Título: Dólar valorizado provoca queda na importação de insumos da Ásia
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 20/02/2009, Empresas, p. B1

Depois de três anos de crescimento na importação de produtos e insumos, a indústria têxtil reduziu o ritmo das encomendas do mercado asiático. Algumas decidiram retirar-se completamente e outras estão diminuindo o volume em razão da atual taxa de câmbio, que deixou o preço dos asiáticos menos atrativo. A maior parte reduziu compras de insumos, como fios, fibras e filamentos têxteis, mas há casos em que os cortes atingiram alguns produtos acabados e semiacabados.

"Alguns asiáticos já reduziram os preços em 10% para nos manter como clientes, mas 10% é pouco depois da desvalorização. Preferimos produzir alguns itens no próprio país a importar", afirmou Marcello Stewers, diretor de comércio exterior da Teka.

Teka, Buettner e Fiação São Bento são exemplos de empresas que repensaram a estratégia de importação, tendo em vista a desvalorização do real em relação ao dólar que já dura cinco meses. A Teka reduziu em 85% as compras da Ásia em dezembro e a Buettner e a Fiação São Bento, que compravam insumos, suspenderam as importações.

O presidente do Sindicato das Indústrias Têxteis do Vale do Itajaí (Sintex) e diretor de exportação da Hering, Ulrich Kuhn, afirma que a diminuição de volume importado se dá com mais intensidade nas matérias-primas do que nos produtos já prontos. Isso ocorre porque os contratos fechados na área de insumos têm prazo menor. Nesse caso, as empresas conseguem cancelar programações do exterior com dois ou três meses de antecedência. Já com os produtos acabados, como muitos deles são feitos sob encomenda, são necessários cerca de seis meses para ajustes.

O último carregamento mais expressivo de importados da Teka chegou este mês, ainda fruto de acordos fechados no ano passado. A empresa trazia itens como tapetes para banheiro e roupões, além de produtos de maior valor agregado, como as toalhas de fibras de bambu. Segundo Stewers, agora a importação está concentrada em artigos que a empresa não tem como produzir no Brasil por falta de tecnologia, como as toalhas de bambu. Os demais produtos são feitos, desde dezembro, no Brasil. "Diminuir a importação neste momento é oportunidade."

Já a Buettner decidiu suspender o programa de importações que mantinha com tradings para trazer principalmente fios e corantes da Ásia. "O preço dos importados não compensa mais. Com a desvalorização de 40% no câmbio, vale mais a pena comprar no Brasil", diz João Henrique Marchewsky, presidente da companhia.

As indústrias têxteis em geral passaram a trazer com mais intensidade insumos e produtos da Ásia a partir de 2005 e reforçaram a estratégia durante o período de valorização do real ante o dólar. As empresas importaram de 5% a 20% da sua produção total e tinham planos de aumentar esse volume. Agora, falam em recuo ou, em casos específicos, de manutenção.

De acordo com dados compilados pela Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), o volume de importações do setor em toneladas caiu 35,1% em janeiro na comparação com o mesmo mês de 2008. Há recuos expressivos em insumos como fios (49,6%), fibras têxteis (33,4%) , filamentos (48,3%), tecidos (11,6%) e linhas de costura (71,1%). As reduções em janeiro refletem o freio acionado pelas empresas no fim do ano, no epicentro da desvalorização.

Parte das prospecções que as indústrias estavam fazendo em novos países da Ásia, como Vietnã, Bangladesh e Camboja, também "esfriaram". "Estou indo este ano para Ásia para me manter informado das feiras, mas não faremos compras", ressaltou Stewers.

Para algumas empresas, apesar do câmbio agora não estar favorável às importações, ainda é cedo para recuar na estratégia de trazer produtos semiacabados e acabados da Ásia. Em alguns casos, os preços ainda são competitivos.

O presidente da Cativa, Gilmar Sprung, explica que em produtos em que é utilizada muita mão-de-obra é difícil que se consiga superar a competitividade dos asiáticos, mesmo com o câmbio atual. Ele cita como exemplo uma jaqueta de inverno, "com vários bolsos e zíperes", que com o dólar a R$ 2,30, custa na Ásia R$ 28, enquanto se produzida no Brasil hoje não sairia por menos de R$ 45.

A Cativa parou, neste momento, com compras de fios da Ásia porque verificou preços mais atrativos nas fiações brasileiras. Mas Sprung diz que a empresa não vai recuar na compra de produtos acabados de alto valor agregado.

Em janeiro, nos dados de comércio exterior, é possível verificar que os produtos importados confeccionados foram os únicos que não caíram. Eles cresceram 16,6% em volume na comparação com janeiro de 2008.

O grupo Lepper, que passou 2008 prospectando fornecedores na Ásia para itens complementares ao seu portfólio, também prefere manter os planos na área de produtos acabados, ainda que tenha parado de importar fios para outra empresa do grupo, a Fiação São Bento. "A R$ 2,30 ou R$ 2,40, não ficam inviáveis os produtos asiáticos, mas poderão ficar se o câmbio chegar a R$ 2,60", diz Maria Regina Loyola Alves, vice-presidente da Lepper. O primeiro carregamento de importados chega em março do Paquistão

Para a presidente da Dudalina, Sônia Hess, não há motivos para revisão da estratégia de importação. Segundo ela, a empresa se apoia no hedge natural que possui ao trazer tecidos e exportar quantidade similar de produtos acabados. Além disso, destaca que as importações concentram-se em tecidos diferenciados, que não são feitos no país. "Mas estamos olhando com mais cautela e tentando criar oportunidades. A crise aumentou o poder de barganha com os fornecedores internacionais porque seus clientes nos Estados Unidos e Europa minguaram."