Título: País consome além da geração assegurada
Autor: Goulart , Josette
Fonte: Valor Econômico, 23/12/2008, Empresas, p. B8
As distribuidoras ficaram os últimos dez meses expostas ao mercado à vista por conta de uma série de frustrações na energia que contrataram ao longo dos últimos anos. Ela tiveram de liquidar 1 mil MW médios para poderem fechar as contas. Alguns agentes do mercado livre calculam que nos últimos meses esse valor foi ainda maior, chegando a 3 mil MW médios. Na prática, isso significa que ao longo de 2008 foi consumido mais energia do que a capacidade assegurada das geradoras. Para 2009 o problema deve continuar e só deve ser amenizado em função da desaceleração do crescimento econômico. Magdalena Gutierrez/Valor Machado, da CCEE, diz que fatores como o atraso do Proinfa pioraram o cenário
O presidente da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, Antônio Fraga Machado, diz que vários fatores levaram a essa situação. O principal deles é o fato de a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) ter refeito as contas para a distribuição da energia de Itaipu. Como o redirecionamento das cotas foi feito após o leilão de energia nova em que as distribuidoras compraram insumo para 2008 e 2009, elas não puderam suprir o que eventualmente ficou descontratado. Além disso, houve um atraso na entrega do Proinfa, o programa de incentivo à geração de energia alternativa do governo. Dos 3,3 mil MW médios que deveriam estar disponíveis no sistema até o fim de 2008, só 1.606 MW médios entraram em operação.
Outros fatores contribuíram para essa situação. Como a frustração de oferta em leilões de ajuste ou A-1. O leilão A-1, em que a energia é entregue para o ano seguinte do leilão, nem chegou a acontecer neste ano porque não houve oferta. E cerca de 35 distribuidoras inscreveram-se para comprar energia, o que segundo cálculos de alguns agentes chegaria a uma demanda para 2009 em cerca de 1,8 mil MW médios. As distribuidoras Ampla e Copel, por exemplo, estão tendo de repor um contrato de 330 MW médios que tinham com a Cien. Para 2009, a AES Sul e a CEEE terão de recompor os contratos que tinham com a AES Uruguaiana, que durante todo o ano deixou de gerar energia por problemas com gás vindo da Argentina. Além disso, a RGE que também tem fornecimento contratado com a Uruguaiana está em negociações para resolver a situação. A RGE não quer ficar exposta ao mercado à vista.
A exposição, mesmo que involuntária, pode ser ruim para as distribuidoras. No início deste ano, com base na previsão de poucas chuvas, os preços do mercado à vista superaram R$ 500 o MWh. Quando há uma exposição chamada involuntária é preciso ainda que a Aneel reconheça o evento para que os gastos possam ser todos passados às tarifas. Uma vantagem é quando o Preço da Liquidação das Diferenças (PLD), que estabelece o valor à vista da energia, cai como está acontecendo agora em função das boas chuvas e da redução da carga para o próximo ano, já estimada em 800 MW médios. Na semana passada, os preços em média ficaram em R$ 90 o MWh.
De qualquer forma, a situação vivida ao longo de 2008 mostra que não só a falta de chuvas do início do ano pode ter levado o governo a deixar quase oito meses as térmicas ligadas e gerando encargos de R$ 1,7 bilhão que irá impactar a tarifa do consumidor em 2009. No caso dos clientes da Eletropaulo, esse encargo já foi repassado na tarifa reajustada em julho e dos 8% de reajuste, cerca de 1,2 ponto percentual fizeram frente ao custo de se manter as térmicas ligadas.
O objetivo do governo era ajustar os níveis dos reservatórios dentro da meta estabelecida. Mas o fato de as distribuidoras estarem consumindo mais do que a energia assegurada no país pode ter contribuído, segundo alguns executivos de distribuidoras que tiveram de ir ao mercado para suprir os contratos frustrados. Segundo dados do Operador Nacional do Sistema, a capacidade instalada de geração de energia no país chega aos 100 mil MW de potência. Mas como não é possível ao longo de todo um ano gerar 100% da capacidade, o governo faz um cálculo da energia assegurada que dá uma noção, na média, do quanto as geradoras podem gerar no ano. E por isso que existem os megawatts médios. A energia assegurada do país é hoje mais de 50 mil MW médios.