Título: Lula pede trégua no Senado para retomada da pauta de votações
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Fonte: Valor Econômico, 19/03/2009, Política, p. A16

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ordenou a seus aliados do Senado que parem de brigar e passem a trabalhar. Na noite de ontem, lideranças dos três principais partidos da base governista na Casa - PTB, PT e PMDB - somados ao ministro da coordenação política, José Múcio Monteiro, o chefe do gabinete pessoal do presidente, Gilberto Carvalho e dois outros assessores próximos de Lula, reuniram-se em local neutro para tentar acabar com o clima de guerra na Casa. "Esta situação tem data para terminar", confirmou ao Valor uma liderança governista.

Preocupa o presidente a paralisia do Senado em um momento grave da economia nacional. Pressionado pela queda do Produto Interno Bruto (PIB) no quarto trimestre e ansioso por aprovar projetos que ajudem o país a atravessar este momento de crise, Lula está incomodado com a batalha política envolvendo os dois maiores partidos da Casa, o PT e o PMDB.

Desde que José Sarney (PMDB -AP) foi eleito presidente do Senado, no dia 2 de fevereiro, nada foi votado na Casa. "Esta briga tem que parar. Está em jogo o emprego de milhares de brasileiros e a base não pode permanecer desunida", defendeu um aliado.

Apesar do pedido de trégua, as desconfianças mútuas permanecem. Aliados de Sarney culpam o PT, especialmente o seu líder, Aloizio Mercadante (SP), e o senador Tião Viana (PT-AC), pelo clima de disputa que permaneceu após a eleição para a presidência do Senado, em que Sarney derrotou o PT. Já os petistas acusam os pemedebistas de formarem uma tropa de choque para "atropelar" os derrotados na disputa para a presidência da Casa.

As denúncias de desmandos e irregularidades no Senado não param, e pemedebistas têm atribuído ao PT da Casa interesse na alimentação do clima de suspeição.

As iniciativas do presidente do Senado, no entanto, mostram que as distorções chegaram mesmo a um ponto limite. Ontem, José Sarney assinou protocolo de intenções com a Fundação Getúlio Vargas (FGV) para a elaboração de diagnóstico e propostas para a realização de uma "reestruturação profunda" na Casa, que começará com uma auditoria administrativa para diagnosticar os principais problemas.

Sarney disse que, antes mesmo da conclusão do trabalho pela FGV, que pretende cortar cerca de 50% dos atuais 181 cargos de direção do Senado. O grande número de diretorias surpreendeu os próprios senadores e causou novo desgaste à Casa. Sarney disse que desconhecia o excesso de cargos. A quantidade foi revelada na véspera, quando o presidente do Senado determinou que todos os ocupantes desses cargos colocassem os cargos à disposição. A permanência ou não dos atuais ocupantes dos postos de chefia que forem mantidos será decidida a partir de uma avaliação "por mérito" desses servidores.

A iniciativa de Sarney - assinatura do convênio com a FGV e o corte dos cargos de direção - foi tomada em reação à onda de denúncias contra o Senado, que têm paralisado as atividades legislativas e causado constrangimentos aos senadores desde o início da gestão do pemedebista, em 2 de fevereiro.

Na entrevista que concedeu para explicar as medidas que pretende tomar, Sarney negou-se a comentar casos específicos denunciados pela imprensa e fez uma espécie de desabafo. "Vocês têm que compreender que para mim não é fácil, na minha idade, com minha vida", disse.