Título: Durão , Vera Saavedra
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 22/12/2008, Empresas, p. B8

O clima das negociações de preço do minério para 2009 começa a esquentar. Na semana passada, a australiana BHP Billiton teve uma primeira conversa, não oficial, com as siderúrgicas chinesas sobre o reajuste para o próximo ano, informou uma fonte do setor. O fato sugere, de acordo com o interlocutor, que no ano que vem, pela primeira vez nos últimos oito anos, os australianos vão tomar a dianteira das negociações no lugar da Vale.

A brasileira liderou estes ajustes entre 2001 e 2008, quando acertou um aumento de 65% a 71%, inferior aos 92% obtidos pelos australianos numa segunda rodada de negociação com as usinas da Ásia. Ao correr atrás do prejuízo, tentando renegociar com os asiáticos um residual de 12%, a Vale se deu mal, trombou com os chineses e teve que recuar.

No momento, as usinas chinesas estão trabalhando para garantir uma forte redução nos preços, de 20% para 82%, e também para antecipar o calendário de vigência do novo preço de 1º de abril para 1º de janeiro. Elas estão confiantes no cenário atual de forte retração de demanda para o minério.

Entretanto, a recente alta do minério fino no mercado "spot" indiano de US$ 73,50 para US$ 80,50 a tonelada, entregue na China, e um ritmo mais veloz de redução dos estoques do produto nos portos chineses para 63 milhões de toneladas nos últimos sete dias, começam a disseminar um sentimento de que a queda no preço do minério poderá ficar bem aquém dos 82% propostos pela China Iron and Steel Association (CISA) há dias.

A perda de "fôlego" dos estoques chineses mais o ambiente de retomada das compras de minério indiano pela China certamente vai aquecer os debates entre siderúrgicas e mineradoras, tornando mais difícil prever o início das negociações de preço no ano que vem, que poderá ser a mais longa da história destes acordos.

Em relatório de quinta-feira, Roger Downey, analista de mineração e siderurgia do Credit Suisse, desenhou este cenário. E baseado nestes novos fatos flexibilizou sua projeção de reajuste para o minério fino brasileiro de menos 9% até zero. Para as mineradoras australianas ele previu percentuais entre menos 15% e menos 25% porque elas terão que devolver o diferencial de frete capturado no reajuste deste ano.

Downey destaca porém, no relatório, que nos últimos seis meses o valor do frete para a China caiu fortemente face à paradeira do mercado de minério. Em consequência, o diferencial de frete das rotas Brasil-China e Austrália-China baixou de US$ 65 para US$ 3 a tonelada, o que descarta esse fator do debate entre nas rodadas de negociação.

O analista também estimou uma queda de 21% para o preço da pelota de ferro brasileira. Esse produto é mais usado nas usinas de redução direta, e até nas de alto-forno quando a demanda está muito aquecida. Mas, com a retração do mercado de minério, a demanda por pelotas caiu fortemente nos últimos seis meses. A Vale cortou em quase 30 milhões de sua produção local, de quase 50 milhões de toneladas.

A queda-de-braço entre indústria do aço e mineradoras para sustentar preços está levando a cortes de produção de ambos os lados para enxugar a oferta. A ArcelorMittal, maior siderúrgica do mundo, introduziu esta tática. A sul-coreana Posco, terceira maior da Ásia, anunciou na quinta-feira, pela primeira vez em 40 anos, que vai reduzir sua produção em 570 mil toneladas em dezembro e janeiro. Este volume corresponde a 2% dos 31,1 milhões de toneladas de aço produzidas em 2007. A Baosteel, maior siderúrgica da China, também está tomando medidas de ajuste à crise.

Do lado das mineradoras, além da Vale - que cortou a produção em 30 milhões de toneladas, e da Rio Tinto, que demitiu 14 mil empregados -, a sul-africana Anglo American também comunicou que encolheu pela metade seus investimentos para 2009, a US$ 4,5 bilhões.

Sobre o sistema de preço - benchmark, para contratos de longo prazo com duração anual, e index, com base no índice da Metal Bulletin - as mineradoras continuam divididas. A BHP defende o index e pretende fazer novos contratos nesse sistema. A Vale defende o benchmark. E as usinas de aço também estão divididas. As Chinesas apóiam o index, que tende a derrubar o preços.