Título: Uma reunião, duas versões
Autor: Rothenburg, Denise ; Luiz, Edson
Fonte: Correio Braziliense, 19/02/2010, Cidades, p. 27

Em discurso, Paulo Octávio diz que o presidente Lula teria recomendado a ele que ficasse mais tempo no cargo. Planalto reage e nega conselho. Governador interino admite erro e culpa o improviso

Em apenas cinco horas, o ânimo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em relação ao governador em exercício Paulo Octávio (DEM) passou de um gesto de apreço a uma profunda irritação. A guinada se deu por conta da versão de Paulo Octávio a respeito do encontro de 20 minutos que os dois mantiveram, ontem pela manhã, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Em seu pronunciamento, feito por volta das 17h, Paulo Octávio disse que Lula havia lhe pedido que ficasse no cargo por mais alguns dias. Pouco mais de meia hora depois do discurso, o ministro de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, desmontou a versão do governador em exercício.

¿O presidente, ao saber pelo próprio governador Paulo Octávio que ele cogitava a renúncia, deixou muito claro que essa decisão era de foro íntimo e não emitiu qualquer opinião a respeito. Disse apenas que o governo federal está preparado para o que a Justiça determinar e avisou que a Controladoria Geral da União faria uma auditoria em todos os contratos custeados com recursos federais¿, disse Padilha ao Correio.

O desmentido foi feito por ordem do próprio presidente Lula. Padilha já estava no Congresso do PT quando, junto com a orientação presidencial, foi informado do teor do pronunciamento do governador em exercício. Lula não gostou de vê-lo citar seu nome por seis vezes durante o pronunciamento feito no Palácio do Buriti, onde anunciou que não renunciaria ao governo local.

Desde a sexta-feira, o presidente tentava se esquivar de um encontro com Paulo Octávio. Só concordou em recebê-lo por uma questão institucional. Não ficaria bem negar uma conversa a um governador, ainda mais o do Distrito Federal.

Poucos minutos depois, a assessoria do governador em exercício divulgou uma nota oficial alegando que Paulo Octávio teria se enganado em seu discurso. O GDF informou que o governador interino falava de improviso e que citou Lula ¿inadvertidamente¿. ¿Durante o encontro, o presidente Lula apenas manifestou sua preocupação com a questão institucional de Brasília¿, informou o GDF em sua nota oficial (leia ao lado a íntegra do documento).

Bastidores O encontro de Paulo Octávio com Lula não estava previsto na agenda presidencial. Antes de o governador interino entrar em sua sala, Lula recebeu o ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, o advogado-geral da União, Luiz Adams, e o ministro da Secretaria de Comunicação, Franklin Martins, além do presidente da Comissão de Ética Pública, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Sepúlveda Pertence. Eles fizeram uma exposição ao presidente sobre o andamento das ações no STF, inclusive em relação à hipótese de intervenção.

Assim que eles saíram entrou Paulo Octávio, que aguardara por cerca de 20 minutos na sala de Gilberto Carvalho, junto com Swedenberger Barbosa, assessor especial da Presidência da República e ligado ao PT do Distrito Federal. Nesta conversa preliminar, o governador avisou que carregava no bolso duas cartas ¿ uma de renúncia, outra de pedido de apoio.

Na audiência com Lula participaram Padilha, Barreto e Franklin Martins. Lula ouviu mais do que falou. Na conversa, quando Paulo Octávio mencionou a hipótese de renúncia, Lula foi taxativo: ¿É uma decisão de foro íntimo, muito difícil. Você está na linha de tiro e, nessa situação, é muito difícil a gente ter tranquilidade¿. Dito isto, o presidente então passou a discorrer sobre o fato de estar pronto para fazer o que a Justiça determinasse e que, a ele, Lula, não cabia outro movimento, senão aguardar as decisões judiciais.

No Planalto, começa a prevalecer a tese de que a situação do DF é tão complicada que o melhor a fazer é dar tempo ao tempo e, como disse Lula, aguardar o que será decidido pela Justiça. É lá que hoje se concentram todos os olhares do governo federal em relação à crise do DF.

É uma decisão de foro íntimo, muito difícil. Você está na linha de tiro e, nessa situação, é muito difícil a gente ter tranquilidade¿

Lula, em reunião com o governador interino Paulo Octávio

Colaborou Flávia Foreque

O esclarecimento do GDF Monique Renne/CB/D.A Press - 12/11/09 Padilha, ministro de Relações Institucionais: desmentido

¿O Governo do Distrito Federal vem esclarecer que, durante seu discurso, nesta quinta-feira (18), no momento em que falava de improviso, o governador interino do DF, Paulo Octávio, disse, inadvertidamente, que o Excelentíssimo Senhor Presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria `recomendado¿ que ele permanecesse no governo.

