Título: Para Moreira Franco, PMDB na Câmara e Senado é a melhor solução para Lula
Autor: Costa, Raymundo
Fonte: Valor Econômico, 22/01/2009, Política, p. A6
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva orientou o PT a defender o acordo para eleger o deputado Michel Temer (PMDB-SP) presidente da Câmara dos Deputados, mas o PMDB está temeroso da reação petista ao lançamento da candidatura José Sarney (PMDB-AP) a presidente do Senado. Leonardo Rodrigues/Valor - 25/11/2008 Moreira Franco: "O PMDB é o maior no Congresso, tem mais prefeitos e governadores, mas não tem candidato à Presidência"
"No limite, posso até concordar que não seja a solução mais conveniente para o PT" - o PMDB ficar com as presidências da Câmara e do Senado - , "mas não tenho dúvidas de que é a melhor solução para o presidente Lula e o governo", disse ao Valor o pemedebista e ex-governador do Rio de Janeiro Moreira Franco.
Boa parte do PT não admite que o PMDB assuma a presidência das duas Casas do Congresso, por entender que isso tornará o governo refém dos pemedebistas, nos dois últimos anos do mandato petista, além de fortalecer a ala do PMDB mais ligada ao governador de São Paulo, José Serra, provável candidato tucano à sucessão de 2010.
Lula, no entanto, acha positivo reforçar a ala que esteve mais ligada ao Palácio do Planalto, em seus dois mandatos, segundo confidenciou a interlocutores. Trata-se do grupo de senadores liderados por José Sarney e Renan Calheiros (AL), que será líder da bancada a partir de fevereiro. Mas o presidente também não quer perder o apoio do grupo do PMDB na Câmara, o que pode vir a ocorrer com a eventual derrota de Michel Temer na eleição.
Esse grupo é constituído na maioria por pemedebistas que estiveram ligados aos tucanos, o que leva parte do PT, nos bastidores, a questionar sua lealdade ao projeto petista. Questionado, Moreira evita desde já comprometer o PMDB ao projeto de Lula para eleger a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) sua sucessora. Mas deixou claro que a eleição de Temer na Câmara é que dará instrumentos para o grupo trabalhar a adesão pemedebista à candidatura da ministra.
Atualmente na vice-presidência de Fundos de Governo e Loterias da Caixa Econômica Federal, Moreira Franco é um dos principais articuladores do grupo que comanda a bancada do PMDB da Câmara. Em sua avaliação, essa é a primeira vez que o PMDB participa do governo a partir de compromissos assumidos previamente na "agenda mínima da coalizão", uma lista de sete pontos entregue por Lula e Temer, no fim de 2006.
O aprofundamento do entendimento político administrativo é que dará condições para o grupo hoje majoritário na Câmara trabalhar para levar o partido a apoiar Dilma em 2010. "O cumprimento do acordo significa participar de uma candidatura que surja desse entendimento", diz Moreira Franco.
A equação pemedebista para 2010 é relativamente simples, segundo Moreira Franco. Didático, explica que "o PMDB é o maior partido no Senado, o maior na Câmara, tem o maior número de prefeitos, o maior número de governadores, mas não tem candidato à Presidência da República".
Esse é o paradoxo pemedebista. Logo, segundo o discurso tortuoso de Moreira Franco, "o partido naturalmente tende a apoiar um candidato que surja no ambiente político do qual ele faz parte, em função de compromissos assumidos há mais de dois anos".
Moreira afirma que só mesmo "uma razão muito forte de natureza política e administrativa" pode justificar um eventual "rompimento" desse acordo e impedir que ele "permaneça dando conseqüências". Forte a ponto de ser "auto-explicável perante a opinião pública", argumenta. Moreira não diz, mas os pemedebistas consideram que uma "razão muito forte" seria a eventual traição em massa ao acordo pelo qual o PMDB ajudou a eleger Arlindo Chinaglia (PT-SP), em 2007, em troca de agora apoiar Michel Temer.
Formalmente, o PT diz que cumprirá o acordo feito com o PMDB, mas nos bastidores demonstra contrariedade com o fato de os pemedebistas não concordarem com a tese de que, para manter a boa convivência entre as duas siglas e o equilíbrio de poder, entre os aliados, deveria em reciprocidade oferecer ao PT a presidência do Senado.
"Me parece um contra-senso segmentos do PT argumentarem com essas coisas para evitar cumprir o acordo", afirma Moreira Franco. Na opinião do ex-governador do Rio, uma eventual derrota de Michel Temer - na qual Moreira diz não acreditar - "desorganizaria o PMDB na Câmara", com conseqüências imprevisíveis para a sustentação do governo entre os deputados. "É uma temeridade desorganizar isso, qual o ganho que se tem disso? Nenhum".
Já a eleição de Temer permitirá, segundo o vice-presidente de Fundos de Governo e Loterias da Caixa "criar condições políticas para se ter uma avassaladora maioria pró-Lula e pró-governo na Câmara". Já a derrota, além de "desorganizar o PMDB", também exporia a base de sustentação do governo, cuja maioria dos líderes declarou apoio a Temer. "Uma defecção enorme destruirá o sistema partidário da Casa".