Título: Demanda interna garante 80% da alta do PIB
Autor: Vera Saavedra Durão
Fonte: Valor Econômico, 02/03/2005, Brasil, p. A4

O crescimento de 5,2% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2004, a maior taxa dos últimos dez anos - e que levou a um aumento de 3,7% do PIB per capita -, deve ser creditado ao bom desempenho da demanda interna. Ela respondeu por 4,1 pontos percentuais da taxa global do produto, enquanto o setor externo contribuiu com 1,1 ponto deste bom resultado. A demanda interna foi sustentada, no ano passado, pelo crescimento de 4,3% no consumo das famílias, a maior taxa acumulada em quatro trimestres desde o primeiro trimestre de 2001. Também contribuiu para este resultado a expansão de 10,9% no investimento, a chamada Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), a mais elevada desde o terceiro trimestre de 1997. Este dado sinaliza uma taxa de investimento acima de 20% do PIB em 2004. Para Rebeca Palis, gerente da área de Contas Nacionais do IBGE, esta foi a grande mudança na composição do PIB de 2004 ante 2003. No ano anterior, quando o produto real cresceu apenas 0,5%, a expansão foi sustentada pelo setor externo, que cresceu 1,6%, enquanto a demanda doméstica encolheu 1,1%. Os números das contas nacionais trimestrais foram divulgados ontem pelo IBGE. O PIB do quarto trimestre cresceu 4,9% em relação a igual trimestre do ano anterior e registrou alta de 0,4% na comparação com o terceiro trimestre de 2004, já considerados os ajustes sazonais. A taxa de 0,4% foi a menor taxa sazonal do produto trimestral ao longo do ano. Do lado da oferta, o desempenho da economia em 2004 também foi diferente do de 2003, destacou Rebeca. No ano passado, a indústria voltou a liderar a atividade econômica crescendo 6,2%, com destaque para a indústria de transformação (alta de 7,7% encabeçada pelos bens duráveis), construção civil (com 5,7%) e serviços industriais de utilidade pública (que medem o consumo de energia elétrica e subiram 5% no ano). A única taxa negativa da indústria foi a registrada pela extrativa mineral, que declinou 0,7% devido à redução da produção de petróleo e gás, que caiu 3% no ano ante 2003, o que não ocorria desde 1992. O setor de serviços cresceu 3,7% em 2004, com destaque para o comércio (7,9%) e outros serviços (5,6%). O PIB das instituições financeiras cresceu 4,3%, e o de comunicações, 2%. Rebeca chama a atenção para o fato de que o crescimento da indústria possibilitou aumento incomum de 8,5% no volume de tributos (ICMS, INSS e IPI), o maior desde 1995. "Se não fossem considerados os impostos, o PIB teria crescido apenas 4,8%", observou. O aumento do volume de crédito do total de operações do sistema financeiro em 15% nominais, conforme dados do Banco Central, e a queda da taxa Selic (da média de 23,1% em 2003 para os 16,3% do ano passado) foram os dois fatores que mais favoreceram o crescimento do investimento fixo e do consumo das famílias no ano, segundo o IBGE. O consumo das famílias também foi estimulado pelo crescimento da massa salarial, que na média do ano aumentou 0,5% ante 2003. No segundo semestre, quando a economia cresceu 5,5%, mais que os 4,8% do primeiro semestre, a massa salarial engordou 5,7% em termos reais por conta do aumento do emprego, ressaltou Rebeca. O IBGE levantou que o avanço do investimento fixo ou formação bruta de capital fixo em 10,9% foi mais impulsionado pela produção e importação de bens de capital (máquinas e equipamentos), que cresceram na média 19,3%, enquanto a construção civil avançou 5,9%. Nessa conta, como destacou Rebeca, não entraram duas plataformas da Petrobras, que foram vendidas por US$ 1,2 bilhão pela subsidiária brasileira da Halliburton para uma empresa holandesa e depois alugadas pela Petrobras.