Título: A direita de volta ao poder
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Fonte: Correio Braziliense, 18/01/2010, Mundo, p. 15

Sebastián Piñera é eleito presidente do Chile, marcando o retorno dos conservadores ao Palácio de La Moneda 20 anos depois do fim da era Pinochet

O empresário Sebastián Piñera, de 60 anos, membro da conservadora Coalizão pela Mudança, foi eleito neste domingo o 48º presidente do país ao obter 51,61% dos votos e derrotar no segundo turno o senador Eduardo Frei, da aliança de centro-esquerda Concertação, que ficou com 48,38%. Os números foram divulgados ontem às 21h (horário de Brasília), pelo Ministério do Interior, quando estavam apurados 99,2% das 34.325 urnas.

Reunido com as lideranças de sua campanha em Santiago, Frei reconheceu a derrota e parabenizou o rival. ¿A eleição terminou e os resultados deixam em evidência a solidez de nossa democracia. Foi uma eleição limpa e transparente, e a maioria dos chilenos deu seu apoio a Sebastián Piñera¿, disse ele, que já havia sido presidente entre 1994 e 2000, em um discurso público na companhia de sua mulher, Marta Larraechea, e de suas quatro filhas.

Frei tinha conseguido diminuir, na última semana, a vantagem de 14 pontos que o direitista Piñera tinha no primeiro turno, em 13 de dezembro, mas não foi o suficiente para assegurar um quinto governo para a Concertação Democrática. Com isso, os primeiros resultados oficiais, com a apuração de 60% das urnas, deram a vitória a Piñera. ¿Espero que prevaleçam, no diálogo e na busca por um acordo, as conquistas sociais que tanto nos custaram recuperar e que se transformaram em um símbolo de nossa relação com o mundo¿, acrescentou Frei.

Ditadura Com a vitória, Piñera se torna o primeiro presidente de direita eleito democraticamente no país em 52 anos. A votação também marca a primeira vitória da direita no Chile desde a volta da democracia ao país em 1990, quando se encerrou a ditadura de 17 anos do general Augusto Pinochet.

A Concertação, coalizão de partidos de centro-esquerda, deixará o poder com ¿a cabeça erguida¿, depois da vitória ontem do direitista Sebastián Piñera, declarou o ex-presidente socialista Ricardo Lagos. O ex-presidente destacou os avanços obtidos pelo Chile nas duas décadas de governo: ¿Hoje, 20 anos depois, há um Chile diferente¿, ressaltou Lagos, um dos líderes da coalizão no governo ao lado da atual presidente, Michelle Bachelet. ¿Ao que parece, a nossa mensagem não foi passada para o povo. A Concertação tem que se reinventar¿, reconheceu outro líder do governo, o ex-ministro e senador eleito Andrés Zaldívar.

A presidente chilena, Michelle Bachelet, ao ser comunicada do resultado, ligou para Piñera e o parabenizou pela vitória nas urnas. ¿Quero felicitá-lo por sua eleição¿, disse Bachelet a Piñera. Hoje as pessoas escolheram democraticamente e o elegeram para novo presidente da República¿, ressaltou ela, em uma conversa por telefone que foi transmitida pela televisão estatal.

Piñera agradeceu sorridente as palavras da presidente, sentado junto à mulher, a nova primeira-dama, Cecilia Morel. ¿Agradeço muito as suas palavras e quero pedir a você conselhos e ajuda¿, disse Piñera a Bachelet, reconhecendo sua relevante ¿experiência de quatro anos¿.

Sebastián Piñera, presidente eleito

Agradeço muito as suas palavras e quero pedir a você conselhos e ajuda. A felicito porque sei que os quatro anos de governo foram uma carga dura

Quero felicitá-lo. Hoje as pessoas escolheram democraticamente e o elegeram o novo presidente da República¿ Michelle Bachelet, Presidenta Chilena

Perfil Fortuna de US$ 1,2 bi

Um dos homens mais ricos e poderosos do Chile, o economista e empresário Miguel Juan Sebastián Piñera Echenique nasceu em 1º de dezembro de 1949, em Santiago. Com uma fortuna avaliada em US$ 1,2 bilhão pela revista Forbes, o centro-direitista é acionista majoritário da LAN Airlines ¿ maior empresa aérea do Chile ¿, e dono da rede de televisão Chilevisión. Por esses fatos, Piñera é comparado ao primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, embora o chileno refute essa associação.

Apesar de sua ligação com antigos representantes do regime de Pinochet, Piñera prometeu que ¿não haverá nenhum ministro do governo militar¿. O candidato de centro-direita ponderou e disse também não ser ¿um delito nem um pecado ter colaborado de forma leal e honesta¿ com o regime de Pinochet, ¿desde que não tenham sido cometidas violações aos direitos humanos¿.

Durante a campanha, as principais promessas de Piñera foram a criação de um milhão de empregos, o incentivo à iniciativa privada, o enfrentamento ao crime e ao narcotráfico e a melhoria dos sistemas de saúde e educação. O candidato da direita também se apoiou em um suposto desgaste da Concertação, que está há 20 anos no poder no Chile.