Título: Efeito do Buy American sobre aço é mínimo
Autor: Landim , Raquel
Fonte: Valor Econômico, 20/02/2009, Brasil, p. A2

Estimativas preliminares da indústria siderúrgica nacional apontam que o impacto do "Buy American" para as exportações brasileiras de aço será muito pequeno, o que tornam remotas as possibilidades de o Brasil iniciar um processo contra os Estados Unidos na Organização Mundial de Comércio (OMC). Uma projeção do Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS) aponta que as restrições dos americanos à utilização de aço importado nas obras previstas no pacote prejudicariam apenas 1,6% as exportações brasileiras de aço para o país. Leo Pinheiro/Valor

Marco Polo de Mello Lopes, do IBS: setor ainda não tomou decisão sobre a abertura do processo na OMC, porque resultados econômicos seriam pequenos

Conforme as projeções da entidade, as exportações de aço do Brasil destinadas à construção civil americana somaram US$ 163 milhões em 2008. Trata-se de uma estimativa, porque não é possível rastrear exatamente o destino do aço brasileiro no mercado americano. Como as restrições do pacote são apenas para obras públicas, que absorvem aproximadamente 10% do aço consumido pela construção, o instituto calcula que as perdas seriam de apenas US$ 16 milhões. No ano passado, as siderúrgicas brasileiras venderam US$ 1 bilhão para os EUA, ou 1,2 milhão de toneladas de aço.

O pacote de estímulo econômico assinado terça-feira pelo presidente Barack Obama prevê gastos de US$ 787 bilhões para combater a crise, incluindo US$ 150 bilhões para obras públicas e investimento em infraestrutura. No trâmite parlamentar, o Senado americano inseriu a cláusula "Buy American", o que provocou polêmica com outros países. O dispositivo prevê que apenas ferro, aço e manufaturados americanos poderão ser usados nas obras públicas. Diversos países acusaram os EUA de protecionismo, incluindo o Brasil. O ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, chegou a afirmar que o país avaliava a abertura de um painel na OMC.

Marco Polo de Mello Lopes, vice-presidente-executivo do IBS, disse que o setor ainda não tomou uma decisão sobre a abertura do processo, porque o impacto político da medida é importante, mas não valeria a pena pelos resultados econômicos. Representantes do IBS estiveram no Itamaraty discutindo o assunto. "A situação exige prudência. É legítimo que o governo americano invista para estimular o consumo interno. Meu grande desejo é a retomada no Brasil com aço brasileiro", disse Lopes. "A questão é como será implementado. Existe o temor de que sirva de exemplo para outros países. Pode ter um efeito dominó".

Segundo fontes do setor, ao invés de beneficiar o Brasil, uma reação diplomática mais dura, como a abertura de um painel na OMC, pode gerar um mal-estar com o Congresso, prejudicando os interesses da Gerdau, multinacional brasileira com unidades nos EUA. A siderúrgica deve ser uma das mais beneficiadas pelo pacote de Obama. Mario Longhi, presidente da Gerdau Ameristeel, disse ontem que cerca de 30% das vendas da empresa são para projetos de infraestrutura. "O pacote vai nos beneficiar diretamente", disse em teleconferência com analistas.

No início desta semana, em uma conferência da indústria do aço na Flórida, Longhi havia dito que o pacote de estímulo econômico deve reduzir significativamente a ociosidade na indústria americana. Usinas como as da Gerdau operam atualmente usando apenas 45% de sua capacidade de produção, estimam analistas. Ele acredita que o pacote poderá elevar para 70% o uso da capacidade instalada na indústria. Antes da crise, as siderúrgicas americanas operavam a todo vapor, usando mais de 90% de sua capacidade.

Analistas do Deutsche Bank estimam que os projetos financiados pelo pacote vão consumir cerca de 15 milhões de toneladas de aço num período de três anos, o que significa aumento anual de 4% no consumo de aço nos EUA. "Os ganhadores óbvios serão a Nucor e a Gerdau por conta de sua exposição ao aço longo, mas outros também se beneficiarão expressivamente, dados os benefícios secundários", informava um relatório do banco.

Também estão inseridos nas restrições à importação do pacote o minério de ferro e manufaturados utilizados nas obras públicas. O impacto para o minério brasileiro deve ser quase insignificante, já que a Vale do Rio Doce exporta pouco para os Estados Unidos. De acordo com Soraya Rosar, coordenadora da área de comércio exterior da Confederação Nacional da Indústria (CNI), é muito difícil analisar o impacto para as vendas de manufaturados para obras públicas, já que podem incluir de máquinas sofisticadas a azulejos.

Um estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), feito a pedido do Valor, cruzou a pauta de exportação brasileira para os EUA com as compras governamentais do país em 2008. Quase 40% dos produtos que o Brasil vende para os americanos constam dos itens adquiridos pelo governo nas mais diversas áreas, não apenas infraestrutura. O problema é que os EUA praticamente não compram de fornecedores estrangeiros nas licitações públicas. Cálculos do economista Pedro Pedrossian Neto, coordenador de análise econômica do departamento de comércio exterior da Fiesp, apontam que, dos US$ 486 bilhões gastos em compras governamentais nos EUA em 2008, 3% vieram do exterior, e a participação do Brasil foi inexpressiva.