Título: Embraer demite mais de 4 mil empregados
Autor: Olmos, Marli
Fonte: Valor Econômico, 20/02/2009, Brasil, p. A4
A queda na previsão de entrega de aeronaves este ano levou a Embraer a anunciar ontem o corte de cerca de 20% do efetivo. Segundo números da empresa, o percentual equivaleria a 4,2 mil postos de trabalho. Mas, segundo o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, as demissões vão atingir 4,7 mil.
A empresa iniciou o ano prevendo a entrega de 270 aeronaves, e ontem anunciou que não chegará a 242. Os maiores cortes vão atingir os jatos comerciais e os modelos executivos maiores. Antes das demissões, a Embraer tinha 21,3 mil empregados. Os cortes já vinham ocorrendo aos poucos e, desde 2008, a empresa reiteradamente negava a intenção de efetuar qualquer corte em massa.
Um sinal de que as negociações com os clientes não andavam muito bem surgiu no final de janeiro, quando a direção da companhia revelou que havia decidido pedir ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ajuda aos compradores dos seus aviões para que não suspendessem ou adiassem encomendas já feitas.
A empresa anunciou as demissões por meio de comunicado. O presidente do sindicato, Adilson dos Santos, conta que os cortes começaram a ser feitos às 14h30, envolvendo os dois turnos. A Embraer é a maior fábrica da base dos metalúrgicos de São José dos Campos e cortes dessa magnitude nessa empresa fatalmente vão se refletir em outros na cadeia de fornecedores de peças para aviões, concentrada na região do Vale do Paraíba. Para o presidente do sindicato, as demissões poderiam ter sido evitadas em razão do tamanho da carteira de pedidos da companhia, que é de US$ 20,9 bilhões.
Essa, contudo, não é a opinião dos analistas. "A perspectiva de uma receita, que tende a pressionar a margem, exige ajuste nos custos", afirma Kelly Trentin, da SLW Corretora de Valores.
A Embraer anunciou ontem a expectativa de uma receita de US$ 5,5 bilhões em 2009. A empresa ainda não divulgou o balanço de 2008. Até o terceiro trimestre, a receita já estava em US$ 7,6 bilhões.
O analista Marco Saravalle, da Coinvalores, também considera que a Embraer não tinha como não fazer os cortes porque precisa, a longo prazo, diminuir os custos fixos. Ainda mais em um cenário conturbado. "A redução da mão-de-obra operacional preocupa porque significa a perspectiva de diminuir a produção", destaca. As ações da Embraer fecharam ontem com queda de 1,85%.
A Embraer anunciou que, além dos empregados da área operacional, também serão feitos cortes na área administrativa, incluindo a eliminação de um nível hierárquico na estrutura gerencial. A empresa decidiu, no entanto, não mexer na engenharia, que "está engajada no desenvolvimento de novos produtos e tecnologias". A empresa precisa, de fato, pensar nos projetos futuros de aeronaves mais econômicas e adequadas à redução dos níveis de poluentes.
Um dos grandes problemas da Embraer é ser ainda altamente dependente do mercado dos Estados Unidos, que responde por 45% da receita da empresa brasileira. Apenas 4,45% da receita sai do Brasil. Na aviação comercial, a empresa começou em dezembro a fornecer jatos para a recém criada companhia aérea Azul.
Desde que o mercado dos EUA começou a apresentar sinais de desaquecimento, a Embraer vinha tentando expandir as vendas para outras regiões. No ano passado, a companhia aproveitou para ampliar a carteira de pedidos para a China e Oriente Médio, aproveitando o crescimento da demanda nessas regiões por jatos regionais de até 120 lugares, seu principal foco de atuação.
No comunicado de ontem, a empresa destacou "seu profundo respeito às pessoas que ora deixam suas posições". "Respeito pelo trabalho que desenvolveram, pelo tempo de convívio profissional e pessoal, pelo momento difícil que atravessam".
Com a decisão de ontem, a companhia brasileira segue o exemplo das fabricantes de aviões da América do Norte e Europa. Sua principal concorrente, a canadense Bombardier, anunciou no começo deste mês a demissão de 1,360 mil funcionários. A Boeing informou no início de janeiro o corte de 4,5 mil empregos ao longo deste ano. Isso representa redução de 7% da força de trabalho. A europeia Airbus , que já havia informado há mais de um ano a demissão de dez mil funcionários ao longo de quatro anos, avisou no início deste ano aos sindicatos que os cortes anunciados não serão suficientes.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou bastante irritado com a decisão da Embraer de demitir os 4,2 mil funcionários por causa da crise internacional. Lula avisou ao presidente da CUT, Artur Henrique, que vai chamar os empresários da Embraer para cobrar explicações, já que, nos últimos anos, a empresa de aviação tem recebido seguidos financiamentos públicos, especialmente do BNDES e não avisou ninguém. O presidente da CUT, que esteve reunido ontem com Lula, lembrou que a Embraer previa vender, no ano passado, 190 aeronaves e vendeu 205. "Não pode, como primeiro efeito da crise, decidir mandar tanta gente embora". A CUT promete manifestações na sede da empresa, assim como vem protestando contra as demissões na Vale.
Segundo Artur, Lula não falou que espera uma reversão das demissões, mas teria dito que vai conversar com vários ministros - especialmente Guido Mantega (Fazenda), Miguel Jorge (Desenvolvimento) e Trabalho - para discutir o assunto. (Colaborou Paulo de tarso Lyra, de Brasília)