Título: Novo presidente do Bradesco será Trabuco
Autor: Carvalho , Maria Christina
Fonte: Valor Econômico, 13/01/2009, Finanças, p. C10
O conselho de administração do Bradesco anunciou, ontem, a escolha do novo presidente do banco, Luiz Carlos Trabuco Cappi, que atualmente preside a seguradora do grupo. A indicação será submetida à assembléia de acionistas em 10 de março, quando a mudança será então efetivada. Leo Pinheiro / Valor
Para analistas, Trabuco deve manter a receita, mas tem estilo mais "light"
Trabuco, como costuma ser chamado, vai suceder a Márcio Arthur Laurelli Cypriano, que deixará o cargo após 10 anos na presidência por ter atingido, em novembro passado, a idade limite prevista no estatuto de 65 anos. Cypriano continuará fazendo parte do conselho de administração, presidido por Lázaro de Mello Brandão, com 83 anos. Nenhum dos executivos deu entrevista.
Trabuco assume em um momento delicado para o banco. Apesar do forte crescimento dos últimos anos - os ativos quintuplicaram na gestão de Cypriano -, o Bradesco perdeu o lugar de maior instituição privada do mercado, depois que o Itaú anunciou a fusão com o Unibanco, em novembro, e passou a ser o maior do mercado brasileiro. Logo em seguida, o Banco do Brasil comprou a Nossa Caixa e, sexta-feira passada, 49,99% do Banco Votorantim - duas instituições que o Bradesco cobiçou.
As alternativas são agora limitadas. "Não há bancos para comprar", disse o analista da Lopes Filho, João Augusto Salles - ao menos de porte suficiente para o Bradesco recuperar a dianteira. Mas, nem por isso o mercado deixa de especular a respeito do interesse pelo Citibank e pelo Safra.
A escolha não surpreendeu os analistas. As ações preferenciais do banco caíram 3,64% para R$ 23,26 ontem, dia em que a BM&F Bovespa fechou com baixa de 5,24%.
Trabuco já era cotado para a presidência do Bradesco há tempos. Seu nome chegou a ser cogitado, quando Cypriano foi escolhido para suceder Brandão na presidência executiva, em 1999.
Mas Trabuco, agora com 57 anos, era então muito jovem. A trajetória que traçou na Bradesco Seguros, cujo comando assumiu em março de 2003, contribuiu para sua escolha. Líder nos mercados de previdência e forte em seguro saúde, a seguradora contribuiu com 35% do resultado do conglomerado em 2008. "Trabuco era a bola da vez", disse o presidente da Austin Ratings, Erivelto Rodrigues.
Trabuco nasceu em Marília, no interior de São Paulo, cidade de origem do Bradesco. É formado pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Paulo.
Iniciou a carreira bancária em abril de 1969 no Bradesco, onde passou por todos os escalões da hierarquia. Em janeiro de 1984, foi eleito diretor departamental; passou a diretor executivo gerente em março de 1998, e a diretor vice-presidente executivo, no ano seguinte, cargo que ocupa atualmente. Foi membro do conselho de administração do banco de março de 1999 a março de 2005 e voltará a ocupar um assento, agora. Participa também da administração das demais empresas da Organização Bradesco. É membro da Mesa Regedora e diretor gerente da Fundação Bradesco.
O executivo também ocupou e ocupa alguns postos em associações de classe. É presidente da Federação Nacional de Saúde Suplementar (Fenasaúde) e diretor vice-presidente da Federação Nacional das Empresas de Seguros Privados e de Capitalização (Fenaseg). Foi presidente da Associação Nacional da Previdência Privada (Anapp).
Talvez por sua formação, Trabuco costuma mesclar as informações técnicas com alguma erudição. Nas suas apresentações, em meio às discussões sobre prêmios, sinistros e resseguro, sempre citava trechos de escritores e poetas. Em 2006, recorreu à famosa frase de Nelson Rodrigues, "toda unanimidade é burra" ao analisar a tendência daquele momento de vários bancos venderam as seguradoras e virarem apenas distribuidores de produtos.
Para alguns analistas, a personalidade humanista dará um diferencial em relação a Cypriano, formado em Direito, sempre muito objetivo. Na semana passada, Cypriano chegou a bater de frente com o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, ao discutir juro.
Os analistas não esperam mudanças radicais na administração do Bradesco. "A indicação de Trabuco é sinal de continuidade da estratégia", disse a analista da Gradual, Mônica Araújo.
O analista da Lopes Filho espera de Trabuco "continuidade e gestão de custos". Segundo ele, "o Bradesco passou por sua melhor gestão nos últimos 10 anos".
O próprio Brandão chegou a cogitar publicamente mudar o estatuto do Bradesco para prorrogar o mandato de Cypriano. "O banco preferiu respeitar as melhores práticas de governança corporativa", ponderou Erivelto Rodrigues.
De fato, com uma receita de aquisições agressivas e crescimento orgânico, Cypriano quintuplicou os ativos do Bradesco, para R$ 422,7 bilhões em setembro; e o patrimônio, para R$ 34,2 bilhões. O valor de mercado triplicou para perto de R$ 70 bilhões. Foram 20 aquisições em 10 anos, do Boavista ao BBVA e BMC. A carteira de crédito cresceu sete vezes para. Foram abertas 800 agências levando a rede para 3,2 mil; e a carteira de clientes triplicou para 37 milhões.