Título: Oposição cresce na Câmara com Temer
Autor: Agostine , Cristiane
Fonte: Valor Econômico, 03/02/2009, Política, p. A6

A eleição do deputado Michel Temer (SP) para a presidência da Câmara representou a vitória do acordo PT-PMDB firmado há dois anos, na eleição do deputado Arlindo Chinaglia (SP) para o posto. PSDB e Democratas, principais partidos da oposição, também saíram fortalecidos, pois se alinharam a Temer desde o início. A médio e longo prazos, sobretudo, ganhou o PMDB - também vitorioso no Senado -, que se estabeleceu na condição de um dos principais protagonistas da sucessão presidencial em 2010, disputado por petistas e tucanos. Ruy Baron/Valor

Temer: voto do PT no pemedebista visa, além da governabilidade, a criação de um comprometimento do PMDB para que não apoie a oposição em 2010

A eleição da Câmara mostrou também o enfraquecimento do bloco parlamentar de esquerda, o "bloquinho", composto por PSB, PDT e PCdoB, mas que terminou o processo eleitoral sem o PDT e com o candidato Aldo Rebelo (PCdoB-SP) em terceiro lugar, com apenas 15% dos votos. O ex-presidente da Câmara, que comandou a Casa no momento mais grave da crise política enfrentada pelo presidente Lula, ficou atrás do candidato do "baixo clero", Ciro Nogueira (PP-PI).

O fortalecimento do PMDB, com o comando da Câmara e do Senado, enfraquece mais o PT do que o governo. A análise foi feita ontem por parlamentares do próprio PT, dos partidos de esquerda e do PMDB. O líder do PT, Maurício Rands (PE), desabafou: "O PMDB saiu mais forte e agora o PT tem novos desafios. Temos de buscar mais unidade".

O PT perdeu a força que teve no comando da Casa durante todo o governo Lula, com exceção de 2005, quando Severino Cavalcanti comandou a Câmara. O partido elegeu João Paulo Cunha (SP), Arlindo Chinaglia (SP) e foi o principal aliado de Aldo Rebelo quando o deputado do PCdoB assumiu depois da renúncia de Cavalcanti. Agora, com Michel Temer, o PT faz parte de um bloco de 14 legendas que elegeram o pemedebista e divide espaço com PSDB, DEM e PPS.

O apoio do PT ao PMDB na Câmara fez parte de um acordo firmado em 2007 entre os dois partidos para eleger Arlindo Chinaglia. Em troca, o PT apoiaria o candidato pemedebista nesta eleição na Câmara. Com a maior bancada, o PMDB foi importante para o PT eleger Chinaglia e é essencial para manter a governabilidade nos dois últimos anos do governo Lula. "Em períodos de crise, é preciso manter a governabilidade. Agimos corretamente ao apoiar Temer", comentou Maurício Rands.

Além da governabilidade, o voto do PT no PMDB mira a eleição presidencial. O grupo de Temer é mais próximo do PSDB e do governador José Serra. Ao apoiarem em peso o pemedebista, os petistas buscaram comprometer o PMDB com o PT, para que o aliado não apoie a oposição em 2010. "Apoiamos Temer para garantir a possibilidade de o partido apoiar a candidatura de Dilma (Rousseff) em 2010. Se não apoiássemos, seria o equivalente a empurrar o PMDB para Serra. A ala serrista do PMDB ia falar que o PT não cumpre acordo e seria um motivo para se aproximar dos tucanos", explicou o líder do PT.

A pressão do grupo pemedebista mais próximo dos tucanos para que o partido se aproxime de Serra em 2010 já era visível ontem. O ex-governador e presidente do PMDB paulista, Orestes Quércia, passou o dia em conversas com pemedebistas, acompanhou a votação de Temer de dentro do plenário e declarou que "vai trabalhar bastante para levar o PMDB para o outro lado". "Defendo a aliança com o PSDB em 2010. Serra tem amizade com todo mundo do PMDB", disse Quércia, que recentemente aproximou o PMDB do DEM em São Paulo, na reeleição do prefeito Gilberto Kassab (DEM).

Ao comporem o bloco que elegeu Temer, PSDB, DEM e PPS demonstraram unidade em torno do pemedebista e deram publicidade ao apoio. Durante a campanha de Temer, o PSDB tentou mostrar que era mais fiel ao candidato do que o PT. Os tucanos anunciaram que a bancada votaria unida no pemedebista, enquanto alguns deputados do PT ameaçavam trair Temer por causa do lançamento de Sarney no Senado.

O PT, além de trabalhar pela aproximação dos diferentes grupos pemedebistas para a candidatura da ministra Dilma em 2010, terá de lidar com a pressão por cargos do PMDB no governo e negociar com o presidente Lula para não perder espaço no ministério. Antes mesmo de a votação na Câmara terminar, o PMDB já se articulava: "O PMDB pode vir a ampliar a participação no governo, dependendo das negociações de 2010 e da composição para a disputa presidencial", disse ontem o deputado Jader Barbalho (PA).

O resultado de ontem também preocupou o bloco de esquerda. Com o enfraquecimento de uma possível candidatura do bloco à sucessão de Lula, ontem integrantes do PSB e PCdoB falavam em aproximação com o PT, para ganhar força. O deputado Flávio Dino (PCdoB-MA) defendeu a construção de uma grande "coalizão de esquerda", liderada pelo PT. "O PT perdeu os trunfos que teve na eleição passada, que eram o poder na Câmara e a candidatura de Lula. Agora, tem que construir uma candidatura e não tem mais o comando da Casa. O partido precisa se reaproximar dos aliados históricos, como o PCdoB e o PSB, e ter papel de aglutinador da esquerda", disse.