Título: Dólar sobe 3,6% em três dias de março
Autor: Luiz Sérgio Guimarães
Fonte: Valor Econômico, 04/03/2005, Finanças, p. C2
Ontem foi dia de movimentos extremos nos dois principais mercados, o de câmbio e o de juros. Por razões autônomas, o dólar disparou e os juros despencaram no mercado futuro da BM&F. Sempre vinculados macroeconomicamente, os dois segmentos se divorciaram ontem por imperativos do dia. O dólar chegou a saltar 2,91%, cotado a R$ 2,72, mas fechou com uma valorização menos intensa, ainda assim impressionante, de 1,47%, a R$ 2,6820. Para uma moeda que mal conseguia se sustentar em R$ 2,60 no final de fevereiro, os três primeiros dias de março, durante os quais subiu 3,59%, foram surpreendentes. E as projeções de CDI, além de tombar em bloco, sofreram perdas mais expressivas conforme o prazo do contrato. Ou seja, a curva futura de juros acentuou a inclinação negativa a partir do segundo semestre do ano. No mercado de câmbio, o grande impulso à alta veio das armações destinadas a aumentar a taxa oficial de câmbio, a "ptax". Esta será usada para o registro contábil a partir do qual os 40 mil contratos de swap reverso vendidos na quarta-feira pelo Banco Central passarão a render. Quando maior a taxa, mais alta a rentabilidade de partida. O movimento de elevação de preços sofreu na hora do almoço o súbito reforço representado pela disparada das cotações do petróleo em Nova York. O barril voltou ao nível recorde de US$ 55,00 e estimulou bancos pesadamente vendidos em dólar a reduzir suas posições. O argumento é o de que se o petróleo forçar um repique na inflação americana, o Federal Reserve poderá apressar a alta do juro básico, precipitando uma fuga dos recursos hoje alocados em países emergentes. O petróleo alto também encarece as importações brasileiros. Os importadores precisariam de mais dólares para comprar os mesmos produtos. O petróleo fechou a R$ 53,57, alta de apenas US$ 0,52. Se não bastasse esse fator de peso, os credores do BC trataram, para ampliar a tendência de alta do dólar, de espalhar novos rumores sobre a iminência de medidas administrativas destinadas a controlar o ingresso de dólares. Menos efetivos ontem, os boatos foram plantados justamente no dia seguinte ao da desistência, pela Colômbia, do seu controle de capitais. As autoridades econômicas de lá chegaram á conclusão de que o imposto sobre a entrada de capitais foi inoperante. Dada a competência do mercado em forjar justificativas para a alta do dólar, o BC se sentiu dispensado da tarefa de adquirir moeda em leilão. Não fez nenhum ontem porque o mercado já estava seco de moeda. Iria comprar pouco e caro. Parece que os bancos estão cansados de vender montanhas de dólares ao BC a baixo preço. A motivo central para a apreciação cambial continuará presente mesmo que o Fed acelere o aperto monetário nos EUA. Mesmo que a Selic suba apenas 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Copom, marcada para o dia 16, ficará longos meses congelada em 19%, juro nominal recorde em escada mundial. A perspectiva, quase certeza, de que a Selic avançará apenas mais 0,25 ponto, abandonando o ritmo de 0,50 ponto adotado pelo Copom desde outubro, foi o que derrubou os contratos futuros de juros. Este sinal esteve presente nas entrevistas concedidas pelo ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Palocci disse a senadores que a "inflação parou de amedrontar". E parou mesmo. Anunciado ontem, o IPC FIPE fechado de fevereiro fez coro ao ministro. Foi de 0,36%, ante 0,56% em janeiro. Meirelles disse que o País já pode "sonhar com juro menor". Os indícios de que a próxima alta do juro será de 0,25 ponto também foram colhidos pelos economistas de bancos em reuniões mantidas ontem com a diretoria do BC. Os diretores reforçaram o cenário de inflação benigno já presente na ata da reunião de fevereiro. O CDI previsto para a virada do mês no mercado futuro da BM&F recuou de 18,90% para 18,84%. Para a passagem do primeiro para o segundo semestre, o juro cedeu de 19,16% para 19,09%. E para a virada do ano retrocedeu de 18,83% para 18,73%. O swap de um ano - taxa referencial para as operações de crédito - caiu de 18,60% para 18,50%. Mesmo assim, o juro real 12 meses à frente persiste imperdível: 12,3%. Se os motivos que levaram o dólar a disparar fossem de fato preocupantes, a Bovespa teria caído e o risco-país subido. Pelo contrário, o índice da Bolsa paulista valorizou-se 1,66%, para 28.668 pontos. O volume, de R$ 1,94 bilhão, denunciou a forte atuação compradora de investidores estrangeiros. Estes ignoraram uma suposta elevação maior dos fed funds por causa do petróleo e persistiram adquirindo bônus da dívida externa brasileira. O risco-país cedeu 1,28%, para 387 pontos-base.