Título: Falsa impressão
Autor: Allan, Ricardo
Fonte: Correio Braziliense, 13/02/2010, Economia, p. 14

Sinais de crise na Europa e de estagnação em países economicamente fortes mostram que houve animação excessiva sobre a recuperação econômica mundial

A economia global deve se recuperar num ritmo mais lento do que o imaginado. O anúncio de indicadores ruins nos países desenvolvidos, a crise nas contas públicas na Europa e a estagnação no crédito, no consumo, no emprego e nos investimentos começam a gerar uma reversão de expectativas. Quando os governos derramaram US$ 5 trilhões em incentivos fiscais e monetários, a esperança era de retomada da atividade numa velocidade que chegou a causar euforia entre os investidores. Agora, embora ainda no terreno positivo, alguns analistas já projetam um desempenho pior para Estados Unidos e União Europeia (UE), jogando a consolidação da melhora no cenário para 2011 e 2012.

¿Os pacotes fiscais e monetários deram uma falsa impressão de que a recuperação seria razoavelmente rápida. Mas as coisas estão andando mais devagar do que se imaginava há alguns meses. Os dados da economia real nos Estados Unidos e na Europa estão muito anêmicos¿, afirma o chefe da Divisão Econômica da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas Gomes. Ontem, a Zona do Euro (bloco de 16 países que adotam a moeda) divulgou seu desempenho no último trimestre de 2009, quando houve um crescimento de apenas 0,1%, um ritmo três vezes menor do que o estimado pela média dos consultores. No ano, o Produto Interno Bruto (PIB) do grupo encolheu 4%.

A contração foi de 5% na Alemanha, que ficou estável no quarto trimestre, e de 2,2% na França, com expansão de 0,6% entre outubro e dezembro. ¿O motor do crescimento da Zona do Euro fez uma pausa no quarto trimestre, mas deve voltar a funcionar em breve. Os números de hoje, no entanto, são um bom lembrete de que a recuperação pode ser não só irregular como também caprichosa¿, afirma o economista Carsten Brzeski, do banco ING. ¿Seria ingênuo achar que a Europa teria um desempenho razoável neste ano. Mas esses números, de fato, jogam uma sombra maior nas expectativas de recuperação europeia em 2010¿, diz a economista Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria.

Sem confiança

Nos seus cálculos, o continente vai crescer só 0,9%, muito pouco diante do buraco em que se meteu. Na avaliação de Freitas Gomes, a recuperação europeia, que já seria fraca, será ainda mais lenta com a crise fiscal dos países pejorativamente chamados de Piigs (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) ¿ o acrônimo lembra a palavra porcos em inglês. ¿A estabilidade do euro está em risco. A quebra da Grécia pode levar a uma crise de confiança no euro, contaminando os outros membros. Alguns países podem chegar ao caso extremo de decretar moratória¿, teme o economista da CNC.

A demora dos executivos da UE em fechar um plano de socorro à Grécia piora o cenário. Independentemente da solução a ser encontrada na semana que vem, Freitas Gomes e Alessandra acreditam que a crise fiscal europeia vai gerar muita oscilação nos investimentos financeiros. ¿As expectativas exageradas sobre a recuperação vieram mais do mercado, que pirou o cabeção no fim do ano passado. Esse entusiasmo se refletiu nos preços das ações, gerando euforia entre os investidores¿, atesta a analista da Tendências.

Outro sinal ruim emitido ontem foi a decisão do governo chinês de, pela segunda vez, aumentar o percentual de recursos que os bancos são obrigados a depositar no Banco Central, o que enxuga o volume de dinheiro na praça. O objetivo é domar a inflação, que já começa a subir como resultado do crescimento do PIB de 10,7% em dezembro. As autoridades querem reduzir a expansão para 9,5%, o que pode prejudicar a recuperação nas cotações de produtos agrícolas e minérios. Isso afeta as exportações dos emergentes, como o Brasil. O valor desses itens caiu 33% em 2009 e só subiu 8% neste ano até agora.

