Título: Negociar com o PMDB não é trabalho para amadores
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 05/02/2009, Opinião, p. A10
O PMDB no comando das duas casas legislativas não é prova de unidade do partido, também não significa apoio sólido e orgânico ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva, nem tampouco quer dizer que antecede um apoio efetivo da agremiação à candidatura da ministra Dilma Rousseff (PT) à Presidência. Significa que o partido dificilmente dará garantias de apoio maciço ao Palácio do Planalto em votações mais polêmicas, está rachado agora e tem enormes chances de estar igualmente cindido em 2010, e deve dividir seu apoio entre a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), e o candidato do PSDB, na disputa presidencial. Mesmo rachado, todavia, saiu fortalecido na base parlamentar do governo Lula - e isso exigirá intermináveis negociações entre o governo e cada um de seus grupos para garantir a governabilidade nos próximos dois anos.
Logo depois de entregar a presidência do Senado para José Sarney (PMDB-AP), o senador Garibaldi Alves (PMDB-RN) constatou: "É verdade que o PMDB nunca esteve unido, mas está mais dividido do que nunca". De fato, se essas eleições para as presidências da Câmara e do Senado acabaram sendo um desfile de traições a compromissos partidários e à palavra dada, a deslealdade foi o prato servido especialmente e à farta nas fileiras peemedebistas. Michel Temer (SP) conseguiu se eleger pela terceira vez presidente da Câmara apesar do líder eleito do Senado, Renan Calheiros (AL), que trabalhou contra ele. O senador José Sarney elegeu-se presidente do Senado a despeito dos esforços em contrário do ministro da Integração Regional, Geddel Vieira de Lima (PMDB-BA), que se empenhou em tentar eleger o senador petista Tião Viana (AC).
O resultado da disputa, embora inegavelmente fortaleça o PMDB como parceiro na disputa presidencial do ano que vem, deixa no ar a grande dúvida: parceiro de quem? No final das eleições para as mesas do Congresso, a discordância já estava exposta: o ex-senador Orestes Quércia, que tem o controle da máquina partidária em São Paulo, defendeu o apoio ao candidato do PSDB à Presidência; o grupo ligado a Temer, também de São Paulo, deu um passo em direção à ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Nas eleições de 2002, quando a legenda se dividiu entre assumir o cargo de vice-presidente na chapa encabeçada pelo candidato do PSDB, José Serra, ou ter candidatura própria, que afastaria o partido de um governo do qual participava, a divisão produziu uma convenção dramática, em que os dois grupos não se pouparam de agressões e de manobras contra o outro. O tucano foi para a eleição com um companheiro de chapa do PMDB, mas levou apenas metade do partido para o palanque.
A diferença entre as eleições passadas e a de 2010 chama-se Geddel Vieira de Lima (BA), que ocupa a pasta da Integração Regional do governo Lula. Geddel, que era um dos líderes da oposição a Lula no primeiro mandato, quando aderiu ao governo foi de armas e bagagens. Conseguiu ampliar o seu grupo e tornar a bancada do PMDB na Câmara majoritariamente governista. Como os líderes peemedebistas que são governistas dependem muito da proximidade com as instâncias de decisão do Executivo para sobreviver regionalmente, todavia, a ampliação do poder do ministro na bancada da Câmara teve um efeito colateral. Os senadores peemedebistas que são governistas mantêm-se em guerra permanente com a bancada na Câmara, com a intenção de aumentar o seu poder de barganha junto ao Planalto e a ampliar os seus espaços. Existe, portanto, não apenas um conflito interno entre os oposicionistas e governistas do partido, mas há uma cisão no próprio grupo governista.
Os jornais noticiaram que o presidente Lula gostou do resultado das eleições na Câmara e no Senado. Como não é neófito em PMDB, ele deve saber o que isso representa. Deve achar que amarrar a candidatura do PT - provavelmente da ministra Dilma Rousseff - ao PMDB vale qualquer sacrifício. Se fechar um acordo com o partido, levará para o palanque uma grande legenda rachada. Isso, para um governo que foi eleito apenas em aliança com partidos pequenos, pode até ser uma vantagem. Para que aguente até 2010, contudo, precisa de um ótimo articulador político. O PMDB é um partido dividido e problemático, mas está longe de ser amador.