Título: Sarney busca retomar interlocução
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Fonte: Valor Econômico, 16/01/2009, Política, p. A6
A candidatura não-declarada do senador José Sarney (AP) à presidência do Senado é uma questão de sobrevivência política do grupo que no início de 2007 dava as cartas no PMDB e monopolizava a interlocução do partido com o governo: o da bancada de senadores, a mais numerosa da Casa, e que atua como fiel da balança nas votações de interesse do governo no Senado. Além disso, o próprio Sarney, cuja família perdeu o governo do Maranhão, precisa de um lugar de destaque para tornar-se um dos protagonistas da sucessão de 2010.
A bancada atualmente tem 20 senadores (já teve 22), é a maior do Senado, e teme perder poder interno para os deputados caso vingue a fórmula preferida do PT e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o comando das duas Casas: o PMDB presidiria a Câmara, nos termos do acordo de rodízio que firmou com o PT em 2007, e os petistas presidiriam o Senado, de modo a manter o "equilíbrio" na relação entre as duas forças partidárias. Como têm a maior bancada, os senadores nunca se comprometeram com essa fórmula.
Ao fazerem o acordo que deu a presidência da Câmara para o PT, em 2007, o PMDB da Câmara saiu fortalecido: além da promessa de reciprocidade em 2010, levou três ministérios - Integração Nacional, Agricultura e Saúde - e cargos em estatais importantes como Furnas. O Senado manteve Hélio Costa nas Comunicações e Silas Rondeau nas Minas e Energia (depois substituído por Edison Lobão, indicação pessoal de Sarney, assim como fora Silas Rondeau) - o prestígio do grupo foi abalado com o escândalo que envolveu o então presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), acusado de recorrer a uma empreiteira para o pagamento de despesas pessoais.
Segundo apurou o Valor, apesar da resistência do PT a avaliação lulista é que a candidatura de Sarney é a melhor para o presidente da República. A eleição de Tião Viana (AC), o candidato petista, tornaria ainda mais dramática a falta de maioria governista no Senado, e a reeleição de Garibaldi Alves (PMDB-RN) um filme que o Palácio do Planalto definitivamente não se dispõe a ficar para assistir a reprise.
Ao insistir com o nome de Sarney, os senadores tentam manter a relação de forças com os deputados, e se der, enfraquecê-los no comando do partido e nas negociações com o governo e com os outros partidos, na sucessão de 2010. A rearticulação do grupo do Senado passa pela recondução de Renan a líder da bancada.
Presidente nacional do PMDB, Michel Temer (SP) defendeu a "reciprocidade", mas os senadores foram adiante. Os deputados temem que a eleição de Sarney possa repercutir na Câmara por meio de uma fuga de votos do PT para duas outras candidaturas da base de sustentação governista: a de Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que já presidiu a Câmara, e a de Ciro Nogueira (PP-PI). Embora proclame publicamente que vai honrar o acordo com Temer, o PT considera inaceitável o PMDB dirigir as duas Casas do Congresso.
No Senado, o núcleo do grupo pemedebista é formado, além de Sarney, por Renan Calheiros e o líder do governo, Romero Jucá (RR). Garibaldi Alves e o líder atual da bancada, Valdir Raupp, também integram o estado-maior pemedebista. Na Câmara, os comandantes são Michel Temer, presidente do PMDB, o deputado Henrique Alves, líder da bancada na Câmara e uma espécie de ideólogo da tropa, o ex-ministro e deputado Eliseu Padilha, gaúcho com forte influência no governo do Rio Grande do Sul, comandado pela tucana Yeda Crusius, e o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, um dos principais articuladores políticos do PMDB.
O maior mérito desse grupo foi o de unir a bancada em torno do acordo que fez com o PT e estabelecer uma referência de interlocução de Lula com a Câmara, que até então não sabia com quem decidir as coisas entre os deputados. Houve dia, antes de 2007, que o PMDB tinha um líder pela manhã e outro à tarde. Uma união conseguida por meio da divisão de poder tanto no governo quanto na Câmara. (RC e CA)