¿A China surpreendeu porque está fazendo um aperto monetário antes do previsto¿, diz Alessandra. O BC chinês emite sinais de que vai elevar os juros, iniciativa que pode ser adiada para o ano que vem pelo Federal Reserve (Fed, o BC norte-americano). Nos EUA, a taxa básica precisa continuar entre zero e 0,25% por mais algum tempo para incentivar investimentos e consumo. Freitas Gomes reduziu a expectativa de expansão máxima nos EUA neste ano de 3% para 2% e a da Europa de 2% para 1%. O presidente norte-americano, Barack Obama, vai criar uma comissão para supervisionar os desafios fiscais de longo prazo. O objetivo é frear gastos, seguindo regra óbvia que o Brasil já tenta cumprir: para se aprovar um gasto tem-se que indicar como os recursos serão disponibilizados.

As coisas estão andando mais devagar do que se imaginava há alguns meses. Os dados da economia real nos Estados Unidos e na Europa estão muito anêmicos¿

Carlos Thadeu de Freitas Gomes, chefe da Divisão Econômica da Confederação Nacional do Comércio (CNC)

Grécia critica Europa por atraso

O primeiro-ministro grego, George Papandreou, culpou as discussões entre órgãos da União Europeia (UE) pelo atraso no resgate ao seu país, e prometeu acelerar o trabalho para resolver a crise fiscal que tem tumultuado a Zona do Euro. Papandreou disse que o apoio político à Grécia durante a cúpula informal de quinta-feira passada veio tarde demais na batalha com os mercados financeiros. ¿A Grécia não é uma superpotência política ou econômica para lutar sozinha.¿

A Grécia chocou os mercados ao revelar que o seu deficit orçamentário atingiria 12,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2009, volume três vezes maior do que o previsto. Os bônus e o mercado de ações gregos foram abalados por preocupações sobre uma crise de dívida. A UE ofereceu apoio político, mas nenhum plano concreto de resgate. Por isso, Papandreou classificou o apoio de ¿tímido¿. Entretanto, não deixou de cobrar ação dos próprios políticos gregos, receosos em aprovar cortes de gastos diante de manifestações populares, como a de agricultores que pararam tratores nas ruas do país: ¿Essa batalha (contra a crise) não terminou. A Grécia será a fonte de todos os males se nós não implementarmos o plano¿, avisou. ¿É o nosso dever provar pelas nossas ações que nós cumpriremos nossos compromissos.¿

Segundo ele: ¿Houve falta de coordenação entre os vários órgãos da UE ¿ a Comissão, os Estados-membros, o Banco Central ¿ e diferenças de opinião dentro desses órgãos. Tudo isso prejudicou a nossa credibilidade até mesmo dentro da União Europeia... Tudo isso não ajudou nossa posição nos mercados.¿

A Europa, que deve socorrer a Grécia, também não anda bem economicamente. A recuperação na Zona do Euro encontrou um obstáculo no quarto trimestre de 2009, quando a economia alemã estagnou-se e a Itália voltou a se retrair. O Produto Interno Bruto (PIB) da região formada por 16 países cresceu apenas 0,1% sobre os três meses imediatamente anteriores, abaixo da previsão do mercado de 0,3%. Em 2009 como um todo, a economia caiu 4%. ¿Embora não esperemos que a Zona do Euro volte à recessão, a estagnação ressalta o fato de que a região ainda enfrenta condições econômicas e financeiras desafiadoras¿, disse Howard Archer, do IHS Global Insight.

Essa batalha não terminou ... A Grécia será a fonte de todos os males se nós não implementarmos o plano

George Papandreou, primeiro-ministro grego, sobre o plano de redução de gastos e a possibilidade de a Grécia ser o estopim da segunda fase da atual crise mundial