Na realidade, em nenhum momento Sua Excelência o Presidente fez qualquer sugestão, recomendação ou proferiu qualquer manifestação sobre sua permanência ou não no cargo. Durante o encontro, o presidente Lula apenas manifestou sua preocupação com a questão institucional de Brasília.¿

Cresce o coro pela expulsão no DEM Jose Varella/CB/D.A Press - 16/10/08 Rodrigo Maia (E) e Paulo Bornhausen: tendência é que Paulo Octávio seja expulso da legenda na próxima semana

O pronunciamento do governador em exercício Paulo Octávio foi considerado pela cúpula de seu partido como um ¿strike invertido¿ ¿ em vez da principal jogada do boliche, em que apenas uma bola derruba todos os pinos, nesse caso os pinos atingiriam o jogador. Isso porque ele conseguiu desagradar tanto o governo federal, de quem esperava apoio, quanto seu partido, o Democratas. No caso do DEM, está claro: entre o partido e o governo do DF, a avaliação é a de que Paulo Octávio escolheu o governo. Assim, se ele não se desfiliar até segunda-feira, a tendência é de expulsão, conforme antecipou ontem ao Correio o líder do partido no Senado, José Agripino (RN).

Ameaçado de perder a legenda que lhe garantiria o direito de disputar qualquer cargo eletivo em outubro próximo, o governador em exercício avalia a hipótese de buscar na Justiça uma desfiliação por justa causa como forma de buscar automaticamente uma nova filiação partidária. A decisão, no entanto, afirmam assessores do governador, não está tomada.

A cúpula partidária garante que os dias de Paulo Octávio no DEM estão contados. Os líderes nacionais da legenda acompanharam o pronunciamento pela TV apenas para conferir o que Paulo Octávio havia dito ao líder do DEM no Senado, José Agripino, por volta das 15h, quando avisou que renunciaria ao governo do DF. ¿Vou sair. Estou indo ao Buriti para anunciar¿, afirmou ele ao companheiro de sigla. O senador apenas assentiu e seguiu tranquilo para Natal, certo de que seu partido estaria, a partir de agora, fora da crise que ficou conhecida como o ¿mensalão do DEM¿. ¿Não é nada pessoal contra Paulo Octávio. É o GDF e o que o governo representa hoje. O partido tem que cortar todo e qualquer vínculo com o GDF", explicou o deputado ACM Neto (DEM-BA), vice-presidente nacional do DEM.

No final da tarde, quando, além de permanecer no cargo, Paulo Octávio citou ainda o presidente Lula, a cúpula do DEM estrilou. A manifestação mais contundente foi do líder do partido na Câmara dos Deputados, Paulo Bornhausen (SC). ¿Ao dizer que acatou conselho de presidente Lula, Paulo Octávio praticamente assina sua ficha de desfiliação¿, começa a nota redigida pelo líder, que procura atingir o PT. ¿Os Democratas não pactuam, de maneira alguma, com a corrupção. E muito menos com o que o PT faz¿, informou a nota (leia a íntegra acima).

O partido de Rodrigo Maia, Paulo Bornhasuen e ACM Neto considerou que Lula teria inflado Paulo Octávio a permanecer no cargo para deixar o DEM sangrando no epicentro da crise do DF. E, assim, Demostenes Torres e Ronaldo Caiado, que puxam o movimento pela expulsão do governador em exercício, passaram a receber novos apoios na sua cruzada para expulsar Paulo Octávio.

Paulo Bornhausen pertencia ao grupo do partido que ainda pregava certa cautela em relação ao pedido de expulsão do governador. Agora, promete engrossar o coro pela saída do governador. ¿Os membros do partido que ainda estão no GDF deverão sair ou do governo de Brasília, ou do partido¿, diz Bornhausen na nota, divulgada às 18h30.

Menos de 20 minutos depois, a assessoria de Paulo Octávio distribuiu sua nota de esclarecimento, dizendo que citara inadvertidamente o presidente Lula e que este não havia lhe dado conselhos para permanecer no comando do GDF.

Para o DEM, no entanto, a escolha está feita e deu fôlego ao movimento pela saída de Paulo Octávio do partido. Se o governador não sair da legenda, avaliam muitos, o tempo irá resolver sua situação. E, hoje, dentro do Democratas, ele corre contra o governador em exercício. (Denise Rothenburg)

A nota na íntegra ¿Democratas não é o PT¿

¿A única recomendação que o governador em exercício do Distrito Federal, Paulo Octávio, deveria seguir é a de seu partido, os Democratas. Ao dizer que acatou conselho do presidente Lula, Paulo Octávio praticamente assina sua ficha de desfiliação.

Os Democratas não pactuam, de maneira alguma, com a corrupção. E muito menos com o que o PT faz ¿ ao invés de punir, premiar os mensaleiros, réus no Supremo Tribunal Federal e chamados de quadrilheiros pelo procurador-geral da República, com cargos de chefia no partido, no governo federal, no Congresso Nacional e no comando da campanha presidencial de sua candidata.

Somos pela aprovação e aplicação imediata do projeto da Ficha Limpa. E temos moral para assumir essa posição.

O que Lula e o PT querem é nivelar a política por baixo, a partir de seus atos.

A decisão da Executiva Nacional do partido será conhecida na semana que vem, e seguirá, sem dúvida, o estabelecido na nota divulgada na semana passada, pelo nosso presidente. Os membros do partido que ainda estão no GDF deverão sair ou do governo de Brasília, ou do partido.¿

Brasília, 18 de fevereiro de 2010 Deputado Paulo Bornhausen Líder dos Democratas