Título: Sócios assumem parte da Vale na Usiminas
Autor: Ribeiro, Ivo
Fonte: Valor Econômico, 30/01/2009, Empresas, p. B1

Em uma operação que deverá ser superior a R$ 500 milhões, incluindo o prêmio de controle acima de 30%, a Vale do Rio Doce está deixando o capital da Usiminas. O negócio foi divulgado ontem pela Nippon Steel, que acertou a compra dos 5,9% de ações ordinárias que a mineradora detinha na siderúrgica mineira. Os demais acionistas do bloco de controle - Votorantim, Camargo Corrêa e Clube dos Empregados da Usiminas - têm direito de preferência, proporcionalmente às suas participações. Pelo valor de mercado, a parte da Vale é de R$ 410 milhões.

Votorantim e Camargo Corrêa vão exercer seus direitos de compra dentro do prazo a que têm direito, segundo apurou o Valor. A incerteza fica por conta do clube dos empregados, donos de 10,1% de papéis ordinários da empresa. Uma das dificuldades poderá ser o elevado nível de alavancagem em ativos variáveis. A carteira do clube é praticamente composta de ações da siderúrgica. Diante disso, Nippon Steel e os dois grupos brasileiros devem dividir a participação da Vale entre si.

A venda dos papéis da Vale não muda nada no equilíbrio de forças dentro do bloco de controle da Usiminas. O grupo japonês, liderado pela Nippon, e o brasileiro V/C já compartilham o controle da empresa. Juntos, com três membros no conselho de administração cada um, eles tomam as principais decisões, como a indicação do presidente da companhia. Os 5,9% da Vale não lhe dava direito a vetos nas decisões.

A saída da Vale põe de vez um fim às suas pretensões de ter poder de influência na siderúrgica, onde entrou em 1991 no processo de privatização do setor. Em 2006, a mineradora fez fortes pressões para entrar no bloco de controle da Usiminas. Um dos objetivos, era valorizar seus papéis - seus 23% de ações ordinárias não tinham direito a voto. Outro objetivo era acelerar os planos de expansão da Usiminas, que naquele momento encontrava-se mais preocupada em quitar dívidas do que investir, enquanto a demanda mundial por aço crescia fortemente desde 2004.

Um dos conflitos consistia no desejo da Vale que a empresa definisse a construção de uma nova usina de aço de pelo menos 5 milhões de toneladas. Com isso, a mineradora iria garantir um fornecimento expressivo de minério de ferro para o projeto. O comportamento da direção da Usiminas, então presidida por Rinaldo Campos Soares, foi bastante criticado por Roger Agnelli, presidente da Vale, em algumas ocasiões.

No arranjo societário concluído em novembro de 2006 quem ganhou forças foram, além dos japoneses, Votorantim e Camargo Corrêa. Junto com Nippon, compraram parte das ações da Vale e relegaram sua participação a apenas 9,2% dentro bloco de controle, com quase nenhum direito de decisão. Com as portas fechadas, no ano seguinte a Vale vendeu em oferta pública um grande lote de papéis da Usiminas na Bolsa e em maio do ano passado anunciou que desejava sair de vez do capital da siderúrgica, o que fará agora.

Procurada, a Vale informou por meio de sua gerência de comunicação que não divulgaria ontem nenhum comunicado sobre a operação e que nem se manifestaria sobre o assunto. Ontem, houve reunião do conselho da companhia, na qual estava previsto que o tema entraria na pauta. A Usiminas divulgou comunicado informando que tomara conhecimento, por parte da Vale, que a mineradora tinha oferecido sua participação à Nippon e à Nippon Usiminas e que estes tinham concordado em adquirir seus papéis. Votorantim informou que não comentaria e Camargo não se manifestou.

Analistas disseram-se surpresos de a venda ocorrer justamente num momento de baixa. A ação ON da Usiminas fechou ontem a R$ 27,51. Em maio, quando a Vale comunicou se desfazer dessa participação, valia R$ 80. "Por que a venda agora se a Vale tem caixa", questionaram. (Colaborou Vera Saavedra Durão, do Rio)