Título: Receita 50% menor leva a redesenho
Autor: Adachi, Vanessa
Fonte: Valor Econômico, 26/02/2009, Finanças, p. C1
O colapso das ofertas de ações, o encolhimento das emissões de dívidas e a volatilidade que torna ainda mais incerto o fechamento das operações de fusões e aquisições vão derrubar dramaticamente as receitas dos bancos de investimento no Brasil em 2009. As estimativas de redução em relação a 2008 variam de 40% a até 60%, nos cálculos mais pessimistas. Não existem números públicos, mas as estimativas de alguns bancos ouvidos é de uma receita consolidada de US$ 500 milhões a US$ 700 milhões neste ano, incluindo comissões de renda fixa, variável e fusões e aquisições. Em 2008, a receita teria ficado entre US$ 1 bilhão e US$ 1,5 bilhão, dependendo da fonte.
A queda se sobrepõe à forte redução ocorrida já no ano passado - entre 30% e 40% - e o novo patamar de receitas não permite que todos os bancos tenham uma operação rentável. Fatalmente haverá um redesenho do setor, que ficou pequeno demais para acomodar todas as instituições que estão aí.
Em 2007, ano de ouro para o setor, só a receita com emissões de ações foi de R$ 2,4 bilhões, aponta levantamento em prospectos das ofertas. Em 2008 a cifra caiu para R$ 700 milhões, ainda um patamar respeitável, graças a grandes operações como a da Vale do Rio Doce e a da OGX. As receitas com operações de renda variável responderam por 60% a 70% do faturamento da atividade de banco de investimento no país nos últimos anos. Em 2009, deve ser algo insignificante. Não devem acontecer estreias na bolsa (IPO) e talvez apenas um número reduzido de vendas de ações de empresas que já têm capital aberto, como a da Redecard, confirmada ontem.
José Olympio Pereira, que chefia o banco de investimento do Credit Suisse, estima que a queda de receita pode ser de até 50%. "Voltaremos para o patamar de 2005 e 2006. Mas não ao que era até 2003, porque temos 115 novas companhias abertas e o Brasil de hoje é muito diferente daquele do período entre 1998 e 2002." Balanço do banco publicado no fim de semana mostrou queda no lucro de R$ 100 milhões (2007) para R$ 6 milhões (2008). A corretora do CS viu o lucro cair de R$ 265 milhões para R$ 139 milhões.
Naqueles anos entre 1998 e 2002, os bancos de investimento eram quase que escritórios de representação no país, a maioria nem tinha uma corretora de valores. Um executivo que dirigia uma instituição naquela época lembra-se de ter passado quatro anos só demitindo funcionários e ter registrado uma receita minguada de apenas US$ 5 milhões em 2002. De 2003 para cá, o setor se desenvolveu, principalmente graças ao mercado de capitais.
Ricardo Lacerda, chefe de banco de investimento do Citi para a América Latina, trabalha com estimativa de queda de receita de 40% a 50% para o setor, mas acredita que instituições mais afetadas verão seu faturamento cair até 60%.
O fato é que, com quedas dessas magnitudes, não parece haver espaço para todos. "Até o ano passado, um banco podia ganhar 10% do mercado e sobreviver. Agora, quem não conseguir uma fatia de 20 a 30% não conseguirá ser rentável", diz um banqueiro.
A avaliação geral é que haverá cortes de equipes (em grande parte já feitos), saída de atividades deficitárias e até fechamento de instituições. "Hoje parece haver espaço para quatro ou cinco bancos de investimento", estima Claudio Haddad, presidente do Ibmec São Paulo. Para ele, irão surgir mais butiques de assessoria financeira. "Muita gente vai deixar os bancos por causa das limitações de pagamento de bônus."
"Ninguém questiona a necessidade de adequar as estruturas para a nova realidade de mercado. O desafio é calibrar a velocidade e o tamanho destes ajustes", diz Jean-Marc Etlin, que comanda operações de "investment bank" do Itaú BBA. Na sexta, o banco confirmou a demissão de cem funcionários, entre corretora e banco de investimento. Na fusão entre Itaú e Unibanco, o banco de investimento do Unibanco desapareceu e houve corte drástico no total de funcionários da corretora.
Executivos do setor acreditam que um corte exagerado agora pode comprometer a retomada dos negócios quando o mercado reagir. Durante os anos de crise, até 2002, o UBS, por exemplo, não fechou sua corretora. Quando o mercado de ações se abriu, saiu em vantagem. O Credit Suisse se destacou nos recentes anos de bonança principalmente porque manteve certa estrutura nos anos de receitas minguadas.
Alguns bancos estão em posição relativa mais confortável. O Itaú BBA, por ser nacional, tem a vantagem de não estar imerso na forte crise internacional. Sua desvantagem é também não contar com uma plataforma global de negócios. Entre os estrangeiros, o Credit Suisse e o JP Morgan são os que menos sofreram perdas lá fora. O UBS, embora tenha registrado pesados prejuízos, tem a vantagem de contar com uma franquia local forte, originária do antigo Pactual. Na ponta dos bancos mais fragilizados pela crise estão Citi, Morgan Stanley e Merrill Lynch, que foi comprado pelo Bank of America.
Claudio Haddad acredita que, quando houver recuperação do mercado, ela virá de forma rápida. Daí a necessidade de fazer ajustes com visão de longo prazo. "Quando a volatilidade dos mercados se reduzir, muitos negócios poderão acontecer de forma rápida, porque os interesses estratégicos continuam", concorda Lacerda, do Citi.