Título: Chineses e indianos comerciam como nunca e brigam como sempre
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Fonte: Valor Econômico, 20/03/2009, Internacional, p. A11

Rusgas sobre brinquedos, pneus e minério de ferro estão alimentando tensões entre China e Índia, enquanto os dois gigantes asiáticos tentam invadir o mercado interno um do outro para suavizar o impacto da crise econômica mundial.

Os exportadores chineses cobiçam a Índia para ajudar a compensar a queda da demanda nos Estados Unidos. Mas a Índia acusa as empresas chinesas de empurrar para o seu mercado os produtos que não conseguem vender, e chegou a abrir queixa por dumping na Organização Mundial do Comércio. As disputas comerciais vêm dificultando os esforços para melhorar as espinhosas relações entre os dois países.

"Sempre dissemos que o mundo é grande o suficiente para Índia e China, mas temos um problema com a súbita expansão de exportações que prejudicam a indústria indiana", disse o secretário do Comércio indiano, Gopal K. Pillai, em entrevista ao "Wall Street Journal". "É motivo de preocupação."

Autoridades dos ministérios do Comércio da Índia e da China se reuniram ontem em Nova Déli para tentar um consenso. Os dois governos concordaram em criar um grupo de trabalho que se reunirá periodicamente para discutir questões comerciais antes de elas chegarem à OMC. Zhong Shan, vice-ministro de Comércio Exterior da China, disse que Pequim não pretende retaliar contra a Índia, mas não descarta realizar alguma futura ação perante a OMC.

"Acredito que os dois países podem dialogar para resolver seus problemas", disse Zhong a jornalistas. "As duas economias podem se desvencilhar juntas das sombras da atual crise."

Os dois países já acenaram muitas vezes com o potencial de unir forças. Seu peso econômico cada vez maior e status de países em desenvolvimento podem transformá-los em aliados para estabelecer preços de recursos naturais, parceiros em fóruns comerciais e grandes consumidores dos produtos um do outro, dizem autoridades dos dois países.

A China é o maior parceiro comercial da Índia. O comércio bilateral subiu 34% em 2008, para US$ 51,78 bilhões, segundo estatísticas do governo chinês.

Embora o comércio tenha florescido, as tensões não chegaram a diminuir muito - e podem estar até piorando. Disputas recentes revelam como os tempos de vacas magras pioraram a rivalidade econômica.

Este ano, a Índia já bloqueou as importações de brinquedos chineses por questões de segurança, antes de relaxar a medida para certos produtos. Quarta-feira, a China citou o bloqueio indiano das importações de brinquedos durante um debate na OMC sobre barreiras técnicas ao comércio. A Índia tem uma dezena de queixas antidumping contra a China pendentes na OMC, incluindo investigações sobre altas súbitas nas exportações chinesas de pneus de caminhão e químicos industriais.

As disputas refletem, em parte, os conflitos de gigantes econômicos num momento de desaceleração mundial. A Índia aparenta estar mais relutante do que a China para abrir os setores locais que não enfrentam muita concorrência estrangeira, segundo Pranab K. Bardhan, economista da Universidade da Califórnia em Berkeley, EUA, que estuda as economias dos dois países. "A Índia é um dos países menos globalizados do mundo."

A China, em comparação, tem mais de um terço da produção econômica ligada à exportação, e o declínio foi muito mais substancial. As exportações chinesas caíram 26% em fevereiro em relação ao ano passado. O Fundo Monetário Internacional prevê que a economia chinesa crescerá 6,7% este ano, ante os 9% registrados em 2008. A previsão para a Índia é de 5,1%, ante 7,3% do ano passado.

Enquanto as exportações chinesas desaquecem e as fábricas começam a demitir, Pequim é cada vez mais pressionada a combater os sinais de protecionismo no exterior. A Índia pode não gerar a mesma demanda que os EUA, mas suas barreiras para um grande mercado em crescimento são motivo de preocupação, diz Wen Fude, do Instituto de Estudos do Sul da Ásia da Universidade Sichuan.

"A maioria desses conflitos comerciais criados pela Índia contra a China são exagerados", diz ele.

As autoridades indianas retrucam que embora a China defenda o livre comércio, pratica algo completamente diferente. Pillai, o secretário do Comércio, diz que Pequim subsidia os exportadores, obstrui as importações agrícolas indianas e apoia empresas chinesas que se aproveitam de indústrias indianas vulneráveis.

"O problema fundamental é que a China não é uma economia de mercado", diz ele. Uma placa no Ministério do Comércio estabelece uma clara distinção perante o vizinho. "Índia: A Democracia de Livre Mercado com Crescimento Mais Rápido do Mundo", afirma.

Mesmo em áreas do comércio que se complementam surgiram problemas recentemente. Tradings indianas reclamaram recentemente que as siderúrgicas chinesas cancelaram os pedidos de minério de ferro indiano depois de reduzir a produção, causando altos prejuízos.

Há quem acredite no potencial de Índia e China resolverem suas diferenças se começarem a fazer mais negócios juntas. Tendo passado por seu próprio boom de infraestrutura, a China poderia ajudar a Índia em suas construções de estradas, pontes e aeroportos, segundo Anil Gupta, professor da Universidade de Maryland, EUA, e co-autor do livro "Getting China and India Right" ("Compreendendo a Índia e a China", sem tradução para o português).

As empresas chinesas poderiam fornecer à Índia equipamentos e expertise de construção civil mais em conta, enquanto os parceiros indianos poderiam levantar recursos para projetos e também contornar a burocracia do país.

Executivos chineses que fazem negócio na Índia reclamam que ainda há muita desconfiança. Os dois países foram à guerra em 1962 por questões de fronteira e a Índia foi derrotada, então parte da demarcação territorial entre os dois países ainda é contestada. Os investimentos chineses também têm sido submetidos a rigorosas revisões de segurança; obter visto de trabalho tem sido um problema para alguns executivos.

"Há tantos chineses querendo vir para a Índia, mas aí eles descobrem como é difícil fazer negócio", diz Andy Wang, executivo chinês que trabalhou vários anos em Nova Déli. "Se isso continuar, a Índia atrairá menos interesse e investimentos."

Pillai disse que, de 38 propostas chinesas, apenas duas foram rejeitadas por questões de segurança; milhares de chineses trabalham na Índia sem problemas de visto, acrescenta.

Os dois países ainda estão longe de forjar a ampla aliança econômica com que sonham algumas autoridades. Apesar de os dois países terem conflitos com os EUA na Rodada Doha por questões agrícolas, continuam a concorrer furiosamente entre si - por mercados de exportação, ativos energéticos e projetos para investir. "A cooperação não tem dado certo", diz Pillai.