Título: País pede que Obama não se esconda "atrás de formalidades" e ajude Doha
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Fonte: Valor Econômico, 12/12/2008, Brasil, p. A2
O Brasil fez ontem o primeiro ataque na cena internacional contra o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, ao cobrar apoio a um um acordo agrícola e industrial na Rodada Doha, que está de novo à beira do abismo. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, a voz do país na cena internacional, conclamou o futuro ocupante da Casa Branca a "não se esconder atrás de formalidades", pelo fato de não ter assumido o cargo ainda, e mostrar liderança para salvar a negociação global. Ruy Baron/Valor
Celso Amorim: "Nesse estágio, líderes têm de mostrar que são líderes"
"É muito bom dizer que só há um governo por vez. Mas ninguém pode se esconder de suas responsabilidades. E nesse estágio, líderes têm de mostrar que são líderes, não podem se esconder atrás de formalidades", disse o representante brasileiro, em referência ao argumento persistente de Obama de que os EUA só tem um presidente por vez, e assim não se envolver nas decisões atuais.
O ministro brasileiro acrescentou: "Você tem uma administração que está encarregada das negociações, mas tem uma outra que está na sombra. E se não temos um sinal político da que está vindo, então será muito difícil porque mesmo outros países terão temor de negociar."
A declaração do ministro brasileiro das Relações Exteriores surpreendeu os jornalistas, à saída de encontro com o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy, que parecia destinada aos repetidos argumentos sobre a importância da rodada.
Para certos negociadores na cena comercial, Amorim é o primeiro representante estrangeiro a alvejar Obama e sua liderança, pelo menos no que diz respeito à inação na área comercial.
Celso Amorim citou o que considerou um exemplo de liderança, na transição do então presidente Fernando Henrique Cardoso para Luiz Inácio Lula da Silva, com ambos concordando na solução de problemas difíceis na época, inclusive o envolvendo a vizinha Venezuela.
A negociação de Doha está de novo em crise por causa dos EUA, na opinião generalizada. Pascal Lamy planejava convocar uma reunião ministerial para este fim de semana, em seguida ao compromisso dos 20 chefes de Estado e de governo reunidos em Washington em novembro, para concluir uma parte do acordo ainda este ano.
Esse compromisso foi arrancado sobretudo pelo Brasil. A tática, que o Itamaraty não escondia, era de impulsionar por um acordo agrícola e industrial até o fim do ano, para reduzir a capacidade da futura administração americana de recusá-lo ou querer alterá-lo.
Só que persistiram dois problemas: primeiro, a transição política no centro do poder mundial. Obama não quis se envolver sequer no assunto que realmente interessa aos americanos, que é como sair da crise financeira. Sua equipe prepara seus planos, evitando se envolver nas decisões da administração do combalido e impopular George W. Bush.
Negociadores dizem que Lamy teria recebido sinalizações da equipe de Obama, de que um acordo agrícola e industrial este ano não os incomodaria. Publicamente, porém, nunca houve esse sinal, e países acham que perdem tempo fazendo concessões agora, quando vão ser cobrados ainda mais no ano que vem.
Depois, os negociadores americanos apareceram com novas exigências na área industrial, para participação obrigatória do Brasil, China e Índia em pelo menos dois acordos setoriais para eliminação acelerada de tarifas.
Após ter evitado um convite da atual representante comercial americana, Susan Schwab, para participar de videoconferência com ela na quarta-feira, Amorim soltou ontem as baterias contra a tática de negociação de Washington.
"É muito irônico que algumas das demandas excessivas vêm precisamente de lugares de onde a crise (financeira e econômica global) foi originada", disse Amorim, evitando mencionar expressamente os EUA. "Esse é o país que deveria estar mostrando o máximo de flexibilidade", acrescentou, numa alusão às enormes falências, demissões e queda no consumo americano.
Lamy deve decidir hoje se ainda convoca uma reunião ministerial para os próximos dias. Para o representante brasileiro, porém, isso só será possível com sinal da futura administração americana. Mas insistiu que não ter a ministerial "é também um fiasco e que terá impacto".
Para vários embaixadores ouvidos ontem, a tentativa de ministerial nos próximos dias "está morta". Por sua vez, Amorim repetiu que o Brasil não terá energias para continuar colocando numa negociação que não anda - mas evitou dizer que era o fiasco total de Doha.