Título: Sai a agenda de ministra e entra a de candidata
Autor: Costa , Raymundo
Fonte: Valor Econômico, 16/02/2009, Especial, p. A12

A agenda oficial da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) sofreu uma inflexão este ano, em relação ao ano passado. Saiu a ministra e entrou a candidata do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à sucessão. Em apenas duas semanas de fevereiro, Dilma cumpriu uma agenda política maior que em todo o ano de 2008, quando recebeu apenas três parlamentares em seu gabinete, no quarto andar do Palácio do Planalto. No ano passado, ela já fora ungida à condição de favorita do presidente Lula, mas sua agenda foi menos de candidata e mais da ministra encarregada do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Fernando Gomes / RBS / Folha Imagem Em apenas duas semanas a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, cumpriu uma agenda política mais extensa do que durante todo o ano de 2008

Em 2008, Dilma foi literalmente a "Mãe do PAC", como se refere a ela o presidente da República. Em mais de 700 eventos registrados na agenda pública da ministra, segundo levantamento da Macropolítica, uma consultoria de Brasília, 19 foram especificamente para tratar do Programa de Aceleração do Crescimento. Pode parecer pouco, mas nenhum outro tema de política de governo obteve mais que dois encontros ao longo do ano, casos da Conferência Nacional de Segurança Pública e do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas.

"A análise da agenda pública da ministra Dilma é muito interessante", diz Ulisses Rapassi, consultor da Macropolítica. "Dela se extrai importantes tendências, como a de que o setor de infraestrutura (PAC) é prioridade zero". De fato. É só verificar que o ministro Alfredo Nascimento (Transportes) teve mais audiências (45) com a Dilma que todos os outros ministros. Na sequência, ministros também da área: Minas e Energia (28), Cidades (14) e Assuntos Estratégicos (7).

Na realidade, quase 15% do total da agenda foi destinada aos ministros das áreas envolvidas em energia e infraestrutura. O que surpreende é a presença rarefeita de ministros da área social na agenda da ministra-candidata. É certo que o ministro da Saúde teve seis audiências com Dilma, mas a partir daí os ministros que mais estiveram com ela foram o da Educação e o da Pesca, duas vezes cada. A ministra da Igualdade Racial só esteve com Dilma quando tomou posse. "Dos 28 ministros atendidos pela ministra, os lanternas são os das pastas sociais", diz Ulisses.

Nesse particular, intriga o fato de que Dilma não concedeu sequer uma audiência Patrus Ananias, o ministro encarregado do Bolsa Família, o principal programa social do governo. Patrus, aliás, sempre foi mencionado como uma opção para candidato do PT à sucessão de Lula, mas não é com este viés que o Palácio do Planalto vê a questão. Um assessor do presidente adverte que Dilma está muito bem servida em relação aos assuntos sociais com a presença de Miriam Belchior na Casa Civil. Antes de ser designada secretária-executiva do PAC, Miriam Belchior transitava com desenvoltura entre os programas que constituem a rede de proteção social do governo do presidente Lula.

A pesquisa da Macropolítica se restringe à agenda pública da ministra Dilma Rousseff. "Muito embora não fora informado o teor da agenda em 50 ocasiões (7%) durante todo o ano de 2008", diz Ulisses Rapassi, "ainda assim a opção pela transparência é latente". Uma prática que não é muito comum na Esplanada dos Ministérios - na mesma linha de Dilma estão os ministros do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Miguel Jorge, e o da Agricultura, Reinhold Stephanes. A agenda da ministra é uma das mais completas da República. Estima-se que Dilma Rousseff registre pelo menos 93% de seus compromissos ao longo do ano, como determina a lei. Outras são divulgadas todos os dias, mas não trazem detalhes, caso da Justiça, de Tarso Genro, onde em geral se lê: "Despachos internos".

"É necessário e razoável ponderar que a agenda é extremamente dinâmica e reuniões não agendadas são realizadas e, por isso, não são lançadas oficialmente". Por exemplo: no último dia 2, não constam lançamentos na agenda da ministra, mas é público que ela passou o dia numa reunião ministerial na Granja do Torto, e no final da tarde fez a entrega da mensagem presidencial em sessão solene de abertura do ano legislativo, no Congresso.

