Título: Steinbruch faz acordo para ficar com a CSN
Autor: Ivo Ribeiro, Vanessa Adachi e Vera Saavedra Durão
Fonte: Valor Econômico, 01/03/2005, Empresas &, p. B1
Em um compromisso de compra e venda divulgado ontem, que surpreendeu o setor siderúrgico, a família Steinbruch, liderada por Benjamin Steinbruch, abre caminho para assumir o controle da Cia. Siderúrgica nacional (CSN) e da Vicunha Têxtil. Juntas, as duas empresa tiveram uma receita bruta na casa de R$ 13 bilhões em 2004 na produção de aços planos e de fios, tecidos e confecções. O negócio, previsto para ser concretizado em alguns meses, interrompe uma sociedade de mais de seis décadas com a família Rabinovich. A operação, segundo fontes próximas das negociações, poderá ser de US$ 700 milhões a US$ 1 bilhão. Conforme antecipou o Valor na edição de 26 de novembro, Jacks Rabinovich e os herdeiros de sua irmã Clotilde, já falecida, mostravam interesse em se desfazer de suas participações nos dois negócios. Para isso, Jacks contratou o banco de investimento Goldman Sachs para desenhar uma saída. A operação final, no entanto, foi fechada diretamente entre as famílias. Segundo apurou o Valor, Benjamin Steinbruch negocia um prazo de até cinco anos para quitar a transação com a família Rabinovich. A sua família, com o negócio, se tornaria a maior acionista de CSN e Vicunha Têxtil. A operação envolve compra de 50% do controle da holding Vicunha Steel - que é dona de 46,48% da CSN -, e a aquisição de metade da ações votantes da Vicunha Participações, que por sua vez controla 61,4% da Textília. Essa holding tem 82,3% da Vicunha Têxtil. O que o mercado dá como certo é que Steinbruch vai se financiar com bancos para pagar a compra dos dois ativos. Especulava-se ontem que a Vicunha Siderurgia poderá lançar uma debênture para captar pelo menos parte dos recursos necessários. Caso ele consiga um prazo longo para quitar a operação, parcelas futuras poderão ser pagas com dividendos oriundos da CSN. Essa já tem sido a fórmula usada no pagamento da dívida com o BNDES, que em novembro somava R$ 1,95 bilhão com vencimento até 2011. Essa dívida, segundo fontes que acompanham o negócio, hoje é pouca significativa para a empresa em relação ao porte dos seus ativos - a siderúrgica e a companhia têxtil. Isso deixa muito espaço para que o grupo se alavanque para esta aquisição de ações dos Rabinovich. Analistas de siderurgia avaliam que o negócio poderá aumentar o valor de mercado da CSN, atualmente de US$ 7,5 bilhões e, ao mesmo tempo, eliminar a possibilidade de vir a ser adquirida pelo grupo Gerdau no curto prazo. Segundo eles, "com a empresa toda na mão" Benjamin Steinbruch estará mais à vontade para tocar seus projetos e decidir sobre seu destino. Outras fontes ligadas às negociações acreditam que a operação foi levada ao conhecimento do BNDES. O banco, que é o principal credor da Vicunha Siderurgia, tem ações da CSN em garantia ao empréstimo feito em março de 2001 para a operação de descruzamento com a Vale do Rio Doce. Steinbruch, com isso, deixou a mineradora e o dinheiro foi usado para pagar as partes da Previ e da Bradespar no capital da CSN. A assessoria do BNDES foi procurada pelo jornal, mas não se manifestou sobre o assunto. Em princípio, o banco teria de ser avisado e dar um parecer favorável ao negócio, por ser credor e ter parte das ações em garantia. Fontes do setor avaliam que a venda da participação dos Rabinovich para a família Steinbruch não altere a estratégia de negócios da CSN, hoje voltada para projetos de expansão da mina de Casa de Pedra e construção de uma pelotizadora, de forma a criar um braço de mineração. Também estão no portfólio de investimento da companhia, que produz 5,8 milhões de toneladas de aço bruto ao ano, a expansão da usina de Volta Redonda. Está previsto num novo alto-forno e até um usina de placas em Itaguaí, no longo prazo. "Hoje, o foco de Steinbruch é entrar firme no mercado de minério de ferro", confidenciou uma fonte. Não há planos concretos para uma futura consolidação no mercado doméstico com a Usiminas. O assunto já chegou a ser estudado, mas é considerado complexo pela CSN. O controle da CSN é único, enquanto o da Usiminas é compartilhado por vários acionistas, como Votorantim, Camargo Corrêa, Nippon Steel e funcionários. A tarefa de unir estas duas culturas societárias não é simples, mas também não é impossível, avaliam fontes do setor. Mas, certamente não vai ser uma empreitada de curto prazo. A CSN é considerada a primeira escolha do setor siderúrgico por analista como Marcelo Aguiar, da Merrill Lynch. Isto, porque a companhia é auto-suficiente em minério de ferro, o que aumenta seu valor de mercado e econômico. O impacto do preço do minério de ferro sobre as usinas não vai trazer maiores dificuldades à CSN, que pelo contrário, passará em 2006 a exportar esse insumo.