Título: Tudo pronto para a renúncia
Autor: Tahan, Lilian
Fonte: Correio Braziliense, 02/03/2010, Cidades, p. 46
Júnior Brunelli, um dos três deputados flagrados em vídeo recebendo dinheiro de Durval Barbosa, deve abrir mão do mandato. Com isso, escapará da cassação e poderá até se candidatar neste ano
Gabinete de Leonardo Prudente, que entregou a carta de renúncia na última sexta-feira, após a aprovação do processo por quebra de decoro: na sala, só as últimas caixas da mudança
Zuleika de Souza/CB/D.A Press
Reprodução de Vídeo A carta de saída de Brunelli já foi redigida: no detalhe, o vídeo da oração da propina
Daniel Ferreira/CB/D.A Press - 27/1/10
Globo.com.br/Reprodução de Internet Eurides Brito garante que não renunciará: flagrante em vídeo de dinheiro não contabilizado
Está escrita e com previsão de ser entregue ainda hoje a carta de renúncia ao mandato do distrital Júnior Brunelli (PSC). O deputado é investigado por receber mesada para votar de acordo com os interesses do governo. Para não perder a chance de se candidatar à reeleição em outubro, ele vai abrir mão do assento na Câmara Legislativa. Até lá, fugirá da notificação da Comissão de Ética, que abriu processo por quebra de decoro parlamentar contra o político. Se ele receber a notificação, perderá a chance de preservar os direitos políticos em caso de cassação.
Brunelli protagonizou um dos vídeos mais exibidos do escândalo da Caixa de Pandora ¿ em prece, agradece pela vida do ex-secretário de Relações Institucionais Durval Barbosa. As cenas ficaram conhecidas como oração da propina. O distrital aparece em outro vídeo, este gravado em 2006, no qual recebe dinheiro de origem duvidosa das mãos de Durval. Na tarde de ontem, a assessoria de imprensa do deputado confirmou ao Correio que ele pretende renunciar ainda hoje. O grupo político de Brunelli confia que ele conseguirá se reeleger sem dificuldades. Entre os evangélicos ligados ao deputado, muitos confiam que o político foi injustiçado.
Na manhã de ontem, a deputada Érika Kokay (PT), que preside interinamente a Comissão de Ética e Decoro Parlamentar, fez mais uma tentativa de notificar o colega. Foi até o Sudoeste e bateu à porta do endereço residencial informado por Brunelli na Câmara Legislativa. ¿Descobri que ele não mora mais lá faz mais de ano e não atualizou seus dados¿, disse Kokay. Os assessores não revelaram onde o parlamentar reside atualmente.
Veio da equipe que trabalha com o distrital parte da pressão para que Brunelli esticasse a corda ao limite de preservar seus direitos políticos. Segundo apurou o Correio, os funcionários do deputado pediram à presidente da Comissão de Ética que aguardassem o fim do mês antes da notificação. Assim, os servidores não teriam de devolver parte do salário. Fontes ouvidas pela reportagem revelaram que Brunelli teria pedido ao governador em exercício Wilson Lima (PR) para empregar, na estrutura do GDF, alguns dos demissionários da Câmara Legislativa.
Há um projeto de resolução que está pronto para ser votado em plenário e estabelece um prazo máximo de três dias úteis para a notificação do distrital alvo de processo por suposta quebra de decoro. A proposta prevê que se o parlamentar não for achado, será citado no Diário Oficial da Câmara.
Estratégia
As regras, se aprovadas pela maioria dos deputados, valerão também para a deputada Eurides Brito (PMDB), que também responde a processo por quebra de decoro por ter aparecido em vídeo recebendo dinheiro escuso. Ela tem dito que não pretende renunciar e começou uma estratégia para dividir as responsabilidades sobre a suposta participação em suposto esquema de corrupção envolvendo o Executivo e o Legislativo locais. Em seu blog, a distrital envolveu o ex-governador Joaquim Roriz (PSC) nas suspeitas de pagamento de mesada (leia ao lado).
O primeiro a se desapegar do cargo para salvar seus direitos políticos foi Leonardo Prudente, o deputado do dinheiro nas meias. Na última sexta-feira, ele entregou a carta de demissão. O gabinete de Prudente, que presidia a Câmara Legislativa no dia em que o escândalo estourou, já não tinha muitos móveis. O movimento era apenas de assessores que retiravam as últimas caixas de mudança.
