Título: Mercado imobiliário desaquecido faz custo da construção desacelerar
Autor: Maia, Samantha
Fonte: Valor Econômico, 28/01/2009, Brasil, p. A4

O ano começa com a perspectiva de desaceleração do custo da construção, muito diferente de 2008, quando as construtoras olhavam apreensivas para a alta dos preços de materiais e da mão-de-obra. A situação de 2009, porém, não melhorou o ânimo das empresas, pois vem em consequência do desaquecimento do setor. Dessa forma, a evolução do custo da construção deve ficar no mesmo nível da inflação, senão abaixo. No ano passado, o Índice Nacional da Construção Civil (INCC) cresceu 11,87%, acima do índice global do IGP-M, de 9,8%. Sergio Zacchi/Valor

Melvyn Fox, presidente da Abramat: "Neste ano não teremos aumento do custo de produção"

O INCC começou a desacelerar em novembro, quando subiu 0,74%, segundo o IGP-10, enquanto em outubro a alta tinha sido de 1%. Em janeiro, ele ficou em 0,17%. No mesmo mês do ano passado, a alta foi de 0,55%. "É uma desaceleração significativa, que já mostra que a inflação do setor terá um comportamento bem diferente este ano", afirma Fábio Romão, da consultoria LCA.

Segundo o economista, foi o impacto do desaquecimento do mercado imobiliário um dos principais fatores que causaram a reversão na evolução dos custos. A média de alta do subgrupo de materiais e serviços do INCC entre junho e novembro foi de 1,64%. Em dezembro, o índice ficou em 0,49%, desacelerando ainda mais em janeiro, quando subiu 0,3%. "O que mais influenciou a queda dos materiais até agora foi a desaceleração da atividade", diz Romão.

Segundo projeções da LCA, em 2009, a alta do custo de materiais e serviços deve ficar em 4%, frente a 15% em 2008. "Só não vai haver deflação porque os investimentos em infra-estrutura pesada possuem um período longo de maturação e não vão ser parados, mantendo as vendas aquecidas", diz.

A desvalorização das commodities como o aço e o petróleo ainda não surtiu efeito nos preços finais dos produtos da construção, mas deve trazer algum impacto ainda neste semestre. "Existe uma defasagem entre a queda dos preços das commodities e os dos produtos industrializados", diz Ana Maria Castelo, da GV Consult. Um dos únicos materiais que já apresenta queda de preço é o cimento, que passou de uma alta de 6,62% no IPCA de outubro para uma deflação de 0,55% em dezembro.

A perspectiva de demanda futura reforça o cenário de queda nos preços. Segundo Eduardo Zaidan, diretor econômico do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP), o consumo do setor vai desacelerar até março, movimento que deve se intensificar no segundo trimestre. "Pode ser que haja queda das compras nos últimos seis meses do ano caso não sejam dados incentivos ao setor", diz ele.

Segundo Romão, da LCA, um dos sinais de que arrefecimento da demanda já está ocorrendo é a evolução do uso da capacidade instalada da indústria de materiais de construção, que caiu de 91% em outubro para 82% em dezembro. Em janeiro ele já chega a 81%, segundo levantamento da Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Construção (Abramat). O aumento da ociosidade, no entanto, teria vindo mais por investimento em expansão do que por uma retração da demanda, de acordo com a entidade. "O uso da capacidade chegou a níveis preocupantes, mas atendemos a demanda. Ainda não sentimos queda no consumo", diz Melvyn Fox, presidente da Abramat.

Por conta do longo período de maturação das obras, lançamentos imobiliários do primeiro semestre de 2008 começam suas obras este ano, o que mantém o mercado aquecido, apesar da desaceleração. Para as construtoras, a margem apertada para atendimento da demanda e a expectativa de mais crescimento da construção contribuíram para que os preços de materiais disparassem em 2008. A Abramat refuta essa afirmação, e segundo Fox a alta dos materiais acima da inflação foi ocasionada pelo aumento das commodities e da energia. "Neste ano não teremos aumento do custo de produção. A expectativa é de que os preços fiquem estagnados, com eventuais quedas", diz Fox.

A incerteza sobre o comportamento da demanda fez com que as indústrias diminuíssem as intenções de investimentos. Enquanto em abril de 2008, 72% das empresas se mostravam dispostas a investir, neste mês apenas 39% declaram essa vontade, segundo a Abramat. "Isso é o que nos preocupa mais", diz Fox. Em 2008, o faturamento da indústria da construção cresceu 33% sobre 2007. Para 2009, a projeção é de que caia para 6%. "Antes da crise, tínhamos projetado 12%, mas mesmo 6% é alto, é praticamente o dobro do que se espera de crescimento do PIB", diz Fox. O volume de produtos vendidos em 2008 cresceu 23%, menos que o faturamento, o que mostra a alta dos preços.

No lado da mão-de-obra, as demissões no setor apontam um período menos favorável para os trabalhadores negociarem aumentos reais, o que deve segurar a alta de gastos das empresas com salários. O custo da mão-de-obra vinha crescendo em ritmo acelerado, com alta de 6,3% em 2007 e 8,2% em 2008. Este ano, a expectativa do SindusCon-SP é de que não haja crescimento. O fator que pode puxar uma alta desse item é o aumento do salário mínimo, que baliza os reajustes no trabalho informal, segundo Romão, da LCA. "Pode vir uma alta de 10% pois os trabalho informal ainda é muito representativo no setor."

O crescimento menor do INCC em 2009 não será importante, porém, para dar um alívio inflacionário, pois seu peso (10%) é pequeno dentro do IGP. O que deve pressionar mais a queda da inflação são os preços de atacado, e segundo projeções da LCA, o IGP-M deve ficar em 7,1% em 2009, após alta de 11,87% em 2008. O governo acena ao setor com a possibilidade de desonerações na semana que vem, mas não se sabe a abrangência da medida. "Ninguém gosta de desacelerar, apesar da queda do custo. Prefiro a dor de cabeça do crescimento do que a incerteza da queda", diz Zaidan.