Título: Para Dulci, improvisos do presidente passam sinceridade
Autor: Taciana Collet
Fonte: Valor Econômico, 07/03/2005, Política, p. A8
Responsável pela interlocução do governo com a sociedade, o ministro Luiz Dulci, da Secretaria Geral da Presidência, avalia os discursos do presidente como um instrumento eficaz de diálogo com a população e afirma que os "ruídos" na comunicação são eventuais. Há dez dias, ao discursar no Espírito Santo, o presidente provocou a ira do PSDB ao afirmar que impediu a divulgação de casos de corrupção que teriam ocorrido no governo Fernando Henrique Cardoso. Encarregado também de preparar os pronunciamentos do presidente, ele acha que a declaração, feita de improviso, é um exemplo desses "ruídos" a que se refere. "Toda autoridade pública que, pela natureza de suas funções, faz muito discursos, está sujeito a ser incompreendido, a formular questões de maneira que possa permitir mais de uma interpretação", disse o ministro em entrevista ao Valor. "A avaliação que tenho do diálogo com a sociedade é positivo. Na regra geral, os discursos são muito bons, mas, pode haver ruídos." O ministro ressaltou que o fato - que resultou em um pedido do PSDB de abertura de processo contra o presidente por crime de responsabilidade - não justifica uma mudança no comportamento do presidente, que, quase sempre, improvisa quando está em público. Dulci acha que Lula consegue um "trunfo extraordinário" ao construir o discurso no momento da solenidade e, ao fazer isso, passa uma imagem sincera para a sociedade. "Não vejo razão para que o presidente passe a adotar a regra de que agora ele vai ler sempre o texto escrito." O líder do PFL na Câmara, deputado Rodrigo Maia (RJ), já apresentou na Câmara um requerimento de informações dirigido ao ministro Dulci pedindo que revele quais foram os subsídios utilizados no polêmico discurso. O ministro ainda não havia recebido o pedido e não quis antecipar sua resposta, mas, durante a entrevista, repetiu o que já disse o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos: "O presidente declarou justamente que não quis partidarizar nem politizar artificialmente a questão do BNDES em defesa da governabilidade do país. Falando de improviso, ele pode ser mal interpretado, mas o conteúdo da conduta do presidente não está errado." Como exemplo de discurso "esplêndido" e feito totalmente de improviso, Dulci cita o feito na abertura do congresso dos trabalhadores rurais da Contag na semana passada quando o presidente empolgou-se: "Pela primeira vez o Brasil não tem um presidente, mas um companheiro na Presidência da República." Dulci reforça: "Se o presidente tivesse lido o discurso ali teria frustrado as expectativas e ferido a praxe. O presidente não improvisa no sentido de inventar, ele sempre está preparado para falar e domina as situações." O ministro reitera que o presidente discursa como se estivesse debatendo sobre a forma de governar com a população, mas rejeita a avaliação de que os pronunciamentos de Lula têm como alvo principal os movimentos sociais ou um eleitorado mais pobre. "O discurso do presidente vale para todos os segmentos." Dulci destaca que o diálogo aberto do presidente com os movimentos sociais já produziu resultados importantes para o país. "Os movimentos sociais foram decisivos para a retomada do crescimento econômico. As propostas que eles apresentaram através desse diálogo foram transformadas em políticas públicas e foram tão importantes quanto as apresentadas pelas entidades empresariais." O ministro exemplifica: foi idéia da Central Única dos Trabalhadores (CUT) as operações de crédito com desconto em folha de pagamento, que até dezembro, injetaram R$ 12,8 bilhões na economia e já representam 10% do total das operações de pessoa física. Outra reivindicação dos movimentos sociais que virou realidade, aponta o ministro, foi o crédito para a agricultura , o Pronaf, que este ano tem R$ 7 bilhões. "Foi uma proposta dos trabalhadores rurais através do Conselho de Segurança Alimentar (Consea)", salientou. "Os movimentos sociais não apenas fazem reivindicações mas estão preparados tecnicamente para oferecer propostas." Dulci cita também o microcrédito - uma reivindicação dos movimentos sindicais. Foram contratados de março a dezembro do ano passado R$ 1,3 bilhão em microcrédito. Desde que assumiu o governo, o presidente já recebeu, em audiências ou reuniões de trabalho, 295 entidades da sociedade civil - de trabalhadores a empresários. Na Secretaria Geral da Presidência, Dulci conta 1.243 reuniões com entidades. "Os governos anteriores já recebiam as entidades da elite econômica, o que mantivemos, mas abrimos canal de comunicação com os movimentos populares que também querem opinar sobre o rumo geral do país", afirma. Questionado sobre as críticas de setores dos movimentos sociais que afirmam que o PT se afastou de sua base, ele rebate: o governo nunca se negou ao diálogo e que as críticas são vistas como informação qualificada. De estilo discreto, Dulci explica que trabalha sempre nos bastidores e que nem tudo o que ele faz é para ser fato político. "Como faço a ponte com a sociedade, a sociedade é quem deve falar. Não cabe ao governo ser porta-voz das entidades. O risco existe, mas tenho um empenho religioso por evitar isso", comenta ele. "No diálogo, o governo dá autonomia às entidades, o governo não pode cooptar os movimentos. Ninguém no Brasil poderá dizer que cooptamos os movimentos sociais.", conclui o ministro.