Título: Novatas aproveitam a crise para crescer
Autor: Olmos , Marli
Fonte: Valor Econômico, 02/03/2009, Empresas, p. B8
Nem todos estão ocupados com corte de custos por conta da retração econômica. Num mercado tão competitivo como é o de automóveis, crise significa uma ótima oportunidade para os fabricantes mais jovens roubarem um pouco do mercado dos veteranos. A despeito do cenário, todos estão envolvidos em lançamentos e ampliação da rede de concessionárias. A japonesa Nissan conseguiu até dobrar a fatia de mercado desde o início da crise, em outubro.
Isso não quer dizer que as marcas com menos tempo de Brasil não estejam sofrendo com a crise. Praticamente todas tiveram que desacelerar a produção nas fábricas. Mas foram cautelosas. A Renault, por exemplo, cancelou um turno, mas não dispensou os funcionários, que começaram a retornar ao trabalho agora, num ambiente mais favorável. Em janeiro, as vendas totais de veículos foram 7,6% menores do que no mesmo mês de 2008. Mas a Renault conseguiu aumentar seus volumes em 14,7%. "Crise é sempre uma oportunidade", afirma Jérôme Stoll, presidente da empresa que acaba de ser promovido para a direção comercial na França.
Todas as francesas se deram bem na virada do ano, quando o mercado começou a sair da crise. As vendas totais de automóveis em janeiro na comparação com dezembro registraram avanço de 5,2% . Peugeot, Citroën e Renault cresceram, respectivamente, 17,2%, 14,9% e 13,9%. A Peugeot foi ágil quando os juros assustaram o consumidor e lançou em outubro uma campanha com taxas de 0,49% ao mês, com primeiro pagamento para depois do carnaval. "Numa crise, quanto maior se é mais problemas há para resolver; já o pequeno tem que aproveitar para crescer", diz o diretor comercial da Peugeot, Laurent Bernard.
Os fabricantes que investiram em fábricas no Brasil entre meados dos anos 90 a o início de 2000 ainda são pequenos se comparados com os gigantes que dominam o mercado desde os tempos de Juscelino Kubitshek. As sete montadoras que se instalaram no país em algum momento nesse período - Honda, Toyota, Renault, Nissan, Mitsubishi, Peugeot e Citroën - têm juntas menos de 20% do mercado. A coreana Hyundai começou a fabricar no Brasil em 2008. As quatro veteranas - Volkswagen, Fiat, General Motors e Ford são donas de quase todo o resto. A soma das fatias de cada uma das mais novas não é muito diferente do que há alguns anos. Em 2003, esse grupo tinha 15,74% do mercado brasileiro e em 2005, 17,09%.
É por isso que nenhuma nova oportunidade pode ser desperdiçada. Mesmo em pequenas doses, as marcas que chegaram por último no Brasil estão avançando. A Fiat, líder no país, não conseguiu alcançar a média de 11% de crescimento do mercado de automóveis no Brasil no ano passado. Avançou 6,6%. A Volkswagen, segunda maior, cresceu 7,4%. Enquanto isso, as novatas japonesas avançaram mais. A Honda aumentou as vendas em 30,7%, a Nissan em 49,5% e mesmo a Toyota, que não está na sua melhor fase no país, cresceu 13%.
Essas marcas passaram pela crise mais aguda, da virada do quatro trimestre de 2008 para o início de 2009, em plena fase de renovação de produtos. A Honda lançou o novo Fit, seu maior sucesso de vendas no país, em novembro, quando as vendas haviam acabado de despencar. Apesar do enfraquecimento do mercado, a compra desse carro tem fila de espera. Segundo o gerente comercial da Honda Automóveis, Alberto Pescumo, as entregas só vão se normalizar a partir de março. A participação da Honda também cresceu com a crise. Saiu de 5,1% em outubro para 6,2% em dezembro.
A Nissan tem uma história semelhante. Começou a vender em outubro a versão fabricada no Brasil da Frontier, uma picape respeitada no mercado. A marca, que tinha uma participação de 0,55% naquele mês, chegou em fevereiro com quase o dobro - 1,05%. "A Nissan é uma empresa pequena; mas estamos fazendo mais com menos", afirma o presidente da empresa no Brasil, Thomas Besson. Também a Peugeot passou pela crise em meio a um lançamento, o 207 Passion. "Fazer um lançamento na crise não é o ideal porque ao invés de usarmos os recursos para promover a imagem tivemos que ajudar a sustentar a rede, que ficou estocada", afirma Bernard.
Mas ninguém pensa em abandonar os lançamentos. Em março, a Nissan lançará seu primeiro carro de passeio fabricado no Brasil, o sedã Livina. Com esse carro, a marca ganhará mais fôlego. Hoje a Nissan participa em apenas 17% do que é o mercado brasileiro. A abrangência , com o novo modelo, passará a ser de 30%. Também em março a Renault lançará o sedã Symbol. A montadora vem renovando a linha de produtos desde 2006. Conseguiu, nesse período, elevar a participação de 2,8% para 4,3%.
Outro fator que ajuda um pouco as novatas é o fato de terem pouca participação no segmento dos carros com motor 1.0. As montadoras veteranas dominam a produção dos populares, que representam mais da metade das vendas. No entanto, os carros mais baratos são os primeiros atingidos numa crise de escassez de crédito. "Sofremos menos porque o nosso carro de entrada custa R$ 50 mil", destaca Pescumo, da Honda.
Mas a maior parte dos investimentos das empresas mais novas continua sendo na expansão dos pontos de venda e de oficinas. A Citroën abriu 25 novas concessionárias em 2008, um ano bom para o setor automotivo até outubro. Para 2009, nem mesmo as previsões de retração nas vendas mudam o ritmo das inaugurações de revendas. A marca programou 24 aberturas de lojas este ano. Somente até junho 14 serão inauguradas.
A estratégia se justifica. À medida em que surgem novas lojas, as vendas aumentam. Em 2008, a Citroën vendeu 68 mil veículos no país. Desse total, 8,7 mil saíram das lojas inauguradas somente naquele ano. Domingos Boragina , diretor de desenvolvimento de rede, estima que as inaugurações previstas para este ano garantirão sozinhas a venda de 7,4 mil veículos adicionais. "Não alteramos nenhum orçamento ou investimento em rede", afirma o executivo. Nem mesmo a chuva atrapalhou. A obra em nova concessionária de Santa Catarina foi refeita, depois da enchente, para não perder o embalo do avanço da marca. "Crise não é como uma tempestade de areia, que a gente tem que esperar passar", afirma Boragina. "Um dos antídotos que encontramos para a crise foi crescer", completa.
Segundo a Honda, há inaugurações na sua rede todos os meses. A Peugeot terminou 2008 com 152 concessionárias e a meta para 2009 e chegar a pelo menos 165. A Nissan tem hoje 67 revendas e espera chegar a 73 antes do final de abril.
A luta das novas marcas não se limita a aproximar-se das maiores. Elas tem de lidar também com o preconceito que boa parte dos consumidores ainda tem em relação às novidades. "Para começar, como não estamos no segmento dos populares, o consumidor ainda acha que nossos carros são caros", diz Bernard, da Peugeot. O executivo lembra que também a manutenção dos veículos ainda é vista com desconfiança pelo consumidor. "Mesmo quando já contamos com uma boa cobertura no país", destaca. Por isso, além da expansão da rede e dos lançamentos, a Peugeot diz que o pós-venda faz parte das prioridades mesmo na crise.