Título: Mercados e economia já dão sinais de estabilização
Autor: Perry , Joellen
Fonte: Valor Econômico, 12/02/2009, Internacional, p. A10
Apesar das demissões em massa e da queda acentuada dos lucros, alguns sinais de estabilização estão emergindo nos mercados globais e, de forma um pouco mais fraca, na economia em geral.
Nos Estados Unidos, na Europa e na China, pesquisas distintas de gerentes de compras mostraram resultados levemente positivos em janeiro, sugerindo que a contração na atividade industrial pode estar perdendo fôlego. A taxa de juros de empréstimos interbancários está cedendo, e alguns mercados de crédito estão descongelando.
Analistas dizem que as baixíssimas taxas de juros oficiais, as promessas de pacotes maciços de estímulo fiscal e os esforços dos bancos centrais ajudaram a aliviar parte da tensão nos mercados financeiros e podem ter estancado a queda da confiança nas empresas. À medida que a ação dos governos tenha efeito sobre a economia, pode estabelecer as bases para que a economia mundial comece a se afastar da tormenta.
Mas os sinais de estabilização surgem num patamar ainda muito baixo, indicando que o resto do ano será, no mínimo, tumultuado, e os pequenos bafejos de esperança podem desaparecer.
"Alguns dos números que temos vistos são terríveis, de cair o queixo", diz Kent Wattret, economista do BNP Paribas em Londres. "O que começamos a perceber é que o ritmo da contração não vai continuar o mesmo. Mas isso é, de fato, uma questão de ser menos ruim, não de ser verdadeiramente bom."
Um indicador importante da saúde do setor financeiro - a Libor, a taxa interbancária de Londres, usada nos empréstimos de curto prazo entre os bancos - disparou no ano passado, depois que o banco de investimento Lehman Brothers pediu concordata, porque os bancos pararam de emprestar uns aos outros. Ontem, a Libor para empréstimos em dólar de três meses subiu para 1,23% por causa da frustração com o plano de estabilização financeira do Departamento do Tesouro americano, mas está com tendência de queda constante desde que chegou ao pico de 4,82%, em 10 de outubro.
A emissão de títulos de empresas com rating alta das agências de classificação de risco está aumentando, num sinal de que os mercados podem voltar aos trilhos com o cumprimento do seu principal papel - o de fornecer recursos para as empresas que precisarem deles.
Os mercados de crédito corporativo de curto prazo também estão mostrando sinais de melhora. O juro de commercial papers, ou notas promissórias de curto prazo, vem caindo, deixando as empresas menos dependentes da linha de crédito especial que o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, criou para os tomadores desses empréstimos.
Desde o começo do ano, as empresas venderam, em todo o mundo, um total de US$ 264,4 bilhões de bônus com grau de investimento (isto é, de baixo risco) e que não têm garantia de nenhum programa governamental, segundo a empresa de pesquisa Dealogic. Isso é mais que o triplo em relação ao quarto trimestre do ano passado, quando as empresas venderam por mês, em média, US$ 82,9 bilhões em dívida sem garantia governamental.
As ações têm se mantido relativamente estáveis desde novembro, apesar da deterioração acentuada do quadro econômico. Ontem, a Média Industrial Dow Jones, da Bolsa de Nova York, subiu 50,65 pontos, para 7.939,53.
"Há alguns sinais de estabilidade no sistema financeiro", afirma Mark Zandi, economista-chefe da empresa de pesquisa econômica Economy.com, da Moody"s. As condições financeiras são uma peça importante do crescimento econômico e, por isso, esses sinais de estabilidade são potencialmente animadores.
A economia real ainda continua a perder força. Os EUA perderam em média 600.000 empregos por mês durante três meses consecutivos. O Produto Interno Bruto (PIB) do quarto trimestre dos 16 países da região do euro, cuja divulgação está prevista para amanhã, deve mostrar uma contração de até 1,5%, o pior resultado da história do bloco.
Nos EUA, a pesquisa com gerentes de compra feita pelo Instituto de Gestão de Fornecimento (ISM, na sigla em inglês) subiu para 35,6 pontos em janeiro, ante 32,9 em dezembro. O número de janeiro ainda mostra profundo pessimismo entre os gerentes de compras, mas o pequeno aumento no mês sugere que a expectativa deles pode estar se estabilizando num patamar mais baixo.
Um indicador semelhante para o setor industrial da zona do euro, o Índice dos Gerentes de Compras da empresa de pesquisa Markit Economics, também subiu em janeiro, para 34,4 pontos, ante 33,9 em dezembro, o menor nível de sua história. Apesar de esta ter sido a primeira vez em que o índice subiu desde agosto de 2008, ele continua bem abaixo do nível de 50 pontos que separa expansão de contração. O índice oficial dos gerentes de compras da China também registrou sua segunda alta mensal em janeiro.
"Acho que chegamos ao fundo do poço em termos de taxa de declínio", diz Chris Williamson, economista-chefe da Markit em Londres. Ele acredita, no entanto, que o índice na zona do euro vai registrar contração pelo menos até junho. "Estamos observando uma certa confiança de volta, bem devagar."
As pesquisas de confiança de consumidor estão tendo comportamento similar. Nos EUA, o índice de confiança medido pelo instituto de pesquisa Conference Board estabilizou-se perto dos níveis mais baixos alcançados em outubro - ainda recessivos, mas sem piorar.
O mercado imobiliário dos Estados Unidos também mostra sinais de estabilização, embora maior declínio no preço dos imóveis e o aumento da inadimplência sejam esperados. O índice da Associação Nacional de Corretores de Imóveis para vendas ainda a fechar - uma medida de antecipação da atividade - subiu 2,1% em dezembro na comparação com o mesmo mês do ano anterior, e o estoque de casas no mercado está aumentando a um ritmo menor.
-------------------------------------------------------------------------------- adicionada no sistema em: 12/02/2009