Título: Quase falidas, GM e Chrysler tentam sua última cartada
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Fonte: Valor Econômico, 19/02/2009, Opinião, p. A12

A General Motors vai encolher bastante, caso seu plano de reestruturação forçado, apresentado anteontem ao Tesouro americano, seja aprovado e ela obtenha o resto dos US$ 30 bilhões que precisará para continuar à tona até 2011, quando promete voltar ao azul. A Chrysler emagrecerá junto, depois de pedir mais US$ 5 bilhões de auxílio público e enfrentar sua última possibilidade de escapar da falência. O gigantesco parque automobilístico americano, o maior do mundo, ainda corre o risco de desaparecer do mapa, caso o governo de Barack Obama não se disponha a socorrer as três montadoras. É pouco provável que Obama as deixe sucumbir, o que não quer dizer que os planos apresentados são suficientes, corretos ou mesmo que serão executados pelas mesmas pessoas que os formularam. A Ford enfrenta situação igualmente difícil, mas não pretende pedir dinheiro ao governo, pelo menos durante o exercício fiscal de 2009.

A crise financeira acelerou uma tendência de perda de competitividade das montadoras americanas que já vem de longe. Desde que a revista Fortune iniciou seu ranking de 500 maiores empresas, em 1955, a General Motors raramente perdeu o primeiro lugar. Foi assim desde a metade do século passado até o ano de 2001, quando perdeu de vez a liderança. Em 2008, a GM foi a quarta colocada, com US$ 182 bilhões de receitas - inferiores aos US$ 189 bilhões de 2000 - e um colossal prejuízo de US$ 38 bilhões. A Ford seguiu na cola da GM por muito tempo e hoje é a sétima maior empresa. Faturou US$ 172,4 bilhões e perdeu US$ 2,7 bilhões.

À medida que empilhava pesados custos de aposentadoria, pensões e salários e benefícios maiores, as montadoras americanas perdiam dinamismo e reagiram tardiamente a mais uma investida de seus competidores japoneses, que pela segunda vez invadiram o mercado americano, desta vez com carros econômicos, menos poluentes e mais baratos - antes haviam mostrado competência para concorrer nas faixas mais rentáveis dos carros de luxo.

Quando a GM perdeu a primeira posição na manufatura de automóveis para a Toyota, seu destino parecia selado. Os japoneses já haviam revolucionado a forma de produzir nos anos 70 e deram uma lição de flexibilidade até mesmo antes de os preços do petróleo dispararem. Os mercados emergentes sinalizavam novas tendências e novas fronteiras de crescimento para os fabricantes, mas os americanos pouca coisa fizeram de novo nos mercados maduros. A GM tinha 401 mil funcionários quando o atual CEO Rick Wagoner tomou posse. Hoje tem quase a metade, 224 mil, e demitirá mais 47 mil. A montadora aferrou-se aos carrões vorazes por combustível e passou a vender cada vez menos, enquanto o mercado como um todo encolheu pela metade aos golpes da crise financeira. A GM estava na contramão.

O plano apresentado por GM e Chrysler prevê o necessário para a sobrevivência, ainda que isto possa não ser suficiente. Tanto ela quanto a Chrysler cortarão modelos pouco lucrativos. Das oito marcas da GM sobrarão três (Cadillac, Chevrolet e Buick), e a Chrysler cortará um terço de sua capacidade de produção ao encerrar as linhas do PT Cruiser Aspen e Dodge Durango. A GM fechará mais cinco fábricas nos EUA, das 14 que desaparecerão no mundo.

A esse corte de custos se acrescentará um acordo com o sindicato do setor, o UAW, ainda a ser submetido aos trabalhadores. Ele corta horas extras, bônus e cláusulas de reajuste baseadas em aumento do custo de vida. Os fundos de pensão dos trabalhadores terão de receber metade do que as empresas lhes devem em ações - a conta da GM é de US$ 20 bilhões e a da Chrysler, de US$ 9,9 bilhões. A terceira perna é uma reestruturação da dívida. No caso da GM, são US$ 27 bilhões, dos quais ela quer obter US$ 18 bilhões em condições mais favoráveis ou por troca por ações. A Chrysler conseguiu a concordância dos credores para converter US$ 5 bilhões de dívidas em ações.

Os planos serão examinados por uma força-tarefa do governo americano, que não descartou a saída da concordata para elas. Aparentemente, as montadoras fizeram o ABC de corte de custos. A dúvida é se não acordaram tarde demais para seus problemas e se apenas cortar custos a esta altura é uma saída aceitável.