Título: Rússia suspende embargo a seis Estados
Autor: Alda do Amaral Rocha
Fonte: Valor Econômico, 03/03/2005, Agronegócios, p. B11
A Rússia anunciou ontem a suspensão do embargo às carnes bovina, suína e de frango de mais seis Estados brasileiros: Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. O embargo foi imposto ao país em setembro do ano passado, após o surgimento de um foco de febre aftosa em Careiro do Várzea (AM). Em novembro, o governo russo levantou a proibição às importações de Santa Catarina, mas manteve para os outros Estados. Em fevereiro, as compras de frango brasileiro foram retomadas, com exceção para o produto do Pará e Amazonas. A embaixada brasileira em Moscou informou o Ministério da Agricultura do fim do embargo ontem, mas a decisão será oficializada hoje pelo chefe do Serviço Federal de Supervisão Veterinária e Fitossanitária, Sergei Dankvert, em reunião com uma missão técnica do governo brasileiro chefiada pelo secretário de Defesa Agropecuária do Ministério, Gabriel Alves Maciel, que está no país. A missão viajou à Rússia terça-feira para negociar o fim do embargo depois que o governo russo pediu novos esclarecimentos sobre a situação de sanidade do gado bovino brasileiro. A expectativa é de que na reunião de hoje russos e brasileiros acertem garantias que assegurem a sanidade do gado brasileiro, disse Antônio Camardelli, diretor da Abiec (reúne exportadores de carne bovina) que acompanha a missão. Ele disse que devem ser discutidas mudanças no certificado sanitário assinado pelos dois países. O acordo, que define que um Estado afetado por aftosa deve ficar dois anos sem exportar e os limítrofes, um ano, é considerado muito rígido. Em Rio Verde, o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, comemorou a decisão russa. "Conseguimos um resultado formidável com o envio da missão. Agora, eles vão negociar arduamente a abertura para as carnes de Mato Grosso e Tocantins. Acredito que teremos tudo liberado". A Rússia foi o maior mercado para as carnes brasileiras em 2004, com a compra de US$ 867 milhões, o que representa 14% do total. Para Antônio Camardelli, os russos aliviaram o embargo porque, após as recentes explicações técnicas brasileiras, eles se convenceram de que não havia risco de comprar dos outros estados. Fontes do setor avaliam, porém, que outros fatores contribuíram para a decisão. Um deles seria a menor oferta de carne bovina e suína na Rússia, o que elevou as cotações. No caso, da carne suína, os preços subiram 30% a 40%. Além disso, há quem veja motivação política: com a suspensão da licitação dos aviões caças pelo Brasil, a Rússia teria esperança de que o país priorizasse o produto russo. A abertura às carnes de outros estados seria "um agrado" ao Brasil. A decisão russa foi comemorada, mas os gaúchos, que se sentiram injustiçados pelo longo embargo reclamaram do governo brasileiro. Para o diretor do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos do Rio Grande do Sul (Sips), Rogério Kerber, o governo brasileiro demorou para "assumir o problema e buscar uma solução". Segundo ele, desde setembro os frigoríficos gaúchos tiveram que direcionar para outros mercados como África, Cingapura e Ucrânia cerca de 38 mil toneladas do produto que seriam embarcadas para os russos no mesmo período. O problema, disse, é que enquanto a Rússia compra a carne suína na faixa de US$ 1,7 mil a tonelada, esses novos mercados pagam cerca de US$ 1,2 mil a tonelada. Com isso, as indústrias gaúchas tiveram prejuízo de quase US$ 20 milhões. (Colaboraram Sérgio Bueno, de Porto Alegre, e Mauro Zanatta, de Rio Verde (GO)