Título: Parcimônia deve dar o tom para a bolsa em fevereiro
Autor: Monteiro , Luciana
Fonte: Valor Econômico, 02/02/2009, EU & Investimentos, p. D2
A bolsa, que tinha tudo para começar o ano como patinho feio das aplicações diante das incertezas em relação ao crescimento da economia mundial, surpreendeu e fechou janeiro com ganhos. Embalado pela posse do presidente americano, Barack Obama, o Ibovespa encerrou o primeiro mês do ano com valorização de 4,66%, acompanhando de perto o retorno de 5,55% do ouro. Os economistas, no entanto, alertam que esse bom desempenho da bolsa brasileira não quer dizer que o pior já passou.
As indefinições com relação ao impacto do menor crescimento mundial, ou até de uma recessão, continuam grandes e isso não é algo que irá se resolver neste mês. Os ativos financeiros irão oscilar ao sabor de cada número que possa dar alguma indicação sobre a trajetória econômica. O investidor deve ficar atento ainda aos balanços financeiros das empresas, embora a maior parte deles seja esperada para março, prazo final para publicação.
O fluxo de capitais de estrangeiros deve continuar baixo, pois a aversão a risco se mantém alta. "O investidor americano ainda está muito machucado e não deve voltar para o mercado brasileiro, ou outros mercado agora, talvez o retorno ocorra no segundo semestre, quando o cenário ficar um pouco mais definido", diz André Schibuola, sócio da Precision Asset Management. Ele avalia que as oportunidades podem estar em ações do setor de telecomunicações, infraestrutura e construção, segmentos em que o governo pode conceder algum tipo de incentivo.
Embora o cenário continue nebuloso, o mercado preferiu se concentrar em algumas sinalizações de retomada da atividade econômica, assim como procurou antecipar as possíveis boas medidas que a equipe de Obama deve tomar, lembra André Simões, gestor da Modal Asset Management. "Mas não compartilho com essa visão, pois o crédito continua travado e a recessão será severa e maior do que se acredita", diz o executivo. "Ainda não se viu o fundo do poço."
O foco nas notícias positivas em detrimento das negativas trouxe ganhos para os papéis da Vale, diante de menores estoques de minério na China. Os fundos compostos somente por papéis da Vale tinham ganho em janeiro de 15,79% até o dia 27. Entre os dias 28 e 30, as ações ordinárias (ON, com direito a voto) da mineradora acumularam alta de 1,21%. Já os fundos formados por Petrobras rendiam 2,93% até o dia 27. A rentabilidade, entretanto, ainda não leva em conta a valorização de 7,13% das ON da empresa entre os dias 28 e 30.
Para quem tem dinheiro novo e horizonte de logo prazo, de pelo menos três ou quatro anos, há oportunidades, mas o investidor precisa ter consciência que estará correndo muito risco, diz Alexandre Espírito Santo, economista-chefe da Way Investimentos e diretor do curso de Relações Internacionais da ESPM-RJ. "Continuo achando que é preciso ter muita parcimônia na bolsa, apostando em setores defensivos como telecomunicações, energia e empresas que pagam bons dividendos", diz o professor, que trabalha com o Ibovespa na casa dos 43 mil pontos no fim deste ano.
Entre as ações de energia elétrica, no entanto, o investidor deve dar preferência para as empresas que não sejam tão expostas ao setor industrial, que devem sofrer com a menor atividade econômica, avalia Simões, da Modal. Com relação à divulgação de balanços, ele avalia que surpresas negativas podem surgir neste mês no setor de varejo, onde os estoques continuam altos.
Em termos de juros, na visão de Schibuola, o investidor poderá ter neste mês uma definição melhor se ele deve ou não montar posições de maior volume em papéis prefixados e mesmo em títulos atrelados à inflação. Janeiro é justamente quando ocorrem os reajustes das tarifas públicas e há também muitas contas para pagar, lembra o executivo. Portanto, fica difícil ter uma noção clara para estimar o ímpeto da inflação, diz Schibuola.
Os fundos DI continuam interessantes, apesar das reduções de juros previstas, pois seguem apresentando juros reais muito altos, avalia o administrador de investimentos Fabio Colombo. Até o dia 27, essas carteiras apresentavam ganho médio de 0,91%, para uma variação de 1,04% do CDI (taxa de juro interbancário, que serve de referencial para as aplicações mais conservadoras).
Já os fundos de renda fixa, que podem aplicar em papéis prefixados, apresentavam rentabilidade média de 0,95%, portanto, retornos superiores aos dos fundos DI. Isso ocorreu devido ao corte de 1 ponto percentual na taxa de juros pelo Comitês de Política Monetária (Copom), acima da redução de 0,75 ponto estimada pela maioria dos analistas. Dado o quadro de menor atividade econômica, os investimentos em papéis prefixados são boas alternativas, avalia Simões, da Modal. Os juros também trouxeram ganhos diferenciados para os fundos multimercados, que tinham retorno de 1,38% em média até o dia 27.
Já os títulos atrelados ao IPCA - as Notas do Tesouro Nacional série B - aparecem como opção para diversificação de portfólio, avalia Colombo. "Os juros desses títulos subiram e estão rendendo na faixa de 7% a 7,5% ao ano, mais variação do IPCA", exemplifica.
Com relação ao dólar, que encerrou janeiro em queda de 0,69%, os economistas mantêm a recomendação de que o investidor não deve aplicar na moeda como forma de especulação. "A aplicação só é indicada como forma de proteção, ou seja, para quem tem uma dívida em dólar ou pretende fazer uma viagem para o exterior", ressalta Simões, da Modal. Já o euro encerrou o primeiro mês do ano com desvalorização de 8,31%.