Título: Pressão política surte efeito e produtor terá até R$ 6 bi
Autor: Mauro Zanatta
Fonte: Valor Econômico, 03/03/2005, Agronegócios, p. B12

A forte pressão política funcionou mais uma vez, e o governo federal anunciou ontem um novo pacote de ajuda emergencial aos produtores rurais. Somadas a rolagem de dívidas e aplicação de recursos novos na comercialização da safra, o auxílio chega a até R$ 6 bilhões. O governo busca amenizar os impactos da alta dos custos de produção, a queda nos preços internacionais das commodities e a desvalorização do dólar. Após reunião-comício de três horas de duração com governadores de quatro estados, o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, informou a cerca de oito mil produtores presentes em Rio Verde (GO) que serão prorrogados R$ 2,62 bilhões em débitos das linhas de investimento do BNDES, com vencimento em 2005. Serão beneficiados, após análise de cada caso, produtores de algodão, arroz, milho, trigo e soja. Também foram rolados R$ 170 milhões em operações de investimento com recursos do Fundo Constitucional do Centro-Oeste (FCO). Para auxiliar a comercialização e o financiamento da estocagem da atual safra, Rodrigues anunciou R$ 3 bilhões em recursos adicionais aos previstos no Plano de Safra, em vigor até junho. O governo decidiu redirecionar R$ 500 milhões em recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), administrados pelo FCO, para a sustentação dos preços. Os financiamentos pela nova linha, até agora limitada a investimentos, deverão ser quitados até o fim deste ano com juros anuais de 8,75% a 10,75%. Além disso, serão aplicados R$ 1 bilhão captados pela poupança rural do Banco do Brasil a juros de 8,75% e outros R$ 1,1 bilhão a juros livres - cerca de 19% ao ano. Os bancos privados também se comprometeram a reforçar em R$ 400 milhões a parcela de recursos com aplicação obrigatória na agricultura. As medidas agradaram aos produtores. O produtor Adilton Sachetti, de Rondonópolis (MT), gostou: "É um bom princípio, mas temos que avançar". O presidente da Federação da Agricultura de Goiás, Macel Caixeta, disse que a pressão vai continuar. "Queremos prorrogar os investimentos de 2006 para garantir mais fôlego". Na "Carta do Centro-Oeste", assinada pelos governadores e lideranças do setor, os produtores pedem limitar a 20% os pagamentos das parcelas de custeio deste ano. Defendem ainda a renegociação dos débitos com empresas de insumos e tradings por seis meses. "Eles têm que entender que não podem matar a galinha dos ovos de ouro", disse Márcio Lopes de Freitas, presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB). Pressionado pela bancada ruralista e os governadores dos principais estados produtores, o governo preferiu ceder a enfrentar retaliações em votações no Congresso Nacional. "Essa bancada ninguém segura", admitiu o ministro Roberto Rodrigues. A reunião teve um forte tom político. Preocupado com a repercussão negativa de um auxílio ainda considerado tímido pelos produtores, o ministro cercou-se de aliados parlamentares e lideranças do setor. Ao lado dos governadores Marconi Perillo ((PSDB-GO), Germano Rigotto (PMDB-RS), Blairo Maggi (PPS-MT) e Marcelo Miranda (PSDB-TO), o ministro tentou vender o pacote como um "grande esforço inicial" do governo federal. Ele admitiu que não pôde avançar mais por causa dos "profundos" cortes no Orçamento da União para 2005 e que ainda falta conseguir mais recursos do Tesouro para bancar a diferença entre os juros de mercado e do crédito rural para a comercialização. "As medidas não são suficientes. A demanda é muito maior, mas vamos continuar a negociação com o ministro (Antonio) Palocci", disse. Em discursos inflamados, políticos da oposição não pouparam ataques à "morosidade" da equipe econômica e à "insensibilidade" do presidente Lula. Mas Rodrigues saiu ileso. Todos os discursos ressalvaram a figura do ministro como um "aliado", uma "ilha de competência" e o "esteio da agricultura". Entre os oito senadores e 20 deputados federais de 12 estados, o deputado Ronaldo Caiado (PFL-GO) foi o mais entusiasmado. Eleito ontem presidente da Comissão de Agricultura da Câmara, disse que o Ministério da Fazenda "dá as costas para a agricultura nos momentos de crise", mas salientou o papel de Rodrigues: "O governo é míope, mas o ministro é maravilhoso. E faz o que pode". Riggotto completou: "Confiamos no ministro porque ele conhece nossos problemas. Quem deveria estar aqui era a equipe econômica", disse, ao lado de dois líderes da oposição ao governo, os tucanos Arthur Virgílio (AM) e Tasso Jereissati (CE). "Ele é nosso advogado dentro do governo", repetiu Blairo Maggi. O pacote do governo também visou os produtores atingidos pela seca. Os rizicultores terão os limite de crédito de custeio aumentado em 30%. No sequeiro, o limite passa de R$ 200 mil para R$ 260 mil. No irrigado, de R$ 400 mil para R$ 520 mil. Os produtores de trigo também tiveram prorrogados para junho, julho e agosto R$ 278 milhões que venciam em março. No algodão, foram roladas por 30 dias as parcelas de fevereiro e ampliado em 30 dias o prazo para pagamento de cada prestação vencida a partir de março. O vice-presidente do BB, Ricardo Conceição, anunciou que o banco abrirá uma linha de crédito de R$ 732 milhões para o custeio da safra de trigo e cereais de inverno e mais R$ 550 milhões para a safrinha de milho e sorgo.