Título: Chuvas ajudam setor elétrico, mas crise afeta planejamento
Autor: Santos , Chico
Fonte: Valor Econômico, 18/02/2009, Brasil, p. A3

As chuvas que chegaram cedo, em outubro e novembro do ano passado e o arrefecimento da demanda por conta da crise econômica e também pelas temperaturas amenas no verão trouxeram conforto para o setor elétrico, reservatórios enchendo segundo o esperado e energia mais barata e limpa, com o desligamento da maioria das termelétricas convencionais. No dia 16 deste mês, de uma carga ofertada de 52.738 megawatts, o total de energia termelétrica convencional (exclui nuclear) ofertado era de apenas 1.263 megawatts - 2,4%. No mesmo dia do ano passado o total era de 5.300 megawatts para uma carga de 50.638 megawatts - 10,5% do total. Na outra ponta, a energia hidrelétrica nacional (exclui Itaipu) ofertada nos mesmos dias era de, respectivamente, 40.396 megawatts e 34.904 megawatts.

O inusitado é que, como dezembro e janeiro foram atípicos, seja pelo lado do consumo industrial, com muitas fábricas paradas, seja pelo lado residencial, com aparelhos de ar-condicionado desligados, os técnicos do setor ficaram sem parâmetro para planejar a carga de energia a ser disponibilizada ao longo do resto do ano.

Em fevereiro, as temperaturas subiram, mas a vertente econômica continua incerta. Para embaralhar ainda mais as contas, os técnicos estão percebendo que a correlação entre o Produto Interno Bruto (PIB) e a carga de energia elétrica tem sido cada vez mais tênue, em grande parte pelo uso de fontes alternativas pela indústria.

A expectativa do governo é que fevereiro e março forneçam dados mais conclusivos para o planejamento do período seco que, normalmente, vai de maio até novembro. Até porque em abril o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) terá que definir a meta dos reservatórios das hidrelétricas das regiões Sudeste/Centro e Nordeste para o mês de novembro.

Esses parâmetros, que estão para o setor como as metas de inflação estão para a economia, foram criados em meados de 2008, após o sufoco que o setor passou no começo do ano. A energia armazenada em 2007 fora usada sem parcimônia, as chuvas de verão demoraram, os reservatórios não enchiam e o preço da energia no mercado livre ultrapassou estratosféricos R$ 500 por megawatt/hora. O governo estipulou então que no final de novembro de 2008 os reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste teria que estar com pelo menos 53% da capacidade e que no Nordeste a meta era de 35%. E mandou que as termelétricas, mais caras e mais poluentes, ligadas independentemente do preço, fossem mantidas em ação para assegurar essas metas.

Para armazenar no verão e outono passados a água que permitiu programar a meta para novembro foi preciso muito sacrifício, além do uso das térmicas. No Nordeste, foi preciso um acordo para que a vazão do rio São Francisco em Sobradinho (Bahia) ficasse por cerca de cinco meses abaixo do mínimo necessário ao atendimento de todos os seus usos, que é de 1.300 metros cúbicos por segundo (m3/s). Em 16 de fevereiro do ano passado a vazão do rio na represa baiana que é o pulmão das hidrelétricas do baixo São Francisco era de apenas 1.119 m3/s, mesmo a represa recebendo naquele dia 3.530 m3/s. Sobradinho tinha estoque de apenas 30,56% da capacidade.

O quadro agora é muito diferente. Segunda-feira passada, dia 16, Sobradinho recebia 4.870 m3/s, liberava 2.368 m3/s e já acumulava estoque de 63,38% da capacidade de guardar água. No geral, havia mais água nos reservatórios de todas as regiões na metade deste mês do que no final de fevereiro de 2008, embora na região Sul a curva seja descendente, o que é normal.

Na região Norte, como no ano passado, os reservatórios estão a cerca de 44% da capacidade, mas o rio Tocantins está despejando mais de 14 mil m3/s na represa de Tucuruí (PA) e, mesmo a usina funcionando a todo vapor, os técnicos já fazem apostas, tradicionais todos os anos, para ver quem acerta quando Tucuruí vai verter água (chegar a 100% da capacidade). No Sudeste-Centro-Oeste, os reservatórios estão com 73,12% da capacidade e recebendo mais água.

Embora os números sejam inferiores aos de fevereiro de 2007, os técnicos não veem motivos de preocupação, a não ser que se instale uma seca de agora em diante, contrariando todas as análises do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Ainda que em fevereiro o afluxo de água esteja abaixo da média histórica no Sudeste/Centro-Oeste, os técnicos estão certos de alcançar abril com mais de 80% de água acumulada, o mesmo acontecendo no Nordeste.

Refletindo a situação confortável, o preço da energia no mercado livre divulgado pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) para esta semana está em torno de R$ 63 no Sudeste, em queda, e em cerca de R$ 43 no Norte e Nordeste, estável, e mais de R$ 84 no Sul, em alta por causa da previsão de menos afluência de água.

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) está podendo utilizar também o mínimo de energia térmica convencional, só o fazendo fora da chamada ordem de mérito (que determina o uso da energia mais barata) por razões especiais, como riscos decorrentes de problemas de transmissão.