Eurides diz que dinheiro seria de Roriz
Helena Mader
Mais de três meses depois da divulgação do vídeo em que aparece guardando dinheiro de caixa dois em uma bolsa, a deputada Eurides Brito declarou que os recursos seriam destinados à campanha do ex-governador Joaquim Roriz. Em seu blog, Eurides apresenta uma nova versão para as imagens gravadas em 2006 e divulgadas no ano passado pelo ex-secretário de Relações Institucionais do GDF Durval Barbosa. A deputada garantiu que Roriz repassou o dinheiro para a impressão de panfletos e para a realização de 12 eventos com lideranças comunitárias. Nessas reuniões de campanha, Eurides se comprometeria a pedir votos para o ex-governador, que concorria a uma vaga no Senado Federal. Joaquim Roriz nega ter repassado recursos a Eurides Brito e classifica a versão como ¿fantasiosa¿.
Com a renúncia quase certa de Júnior Brunelli (PSC) e a saída oficializada de Leonardo Prudente (sem partido), a deputada será a única a enfrentar um processo de cassação, caso não abra mão do mandato. Na última quinta-feira, a Comissão de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara Legislativa aprovou a abertura de processo contra os três parlamentares. Mas, ao contrário dos dois primeiros, Eurides Brito não quer deixar o cargo. ¿A renúncia seria uma agressão à minha história de vida e aos mais antigos alunos que me admiram¿, justifica. ¿Se eu renunciar pensando em concorrer a uma eleição, estarei traindo a mim, a minha história¿, afirma a parlamentar do PMDB.
O texto divulgado no blog da distrital contraria a versão de Durval Barbosa. Em depoimento à Polícia Federal, ele declarou ter entregue os maços de dinheiro a pedido de José Roberto Arruda, então candidato ao governo. Eurides, por sua vez, afirma que os recursos tiveram como origem Joaquim Roriz. Em seu site, a deputada afirma ter ¿uma ligação (1)muito estreita, muito amiga¿ com o ex-governador.
Pela versão de Eurides, ela teria ido à casa de Joaquim Roriz em 2006, logo após a convenção do PMDB em que o partido decidiu oficialmente apoiar a candidatura de Maria de Lourdes Abadia ao Buriti. Na conversa, ela teria dito a Roriz que não poderia pedir votos para Maria de Lourdes por ter se comprometido com Arruda. Mas garantiu que, para o Senado, seu candidato seria Roriz. ¿Daí, o lembrei de que ele ainda não havia entregue o dinheiro das reuniões de esclarecimento das candidaturas ao governo. E que estava me fazendo falta. Ele brincou dizendo que a culpa era minha por não ter lembrado a ele e afirmou que no dia seguinte me pagaria¿, diz Eurides no blog. ¿No dia seguinte, ele mandou me dizer para eu passar no Durval e eu passei e recebi.¿
A deputada também é acusada por Durval de receber mesada de R$ 30 mil em troca de apoio para o governador Arruda. Eurides Brito não se elegeu deputada em 2006, mas assumiu uma vaga na Câmara Legislativa depois das eleições, quando Pedro Passos renunciou ao cargo para não ser cassado. Seu primeiro mandato foi de deputada federal em 1990. Depois disso, atuou como distrital nas três últimas legislaturas. Professora, Eurides comandou a Secretaria de Educação do DF durante quatro governos.
1 - Aliados Eurides Brito é mais uma antiga aliada de Joaquim Roriz que atribui ao ex-governador a responsabilidade pela entrega de dinheiro. Também filmado por Durval Barbosa, o ex-presidente da Companhia de Desenvolvimento Habitacional (Codhab) José Luiz Naves disse ao Correio que os recursos repassados por Durval teriam como destino as campanhas de Roriz ao Senado e de Maria de Lourdes Abadia ao GDF.
Se eu renunciar pensando em concorrer a uma eleição, estarei traindo a mim, a minha história¿
Eurides Brito, deputada distrital pelo PMDB
Aguinaldo é alvo de ação
Ana Maria Campos
O deputado Aguinaldo de Jesus (PRB), que retorna à Câmara Legislativa nesta semana depois de mais de dois anos de licença, é alvo, ao lado do governador afastado José Roberto Arruda (sem partido), de uma ação de improbidade administrativa por supostas irregularidades com gastos públicos. No processo, em tramitação na Primeira Vara de Fazenda Pública do DF, o Ministério Público do DF sustenta falha na contratação da empresa Ailanto Marketing, para promoção da partida entre as seleções do Brasil e Portugal, na reinauguração do estádio Bezerrão, em dezembro de 2008.
O contrato, ao custo de R$ 9 milhões, foi avalizado por Aguinaldo de Jesus, como secretário de Esportes, e por Arruda, mesmo com parecer contrário da Procuradoria do Distrito Federal. A partida foi organizada por Fábio Simão, presidente da Federação Brasiliense de Futebol, e então gerente do projeto Copa 2014 no Distrito Federal. Todos os procedimentos foram adotados em parceria com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Na avaliação do promotor de Justiça Albertino Netto, responsável pela investigação do caso e um dos autores da ação, a participação direta do governador do Distrito Federal configura situação não usual na administração pública. Protocolada em agosto de 2009, a ação ainda não foi recebida.