Título: Com Votorantim, BB terá carteira de financiamento de veículos usados
Autor: Ribeiro , Alex
Fonte: Valor Econômico, 13/01/2009, Finanças, p. C2

O Banco do Brasil leva, com a aquisição de metade do capital do Banco Votorantim, uma carteira de financiamentos de veículos composta basicamente de operações com usados. Esse foi um dos pontos mais questionados por investidores e analistas econômicos ontem em teleconferência do BB. Eles queriam saber quais são os riscos de perdas em um contexto de forte queda nos preços dos carros usados. Ruy Baron / Valor

Aldo Mendes, vice-presidente de finanças do BB: R$ 3 bi pagos pelo Votorantim serão depositados em uma conta vinculada e darão suporte ao caixa do banco

Segundo informação do Votorantim, mais de 95% de sua carteira de financiamento de veículos, que somava R$ 16,8 bilhões em setembro, é de veículos usados. Desde que o país começou a sofrer mais intensamente os efeitos da crise financeira mundial, em setembro, os preços dos carros usados já tiveram uma retração superior a 20%.

A entrada do BB no segmento de financiamento de veículos usados está em linha com o interesse do governo em manter o crescimento da economia. Ontem, o presidente Lula disse em São Paulo que a compra do Votorantim ajudará a impulsionar o mercado de veículos novos, porque antes de comprar um novo os consumidores vendem seus carros usados. "O Banco do Brasil vai se preparar para financiar carros usados para que a roda da economia possa continuar girando normalmente", disse Lula.

Na teleconferência, Marcelo Vives, do Votorantim, ponderou que a inadimplência na carteira de veículos é baixa e que esse é um segmento com altas margens. Segundo ele, a taxa de inadimplência da carteira é de 3%, abaixo da média de mercado, que é de 4%. No cenário mais pessimista, disse, a inadimplência subiria para 4% neste ano. A taxa média de juros da carteira é de 2,1% ao mês, e seu prazo médio, 18 meses. Alguns analistas perguntaram se as projeções não eram muito otimistas. Os executivos do Votorantim e do BB disseram que não prevêem contração da atividade e do emprego tão severa como a dos EUA. A visão dos dois bancos é que crise abriu oportunidades para o banco avançar no financiamento de novos.

Antes da crise, o Votorantim exigia entrada equivalente a 30% do carro financiado. Nos casos em que é necessário retomar o carro para executar as garantias, informou Vives, o banco recupera em média 60% do valor do financiamento. Com a queda de 20% no preço dos carros usados, os cálculos são de que as garantias vão cobrir 50% do empréstimo. O Votorantim, após a crise, passou a exigir entrada maior dos clientes, de 40% do valor do automóvel, e encurtou o prazo dos empréstimos.

A avaliação é que, a despeito da queda dos preços dos veículos, a carteira de crédito é 100% garantida pelos automóveis. Para o Votorantim, a tendência é que os preços dos carros usados se recupere ao longo desse ano.

Na teleconferência, o vice-presidente de finanças do BB, Aldo Mendes, informou que os R$ 3 bilhões pagos na compra do Votorantim serão depositados em uma conta vinculada, podendo ser sacados em prazos de 6, 12 e 18 meses pelos atuais acionistas do banco. "Durante esse tempo, os recursos ficarão dando suporte ao 'funding' e ao caixa do banco."

Na sexta, na entrevista que divulgou a venda de metade do banco, o Votorantim negou que a estivesse atravessando problemas de falta de liquidez, como ocorre com instituições pequenas e médias. Balancete divulgado pelo BC, porém, registra queda de R$ 5,825 bilhões nos depósitos a prazo do Votorantim, que passou de R$ 22,457 bilhões em setembro para R$ 16,632 bilhões em outubro. Procurado pelo Valor, o Votorantim não quis comentar os números.

Os depósitos interfinanceiros, por outro lado, subiram de R$ 807 milhões para R$ 2,153 bilhões. O BC criou incentivo, liberando recursos dos depósitos compulsórios, para que bancos grandes fizessem depósitos interfinanceiros nos menores. A carteira de crédito da BV Financeira, que opera com financiamentos de veículos, caiu R$ 1,342 bilhão, passando de R$ 19,176 bilhões para R$ 17,834 bilhões entre setembro e outubro. O BC também incentivou bancos grandes a comprar carteiras de crédito de bancos menores.

O BB confirmou que poderá fazer captações no mercado financeiro para reforçar sua base de capital. O índice de Basiléia do banco, após a aquisição da Nossa Caixa e do Votorantim, fechou em 12,5% em dezembro, perto do mínimo, de 11%. O BB sustentou, na teleconferência, que o capital é suficiente para sustentar a expansão de 20% na carteira de crédito prevista para este ano. Mas, segundo seus executivos, a instituição poderá fazer captação de dívida subordinada ou em instrumentos híbridos de capital e dívida para ampliar o chamado capital Nível 2. O índice de Basiléia Nível 1 chegou a 8%, e o BB descartou fazer uma emissão primária de ações para ampliá-lo. Nesse caso, a opção seria a maior retenção de resultados do banco.

O BB disse que os ganhos de sinergia com a compra são pequenos, porque não haverá incorporação. Mendes prevê queda no custo de captação do Votorantim, hoje de 103% do CDI. O BB poderá abrir linha de financiamento ao banco, e a percepção de risco do Votorantim deverá cair após a operação.