A Macropolítica somou mais de 700 eventos na agenda de Dilma, ou seja, em média cerca de 60 encontros por mês, mesmo considerando os feriados, fins de semana, férias e viagens em missão oficial. Em 2008, foram 15 dias de férias (aproximadamente 2% de toda a agenda.

Dilma teve 143 reuniões agendadas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao longo de todo o ano, o que dá a média de 12 encontros por mês - e 19% da agenda. Só o chefe de gabinete Gilberto Carvalho esteve mais com o presidente. Ela participou também de 25 reuniões ministeriais ou de coordenação.

Dois governadores mereceram a atenção especial da ministra, ao longo de 2008. O de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), e o do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB). Campos esteve com Dilma nada menos que 11 vezes, mais que as audiências concedidas aos ministros da Defesa (5) e da Fazenda (5) somadas. Campos e Cabral são os dois governadores mais citados para uma eventual candidatura a vice na chapa a ser encabeçada por Dilma, muito embora ambos digam que preferem concorrer à reeleição, em 2010..

A "Mãe do PAC" é vista também na agenda da ministra com o PIB brasileiro (leia o quadro). Dentre as audiências com o setor privado e entidades empresariais o grosso também está na área de infraestrutura (transporte, portos, rodovias, ferrovias e setor aéreo) e construção civil. As reuniões com o setor privado/produtivo consumiram 3% da agenda ministra, mesmo percentual dedicado às entidades empresariais (CNI, Fórum de CEO"s Brasil-EUA e Business Roundtable encabeçam a lista).

Da agenda pública constam apenas três encontros com congressistas. Suprapartidária, Dilma recebeu o deputado Gilmar Machado (PT-MG) e os senadores Renato Casagrande (PSB-ES) e Lúcia Vânia (PSDB-GO).

Mas é conhecido o fato de que Dilma teve encontros partidários fora da agenda, inclusive com líderes do PMDB, partido que Lula corteja para a vice de Dilma em troca de seu tempo de televisão - o maior de todas as siglas - e os votos de suas bancadas, que são as maiores no Senado e na Câmara.

A agenda de Dilma continua comprometida com obras nesse mês e meio de 2009 -ela já esteve 20 vezes com Lula, quatro com o ministro das Cidades, Márcio Fortes, três com o dos Transportes, Alfredo Nascimento, e duas com Edison Lobão (Minas e Energia) até o último dia 10. E duas reuniões, em janeiro, com o setior produtivo.

Mas foi agora em fevereiro que se deu a inflexão política na agenda da ministra, o que até levou a oposição a decidir questionar a legalidade de suas aparições públicas ao lado do presidente Lula na Justiça Eleitoral, o que deve acontecer entre hoje e amanhã.

Na última sexta-feira Dilma esteve num jantar com prefeitos do PT, em São Paulo, patrocinado a pedido de Lula pela ex-prefeita Marta Suplicy. Antes disso esteve na festa que comemorou os 29 anos do PT, além de ter dado uma palestra na terça-feira passada na reunião do Diretório Nacional do PT.

O auge da exposição da ministra - e que provocou toda a irritação dos partidos de oposição - foi o encontro com 5.300 prefeitos, num encontro realizado em Brasília no qual o presidente e a ministra anunciaram um "pacote de bondades" aos municípios.

A blitzkireg palaciana surtiu o efeito esperado pelo patrono da candidatura Dilma. Em fevereiro, a centimetragem diária de notícias publicadas sobre a ministra nos sete maiores jornais do país e quatro revistas cresceu 189% em relação a média dos últimos 12 meses. O levantamento é de Rilson Raposo, da Fábrica de Idéias, uma empresa de Brasília especializada nesse tipo de trabalho.

Em apenas 13 dias de fevereiro, Raposo contabilizou 467 reportagens em jornais e revistas, o que é mais que o total de fevereiro de 2008, quando o noticiário sobre a ministra, nos sete principais jornais e quatro revistas, somou 442 reportagens.

Do último dia 2 ao dia 12, Dilma apareceu três vezes, com destaque, no Jornal Nacional, o telejornal de maior audiência do país. A meta do PT é que ela chegue ao final do ano com pelo menos 25% nas sondagens eleitorais de 2010.