Título: Para governo, números dão sinais de crescimento sustentado
Autor: Vera Saavedra Durão
Fonte: Valor Econômico, 02/03/2005, Brasil, p. A4
O governo comemorou, ontem, o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) em 2004 e minimizou o arrefecimento nos últimos três meses do ano. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, considera que a queda dos investimentos no quarto trimestre - apontada nas contas nacionais, divulgadas ontem - é uma acomodação natural, depois de uma seqüência de vários trimestres de expansão. "O crescimento do quarto trimestre se deu sobre uma base bem maior", afirmou. "Não existe exemplo de crescimento que seja linear. É natural um processo de acomodação, não só no investimento, mas no próprio crescimento do PIB." O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, identificou nos dados do PIB sinais de crescimento sustentado da economia. "Não há nenhuma possibilidade de vôo de galinha", disse. Ele destacou que, no ano como um todo, houve expansão de investimentos e produção industrial. Esse quadro, segundo o ministro, não ocorre há dez anos e, portanto, sinaliza para um período de crescimento da economia longo, forte e com mais renda para as famílias. Palocci destacou os aumentos do consumo interno e das exportações como decisivos para o resultado expressivo do PIB. Segundo o ministro, a economia mostra vitalidade, mas o governo ainda tem uma extensa agenda para melhorar as condições do país. Palocci afirmou que saúde financeira requer esforço fiscal e que o governo fará o necessário para reduzir a relação entre dívida e PIB. Meirelles, que concedeu uma rápida entrevista após o almoço semanal com a equipe econômica, aproveitou para elogiar a política fiscal, creditando a ela boa parte do crescimento no ano passado. "Já que estou na porta do Ministério da Fazenda, gostaria de expressar a minha total confiança na política fiscal nos próximos anos." A mais recente ata do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC, divulgada na semana passada, exalta as virtudes de uma política de maior contenção de gastos, assinalando que poderia ajudar a controlar a inflação e a baixar a taxa real de juros. Analistas econômicos vem criticando a redução do superávit primário, que foi de 4,61% do PIB em 2004 e deverá cair a 4,1% neste ano, levando em consideração o impacto fiscal do pacote de investimentos negociado com o Fundo Monetário Internacional (FMI). "O PIB mostra com clareza o resultado de uma política econômica equilibrada, baseada em uma política fiscal sólida e, principalmente, consistente no tempo", disse Meirelles. Ele defendeu também a atual dosagem da política de juros. "Certamente não existe política econômica de sucesso com uma política monetária que seja extremamente rígida ou excessivamente frouxa." O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, também defendeu a política de juros mais restritiva adotada pelo BC - qualificando-a de transparente e acertada. O ministro comentou que, no âmbito da arrecadação federal, a carga tributária em 2004 foi menor que a de 2002. E neste ano esse peso será ainda menor porque o governo adotou 21 medidas de desoneração. O secretário do Tesouro, Joaquim Levy, disse ontem, no Rio, que é possível manter o ritmo de crescimento este ano. "Depende da resposta do setor privado, o principal desafio é destravar algumas decisões de investimentos, que têm muito a ver com a clareza de qual o papel do Estado e a confiança do investidor de que a gente está entrando num período de maior estabilidade e segurança", explicou ele. "Nossa estimativa de crescimento é de 4%, mas eu espero que ela surpreenda positivamente", afirmou. O resultado de 2004, segundo ele, não surpreendeu, mas é muito bom. "O importante é manter as políticas de crédito, fiscal e monetária, alinhadas para manter um ritmo sustentado", disse. Para o secretário, a tendência geral do investimento é de alta, mas é normal ocorrer pequenas quedas isoladas. "Existem questões de sazonalidade na comparação trimestre a trimestre, as séries ficam muitos voláteis e não permitem informações precisas", afirmou. Segundo ele, é factível um acréscimo de 10% à taxa de investimento em 2005. "Estamos trabalhando para que esse dado seja muito positivo." Segundo o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Bernard Appy, o resultado do PIB foi muito positivo e não causou surpresas. Para este ano, ele mantém o otimismo. "Evitamos fazer previsões, porque elas podem ser interpretadas como compromisso, mas posso afirmar que toda nossa gestão na política econômica está sendo feita para manter este ritmo", disse. Em relação à ligeira queda dos investimentos, no último trimestre de 2004, o secretário afirmou que não existe nada que justifique um temor em relação a esse dado.