Título: Resultado de janeiro preocupa governo
Autor: Leo, Sergio
Fonte: Valor Econômico, 27/01/2009, Brasil, p. A3
As estatísticas de comércio exterior em janeiro causam forte preocupação no governo e confirmam a tendência de déficit neste início de ano, após 93 meses de superávit comercial. Nas quatro primeiras semanas de janeiro, as importações já superam em US$ 645 milhões as exportações - US$ 255 milhões só na semana passada. Esse valor indica que o mau resultado na balança comercial pode se aproximar dos piores registrados de todos os meses de janeiro, desde 1990. Analistas prevêem que os déficits continuarão até o início da safra agrícola, em março, mas acreditam ainda ser possível um superávit no fim do ano.
Alarmado com os resultados da balança comercial, o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, determinou aos seus assessores que façam um acompanhamento detalhado das importações. O ministério passou a submeter grande número de produtos a licenças prévias de importação, mas os técnicos alegam que a medida tem fins "estatísticos", e não haverá demora na emissão do licenciamento. O governo teme que o bom desempenho da economia brasileira atraia exportadores de outros países em busca de alternativas aos mercados mundiais em retração, o que significa que poderá impor limitações em caso de elevação abrupta nas importações de determinado produto.
A idéia de levantar barreiras a produtos importados não é bem vista no Ministério da Fazenda, e o ministro Miguel Jorge tem defendido, no governo, maior empenho da redução dos impostos sobre a produção dos exportadores e passou a usar o mau desempenho no comércio exterior como argumento de que a medida é urgente .
Nos primeiros 16 dias úteis de janeiro, as exportações foram de, em média, US$ 471,1 milhões por dia, 21% menores que na média de janeiro de 2008, e quase 25% inferiores à media de dezembro. Os especialistas atribuem a queda à redução nos preços de commodities, como carnes e soja, e à retração dos mercados, que também diminuíram fortemente a demanda por produtos industrializados.
Para o economista Fábio Silveira, da RC Consultores, janeiro é, tradicionalmente, um mês de resultados mais modestos, com a redução das vendas de produtos agrícolas como a soja e o açúcar, mas os resultados do mês, acumulados até a última semana, foram muito influenciados, também, pelas "quedas brutais" nos preços do mercado internacional. A RC está entre a mais pessimistas em relação à balança neste ano, com previsão de US$ 8 bilhões, bem abaixo da média de US$ 14,5 bilhões, prevista pelos especialistas consultados pelo Banco Central.
Nos últimos 19 anos, só em cinco a balança comercial foi negativa em janeiro: em 1995, no auge da desvalorização do dólar com o Plano Real, e de 1998 a 2001, quando as exportações se recuperaram a ponto de ter resultados superiores às importações em US$ 2,5 bilhões por dois anos seguintes. Em 2008, o superávit da balança caiu para US$ 944 milhões, mas, em 2009, segundo comenta Silveira, as estatísticas vão registrar plenamente a grande queda de preços ocorrida devido à crise financeira. Os preços da soja, por exemplo, tiveram queda de 35% no fim do ano passado.
Para o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, o governo ainda tem chance de agir para evitar uma piora dos resultados comerciais em 2010, para quando ele prevê uma queda na área plantada e na produtividade, provocada pelos baixos preços e alto custo de insumos na agricultura. Só a fixação de um preço mínimo "razoável" e melhoria na oferta de crédito permitirá manter um bom nível de produção, para que o Brasil aproveite a melhoria das condições de mercado, provável no ano que vem, recomenda Rodrigues.
As importações vêm caindo, mas em ritmo bem inferior ao das exportações. Na semana passada, a média diária ficou 8,8% abaixo da média de janeiro de 2008 e 2,2% inferior à de dezembro. A compra de aeronaves reduziu a queda no valor das importações neste mês, mas continua em alta o ritmo de importações de produtos farmacêuticos, siderúrgicos, químicos e papel e celulose. Outros produtos, como fertilizantes, equipamentos elétrico e e eletrônicos e automóveis garantiram a queda no valor das importações.