política monetária, ambos destacaram que o momento pede reduções significativas da taxa Selic - Bresser propõe cortes de 1 ponto percentual a cada reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Leo Pinheiro/Valor

Nakano: Brasil deveria esgotar política monetária antes de usar política fiscal

Diretor da EESP-FGV, Nakano disse que, além de uma redução agressiva dos juros, é necessário eliminar "algumas anomalias" que persistem na economia brasileira. Ele citou o elevado nível dos depósitos compulsórios (o dinheiro que os bancos devem deixar no Banco Central), mesmo depois das reduções efetuadas pela autoridade monetária nos últimos meses. "Diminuir o compulsório aumentaria a oferta de crédito", afirmou Nakano, destacando, porém, que os bancos só vão emprestar os recursos se os juros básicos estiverem mais baixos. Os bancos relutam em conceder crédito "por um motivo muito simples", segundo ele: "É possível comprar um título do governo, com risco zero, que paga 13,75% ao ano."

Para combater a crise, Nakano disse que o país deveria primeiro "esgotar a política monetária, para eventualmente depois recorrer à política fiscal" - o inverso do que o Brasil tem feito. "Há uma enorme folga da política monetária, basta ver o diferencial entre os juros no Brasil e no exterior", afirmou Nakano, para quem a abrupta virada da atividade econômica no quarto trimestre configura uma recessão. Em outubro e novembro, a produção industrial caiu 7,9%.

Nakano mostrou preocupação com a situação das economias desenvolvidas. Disse que, nos EUA, há o risco de uma depressão, e não apenas de uma recessão. "Numa depressão, toda a lógica de funcionamento normal de uma economia capitalista desaparece." As empresas passam a não demandar mais crédito e a se ocupar em resolver o problema de endividamento. Nakano destacou também o risco do impacto de uma deflação de ativos sobre as companhias. Com o tombo de ações e outros ativos financeiros, muitas empresas podem ficar com patrimônio negativo, disse ele. Nesse caso, a prioridade é administrar a dívida e recompor o patrimônio - investir e tomar crédito ficam em segundo plano, agravando a fraqueza da economia. "O Brasil não chegou lá, mas os EUA estão caminhando para isso", disse Nakano, para quem existe esse risco no caso brasileiro, ainda que não seja imediato.

O economista disse que não tem condições de dizer exatamente qual deve ser o ritmo de queda dos juros, mas afirmou que as reduções devem ser expressivas. Ex-ministro da Fazenda, da Administração e de Ciência e Tecnologia, Bresser sugeriu cortes de 1 ponto percentual a cada reunião do Copom, "até que a taxa chegue a um nível decente", algo tranqüilamente inferior a dois dígitos. Para ele, a alta do dólar não representa uma ameaça para os preços. "Não há risco de inflação alta porque nós estamos num quadro de recessão forte na economia global, que atinge o Brasil de chofre", afirmou Bresser. Segundo Nakano, o esfriamento da demanda e o recuo das commodities fazem com que o quadro inflacionário não preocupe.

Para Bresser, o país deve "aproveitar a oportunidade para sair dessa armadilha que é a taxa de juros alta e a taxa de câmbio baixa". O ex-ministro considera importante, aliás, que o dólar fique num nível mais elevado, de preferência na casa de R$ 2,50 a R$ 2,70, para melhorar a competitividade dos produtos brasileiros no exterior.

O ex-ministro disse considerar "possível" crescimento zero em 2009, mas acrescentou que isso vai depender da reação do governo - a seu ver, insuficiente até o momento. Segundo ele, o BNDES age bem ao aumentar o volume de empréstimos, mas o Ministério da Fazenda toma iniciativas boas, porém "fracas". "Já o BC não faz nada", disse ele, para quem a instituição vem sendo "um instrumento da captura do patrimônio público brasileiro pelos rentistas". Nakano não descartou que o PIB fique estável em 2009, mas ressaltou a dificuldade de fazer previsões num cenário de incerteza como o atual.

Nakano e Bresser participaram ontem de uma conferência voltada para repensar a macroeconomia e a economia do desenvolvimento, realizada em parceria pela EESP-FGV e pela Universidade de Cambridge (no Reino Unido). Também presente ao evento, o sul-coreano Ha-Joon Chang, de Cambridge, disse que é o momento de o Brasil cortar juros. "Não faz sentido manter uma política monetária ortodoxa agora", afirmou ele, crítico da ortodoxia econômica. Para Chang, o momento é perfeito "para repensar a política econômica, especialmente a política monetária". Ele também acredita que o país deve adotar medidas de estímulo fiscal. "Elas devem ser bem desenhadas, claro, mas é importante investir em infra-estrutura." Segundo Chang, esses investimentos teriam dois efeitos importantes: aumentar a demanda no curto prazo e elevar a capacidade de oferta da economia no longo prazo.