Título: BC agressivo encosta dólar nos R$ 2,65
Autor: Luiz Sérgio Guimarães
Fonte: Valor Econômico, 03/03/2005, Finanças, p. C2

Os efeitos da ata light do último Copom sobre o mercado futuro de juros da BM&F já se esgotaram. As taxas sobem mas não por culpa da inflação. A responsabilidade é, indiretamente, do próprio Banco Central. Com suas atuações agressivas no mercado de câmbio, o BC sinaliza a possibilidade de o dólar vir a abandonar a sua função coadjuvante no esforço antiinflação. Os juros futuros seguem fielmente o que vem acontecendo com o dólar à vista. O inverso deveria prevalecer (juro alto atrai dólar, Selic baixa afasta), mas o raciocínio é de que o Copom terá de sustentar a taxa básica elevada por mais tempo do que se previa no caso de o dólar insistir no caminho ascendente. O contrato mais negociado no DI futuro da BM&F, para a virada do ano, avançou de 18,75% para 18,83%. A moeda não pára de subir por duas razões. A primeira são as incertezas internacionais relativas aos próximos passos do Federal Reserve (Fed). Alan Greenspan, presidente do Fed, não fez ontem, como se temia, um discurso incendiário na Câmara dos Deputados. Logo cedo, o dólar chegou a subir 1,22%, cotado a R$ 2,65, por receio de que a fala iria promover nova decolagem dos juros dos títulos do Tesouro americano de 10 anos. O discurso, se não fugiu à normalidade, não tranqüilizou a ponto de autorizar uma baixa das taxas. Mesmo assim, o dólar começou a cair, mas perdeu fôlego depois que o BC fez intervenções cambiais. A atuação mais agressiva do BC é o segundo motivo da reação da moeda. Fez ontem o quinto leilão de venda de swaps cambiais reversos e retirou hedge oficial correspondente a US$ 1,96 bilhão. E comprou dólares no mercado à vista. De novo, pagou preço acima do praticado. No momento em que a moeda estava sendo negociada a R$ 2,6340, adquiriu por R$ 2,6350. A intervenção foi decisiva, destinada a enxugar a liquidez. Tanto que o dólar fechou cotado a R$ 2,6430, alta de 0,95%.

Bancos já reduzem posições vendidas

Os acenos que o mercado vem recebendo do BC são todos no mesmo sentido: se os bancos querem carregar posições vendidas (US$ 3,41 bilhões), o problema é deles, o BC continuará atuando pesado para recompor reservas e elevar preços. As declarações recentes do presidente Henrique Meirelles reforçam essa interpretação. Segundo ele, mesmo depois que o BC zerar a dívida pública indexada ao câmbio continuará oferecendo swaps reversos ao mercado. Meirelles também não desmentiu categoricamente o uso do IOF para dissuadir a entrada de capitais externos especulativos. Esse posicionamento cambial mais firme do BC e as incertezas externas vêm tirando o sossego das instituições excessivamente vendidas. Já se nota um crescimento da zeragem das carteiras mais arriscadas.

Os operadores estão desconfiados de que a intensificação das compras de dólares visam a montagem de um caixa destinado a recompra dos C-Bonds. No próximo dia 15, o governo irá informar se exercerá ou não a opção de resgate antecipado nos papéis. Para tanto, um pouco menos de US$ 6 bilhões teriam de ser sacados das reservas. E só em janeiro e fevereiro o BC já comprou mais que esse montante no mercado à vista. O resgate dos C-Bonds apaga a memória dos tempos da moratória da dívida externa. E abre caminho para uma queda ainda mais expressiva do risco-país. Ontem, o risco cedeu até 389 pontos-base, ante 394 na véspera. A Bovespa retomou a alta após dois dias de "realização". Subiu ontem 1,69%, para 28.199 pontos.