Título: Mercado livre vai passar por novo aperto na oferta e alta de preços
Autor: Goulart, Josette
Fonte: Valor Econômico, 26/02/2009, Empresas, p. B1
O cenário de queda dos preços da energia no mercado livre, vivido no último trimestre do ano passado, em função da crise, rapidamente se alterou. As indústrias que estão nesse mercado, que representa 25% do consumo de energia do país, e que deixaram para fechar contratos neste ano vão se deparar com um novo aperto na oferta. Consequentemente com uma nova alta nos preços. Isso vai acontecer porque grande parte da energia que estava sobrando nas comercializadoras, geradoras e até mesmo nas grandes indústrias foi contratada na sexta-feira pelas distribuidoras, que precisavam fazer ajuste em seu portfólio. E mesmo diante da crise, as distribuidoras não tiveram toda a sua necessidade atendida.
O 9º Leilão de Ajuste realizado pelo governo federal no fim da semana passada serviu de termômetro, segundo alguns agentes do setor, já que as distribuidoras puderam ajustar sua demanda levando em conta o fator crise. E os grandes consumidores fizeram o mesmo, vendendo o que avaliam que vai sobrar neste ano. Isso significa que será preciso que a crise se deteriore muito para alterar novamente as condições de oferta e demanda para este ano.
As distribuidoras, por exemplo, mostraram que o consumo de energia arrefeceu, mas continua existindo. No leilão de setembro do ano passado, elas pediram cerca de 3.000 megawatts médios para suprir o mercado deste ano. Não houve oferta, o que significa que sem a crise elas ainda precisariam desse montante. Mas o número caiu para 1.800 MW médios. Mesmo assim, elas foram atendidas em apenas 1.400 MW médios. Se não fosse a crise, o país não geraria energia suficiente para atender o consumo neste ano, segundo o sócio da comercializadora Tradener, Walfrido Victorino Ávila.
Seguindo a regra clássica de preço em função da oferta e demanda, o leilão terminou próximo ao preço-teto estabelecido de R$ 145,77. E a partir de agora o mercado livre terá de conviver com esse novo patamar. Até então, era possível comprar energia para 2009 por cerca de R$ 120. O consultor Sílvio Areco, da Andrade & Canellas, acredita que não haverá forte demanda no mercado livre ainda este ano e este segmento ainda está preocupado se vai consumir o que contratou.
Mas o leilão de sexta-feira serviu também para ajustar os contratos destes consumidores que tiveram de fechar fábricas ou reduzir produção. Aliás, o nome do leilão, "de ajuste", nunca foi considerado tão apropriado como neste momento. Os agentes apontam o forte volume vendido pela Cemig, cerca de 500 MW médios, como uma mostra da redução de consumo de alguns consumidores livres. Um dos exemplos mais diretos, entretanto, veio da Alcoa, que vendeu cerca de 30 MW médios no leilão, segundo dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).
A Alcoa foi a única empresa que vendeu diretamente sua energia excedente no leilão, mas outras grandes indústrias também fizeram o mesmo por meio de comercializadoras. O diretor da Enertrade, comercializadora da EDP Energias do Brasil, Renato Volponi, diz que dos 213 MW médios que vendeu no leilão, cerca de 40% eram de consumidores autoprodutores. E mesmo o restante ofertado no leilão, veio de um ajuste dos consumidores clientes da comercializadora. "Esse leilão vai mudar o ano", diz Volponi. "Essa energia saiu toda do mercado livre e foi para o regulado." Isso mostra que haverá aperto na oferta.
O sócio da Delta Energia, Mateus Aranha de Andrade, diz que a enxugada de energia existente para ser vendida no mercado livre vai afetar o preço, mas o quanto só poderá ser medido nas próximas semanas. Ele lembra que como estava próximo do leilão, o mercado livre estava parado, esperando justamente um sinal de preço que viria do evento. "Mas não sabemos ainda quanto haverá de energia disponível para esse mercado".
Arenco, da consultoria Andrade & Canellas, diz que esse novo patamar de preço por um lado possibilitou que a energia das usinas de biomassa fosse novamente colocada à venda. Isso porque os preços no patamar de R$ 120 não remuneravam os geradores. Energia essa que poderá agora ficar disponível no mercado livre mas, de qualquer forma, não servirá como atenuante de preços.
Os consumidores livres que não tiverem contratos para este ano terão de correr para os leilões de curto prazo, para evitar multas por falta de lastro. Mas mesmo as ofertas de sobras mensais ficarão mais caras, com spreads altos em função do preço formado com o leilão de ajuste.