Título: A classe média atira a primeira pedra
Autor: Maria Cristina Fernandes
Fonte: Valor Econômico, 04/03/2005, Política, p. A7
A insatisfação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi multiplicada por quatro desde o início de seu governo. Entre as pessoas com renda superior a 20 salários mínimos essa insatisfação cresceu oito vezes. A comparação entre as pesquisas CNT-Sensus de janeiro de 2003 a fevereiro de 2005 mostra que era nessa faixa de renda que se concentravam as maiores expectativas em relação ao governo. No início de seu mandato, Lula chegou a ter a aprovação de 90% desse segmento. Como, às vésperas da eleição, 68% das pessoas de classe média alta declaravam voto petista, foi com a posse que Lula arrebatou as esperanças dos eleitores de seus adversários. As mulheres também se desencantaram mais com Lula, mas isso só confirma a histórica dificuldade do presidente nesse terreno. Do cruzamento, chama atenção o grau de desencanto na faixa etária entre 30 e 49 anos e no Centro-Oeste. Nesta região, o presidente perdeu mais apoio do que em qualquer outra parte do país. Sua popularidade no Centro-Oeste caiu 35,8 pontos, o dobro da média nacional. A soma da insatisfação da classe média alta com a força dos ruralistas na região, é mais uma evidência de que o governo Lula bate recordes nas exportações mas não está sendo capaz de garantir a paz no campo. O crescimento da desaprovação entre os brasileiros de 30 a 49 anos revela ainda o ônus do governo sobre o segmento com mais encargos familiares que paga escola e saúde particulares, gasolina, telefone, internet.
Os números estão aí. Na semana passada, o IBGE mostrou que a desigualdade social diminuiu no país às custas do achatamento da renda dos bem empregados. Em 2003, o rendimento dos 10% com melhores salários era 16,9 vezes maior do que a renda auferida pelos 40% dos assalariados da base da pirâmide. Em 1995, a distância era de 21,2 vezes. Nesse período, a renda dos assalariados mais pobres ficou estável. A pesquisa não mediu os ganhos de capital. Captou apenas a renda salarial. Os técnicos do IBGE interpretaram os dados como resultado da redução dos níveis de gerência, corte nos postos de trabalho e recontratação com achatamento. O discurso de Lula só tem reforçado a tese de que a classe média está fora das prioridades de seu governo. Basta ver o que o presidente, seus ministros e líderes no Congresso têm dito sobre o Prouni, por exemplo. O governo tem feito um esforço louvável no sentido de facilitar o acesso de alunos das escolas públicas às universidades federais. Promove, com a mesma determinação, o aviltamento salarial de quem paga mensalidade escolar. A prosseguir nesse rumo, as cotas das universidades federais reservadas às escolas públicas em breve serão preenchidas antes pela classe média depauperada do que pelos mais pobres. Os dados do professor do Instituto de Economia da Unicamp, Waldir Quadros, mostram a força da gravidade sobre a mobilidade social no país . Ele calcula que, em 2003, mais de 2,5 milhões de pessoas da classe média não tiveram condições de manter o mesmo padrão de vida. Na divisão que faz há três classes médias - a alta (renda familiar acima de R$ 5 mil), média (de R$ 2,5 mil a R$ 5 mil) e baixa (de R$ 1 mil a R$ 2,5 mil); abaixo estão os trabalhadores de baixa renda (de R$ 500 a R$ 1 mil), os pobres (menos de R$ 500) e os indigentes. Quadros calcula que milhão de pessoas caíram da alta classe média, 850 mil da média classe média e 1,48 milhão da baixa classe média. Conclui que o empobrecimento desse segmento no primeiro ano de Lula foi maior do que no pior ano de FHC (1999) e tão desastroso quanto o provocado pelo Plano Collor (1990). Foi sobre este pano de fundo que se lançou a MP 232, que afaga a classe média com a mesma mão com que a apedreja. E deu carne aos leões da oposição, que resolveu centrar na gastança do governo sustentada pela farra dos impostos, seu discurso para 2006. Pelos dados de Waldir Quadros, as pessoas com renda familiar acima de R$ 5 mil passaram de 4,38% em 1990 para 3,38% do conjunto da população em 2003. Para se contrapor a essa fatia, numericamente pouco expressiva, do eleitorado, Lula já dá indicações de que elegeu como aliados os representantes dos desvalidos. No dia de maior fervura no caldo entornado por suas declarações sobre corrupção no governo de seu antecessor, o presidente visitou um congresso de trabalhadores rurais. Como de costume, pôs um boné e desatou - "Pela primeira vez o Brasil não tem um presidente, mas um companheiro na Presidência da República". Em retribuição, os representantes da Contag e do MST o trataram como vítima dos endinheirados. "Temos de deixar de lado nossas diferenças. Toda a elite, que sempre mamou nas tetas do Estado, se uniu para tentar derrubar o governo Lula", disse João Paulo Rodrigues, líder do MST. Manuel dos Santos, presidente da Contag, foi na mesma linha: "Não temos que pensar só neste mandato do Lula. Se não tiver reeleição, o governo que virá não será melhor que este". Se a estratégia do presidente está acertada ou não, só as urnas de 2006 dirão. O que a conjuntura parece indicar é é que se Lula foi eleito com um discurso que atravessou fronteiras de classe, ele agora governa reerguendo-as.