Título: Mobilização popular dificulta aumento a parlamentares
Autor: César Felício
Fonte: Valor Econômico, 02/03/2005, Política, p. A14

A mobilização popular já cria obstáculos para o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), aprovar o aumento salarial de 67% para deputados e senadores, sua principal bandeira de campanha. Nos endereços eletrônicos dos deputados, já foram encaminhadas centenas de mensagens contra a proposta. Ontem, em São Paulo, a vereadora Soninha Francine (PT) organizou um "panelaço" na avenida Paulista e prepara uma passeata contra o aumento no domingo. Hoje, o deputado Chico Alencar (PT-RJ) entrega à mesa diretora da Câmara um abaixo-assinado com 6,6 mil adesões, que circulou dentro das paróquias da Igreja Católica no Rio, durante as missas de domingo, dia 27 de fevereiro. Nesta quarta, na Cinelândia, a ONG Ação da Cidadania promoverá um ato de repúdio ao projeto. A rapidez e a intensidade da reação surpreendeu os dois petistas. "É um rastilho de pólvora, com nível de adesão imenso", comentou o deputado fluminense. "Foi muito fácil unir as pessoas. A proposta é tão ruim que teve como lado bom retirar a opinião pública da indignação passiva", afirmou a vereadora. Já fecharam questão contra a proposta as bancadas do PSDB, PT, PPS e PSB. Sem fechar questão, as direções do PFL, PL e PTB também deverão recomendar o voto contrário. A estratégia de aprovar a proposta na Câmara ainda esta semana, antes que a reação se avolume, esbarra na falta de assinaturas para o regime de urgência para o projeto. E os opositores do aumento deverão usar o regimento para fazer com que a votação da proposta, caso aconteça, seja nominal. O presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson(RJ), aposta que a idéia sequer irá à votação. "Este aumento, se aprovado, deixaria Severino fragilizado e o tornaria cativo do governo federal. Diminui, portanto, o seu poder político. O Planalto pode ter a mídia ao seu lado, mas o Severino não. E depois que o Executivo decidiu dar um reajuste de apenas 0,1% para o funcionalismo, não há mais a menor condição de se aprovar 67% para deputados e senadores", disse Jefferson. "Este 'aumento' matou a gente", concorda o presidente do PL, deputado Valdemar da Costa Neto (SP). Para o pefelista Ronaldo Caiado (GO), houve um erro de cálculo por parte dos apoiadores da proposta ao concluírem que a maioria que apoiou a eleição de Severino iria fica imune à pressão da opinião pública. "O projeto não é correto e nem incorreto. É inoportuno, porque aqui ninguém quer ficar sem sintonia com o que a sociedade manifesta", afirmou. Para tramitar em regime de urgência, o projeto da mesa diretora precisaria de 257 assinaturas, e conseguiu apenas 140 até ontem. Caso decidam levar a proposta de reajuste adiante, os defensores do aumento irão modifica um projeto de lei enviado pelo Supremo Tribunal Federal que fixa os vencimentos de ministros do Judiciário em R$ 21,5 mil para incluírem a isonomia com os vencimentos do Legislativo. O projeto do STF já tramita em regime de urgência. Ainda assim, a proposta será encaminhada ao Senado, onde as pressões corporativas por aumento costumam ser menores.