Título: Stédile pede ação de presidentes em reunião a que Lula não foi convidado
Autor: Nassif , Maria Inês
Fonte: Valor Econômico, 30/01/2009, Política, p. A8

Os quatro presidentes sul-americanos integrados ou simpáticos ao projeto da Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba) foram incitados ontem pelo líder do MST, João Pedro Stédile, a agirem com mais pressa na construção de uma unidade popular no continente em torno de um programa comum que, mesmo não sendo o socialismo, "logre resolver os problemas imediatos da população" e que seja um instrumento de superação do neoliberalismo. Lucas Lacaz Ruiz/Folha Imagem

Morales, Lugo, Chávez e Correa: presidentes mais à esquerda na América do Sul foram escolhidos como depositários das expectativas dos movimentos sociais

Foram chamados a ouvir as conclusões das plenárias dos movimentos sociais da Alba os presidentes da Venezuela, Hugo Chávez; do Equador, Rafael Correa; do Paraguai, Fernando Lugo; e da Bolívia, Evo Morales. No ginásio lotado da Universidade Estadual do Pará, Stédile, como porta-voz dos movimentos, analisou que está encerrado "um ciclo de resistência" contra o neoliberalismo e que é necessário "dar um passo a mais".

Incitando os presidentes à ação, Stédile lembrou que os chefes de Estado da América do Sul se reuniram em Salvador para discutir a crise e saíram sem uma proposta concreta de unidade. "Não decidiram nada e foram à praia, quando nós aqui tínhamos a expectativa de mudança". E concluiu: "O que nós precisamos é de unidade popular em torno de um programa mínimo para superar o neoliberalismo e para medidas anticapitalistas: recuperar a soberania dos povos sobre os seus recursos naturais - sobre o petróleo, sobre Itaipu, sobre sua energia, sobre os minérios, e acabar com a dependência externa". "Não temos que ter medo da nacionalização da banca", disse, afirmando que "o capital financeiro continuará a arrumar formas de exploração".

Os presidentes mais à esquerda na América do Sul acabaram sendo os escolhidos como os depositários das expectativas dos movimentos sociais, que excluíram do diálogo os chefes de governo que não consideraram afinados com suas idéias, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva inclusive. "A imprensa está perguntando porque não há mais presidentes convidados, mas não se trata de protagonismos, mas de um processo de integração para a liberação dos povos", discursou Stédile. Traduzindo, segundo outro líder do MST, Jaime Amorim, a idéia era reunir presidentes afinados com eles no que diz respeito a modelo de desenvolvimento e reforma agrária. "Inicialmente Lula abandonou a reforma agrária e a sua política ambiental e o seu modelo de desenvolvimento também não têm afinidade conosco", afirmou Amorim. Segundo ele, o modelo de desenvolvimento agrário abraçado por Lula remete às "plantations", que os governos de esquerda da América Latina acham que não cabe mais na vida de de seus países, e que a Via Campesina rejeita.

Uma ressalva, no entanto, foi feita por Stédile em favor de Lula, no seu discurso de encerramento. Ele afirmou que, nos dez anos de "resistência ao neoliberalismo", as eleições de Lula, no Brasil, e dos Kirschner, na Argentina, também fizeram parte do avanço. "Mas não conseguimos o reascenso das massas de modo a alterar a correlação de forças na América Latina".

A reunião dos presidentes com os movimentos sociais não era, definitivamente, a praia de Lula. O presidente do Paraguai colocou na mesa a divergência do seu país e do Brasil em relação a alterações nos contratos de Itaipu. "Nós queremos que Lula, companheiro de lutas, atenda a justa reivindicação de um preço justo para a energia de Itaipu e também da livre disponibilidade da energia [liberdade para que o Paraguai venda a sua cota de energia para quem quiser, não apenas para o Brasil]". Reivindicou conversar de igual para igual com o Brasil e teve a solidariedade de todos os seus colegas.

Evo Morales afirmou que os movimentos sociais dos países ainda movidos pelo neoliberalismo tinham que ter "muita competência". "Não se sintam perdidos, irmãos e irmãs, estamos na luta com vocês", afirmou. Chávez atacou o capitalismo americano, como seus outros companheiros, e disse que está em alerta em relação ao novo presidente, Barack Obama. Todos os quatro afirmaram claramente o compromisso com o socialismo constataram os "novos ventos" na América Latina", conforme afirmou Lugo.

Exceto pela fala dura de Stédile, o clima foi de descontração. À espera de Chávez, que atrasou o encontro, Rafael Correa foi o primeiro a pegar o microfone para cantar junto com um grupo latino-americano. Em seguida, quase toda a mesa acompanhou a música. Na despedida, todos eles cantaram a todo fôlego a canção que é o hino da esquerda, de homenagem a Che Guevara. Uma pequena torcida equatoriana, acompanhada por alguns índios vestidos à caráter, se manifestava ruidosamente a cada manifestação de Correa, e a cada menção ao país e ao presidente. Chávez, no entanto, foi de longe o mais aplaudido.