Título: Brasil deve estreitar relações com o governo de Obama
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 02/03/2009, Opinião, p. A8

O ministro de Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, diz que pouco tem a ver com um processo na Justiça brasileira em que David Goldman, cidadão americano, pleiteia a repatriação do filho. Nascido nos EUA, o menino foi trazido pela mãe ao Brasil, de onde ela se divorciou, casou de novo e morreu, deixando o filho ao padrasto, que se considera pai legítimo da criança. Caso complicado, sob segredo de Justiça, envolve família rica e conhecida no Brasil, e um pai americano desesperado para reaver o filho, do qual foi afastado há cinco anos.

Para a secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, não importou que o assunto nem esteja no Executivo brasileiro, mas em disputa, na Justiça. Na pauta do encontro entre Hillary e Amorim, na semana passada, estava lá, levantado pela secretária americana, o drama do pai afastado do filho pela mãe, o padrasto e a Justiça brasileira. Quando faz pressão por algum tema, o governo dos Estados Unidos não escolhe interlocutor; enfatiza por todos os canais a prioridade que dá ao assunto.

Mais discreto, Celso Amorim falou pouco de comércio com Hillary Clinton, por saber que o interlocutor para esses assuntos, no governo dos EUA, é o representante de Comércio (USTR), não o secretário de Estado. Não tirou os temas comerciais totalmente da agenda, felizmente. Insistiu na necessidade de retomar a Rodada Doha, de liberalização comercial entre os sócios da Organização Mundial do Comércio (OMC), e pediu pressa na nomeação do novo representante comercial.

Num misto de conversa política e comercial, Amorim e Hillary até falaram da proposta do Itamaraty, de apoiar indústrias brasileiras para produção de têxteis no Haiti, importando matéria-prima do Brasil, e exportando ao mercado americano. Conversas mais objetivas sobre comércio bilateral ficaram para depois.

Na agenda política, o encontro de 40 minutos abordou desde a necessidade de respeito à diversidade política e econômica na América Latina a mudanças em relação a Cuba, e até os confrontos entre Israel e Palestina, no Oriente Médio. Além de preparar terreno para o encontro dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama, no dia 17, um dos principais temas da reunião de chanceleres foi o próximo encontro do G-20, o grupo das economias mais influentes do mundo, a reunir-se em abril.

Amorim, ao sair da conversa com Hillary, deu poucas pistas sobre o que falaram a respeito do G-20, encontro no qual a grande incógnita é a disposição americana de aceitar uma solução supranacional para a crise financeira mundial. É de se esperar que, como fez Hillary no caso de David Goldman, as intervenções de Amorim na conversa tenham sido mais pragmáticas que conceituais, mais voltadas a desdobramentos práticos que a manifestações de princípios diplomáticos.

No mercado mundial em colapso, os EUA emitem sinais contraditórios em relação aos interesses do Brasil no campo comercial. De um lado, reforçam uma lei que pode vedar o acesso brasileiro às alentadas compras do governo americano; de outro, anunciam redução de subsídios a grandes produtores agrícolas.

A diplomacia brasileira deve aproveitar qualquer oportunidade para condenar a face protecionista e incentivar a face liberal da gestão Obama. Amorim estará novamente hoje com Hillary Clinton, no Egito. Ele já mostrou antes prestígio internacional, ao ser procurado por vários interlocutores regionais, e recebido pelo presidente egípcio, Hosni Mubarak. Que esse prestígio seja usado de forma objetiva, é o mínimo que se espera do chanceler.

Ficou no papel a maior parte das iniciativas comerciais e econômicas acertadas entre os governos Lula e George Bush, como acordos bilaterais e a criação de um Fórum de Altos Executivos que quase não se reuniu até agora. Mesmo em crise, os EUA ainda são o maior parceiro comercial individual do Brasil. O recolhimento da grande potência, para cuidar das feridas provocadas pela crise, merece uma reação obstinada do Brasil para elevar as relações econômicas e comerciais ao topo de todas as agendas com aquele país. No mínimo, com o empenho que o governo dos EUA demonstra ao defender os direitos de um pai separado do filho legítimo.