Título: CNI vê atividade estável, sem retomada
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Fonte: Valor Econômico, 18/03/2009, Brasil, p. A2
Empresários da indústria detectaram uma acomodação da atividade do setor neste primeiro trimestre, após a forte retração nos últimos três meses de 2008, mas ainda não veem sinais de recuperação. "Há um processo de relativa estabilização, ou seja, interrompemos aquela queda livre que vinha acontecendo, mas não há nada que nos indique recuperação", diz Armando Monteiro Neto, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Segundo o executivo, a entidade está revendo as estimativas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para algo em torno de 0,5% em 2009, e as previsões para a evolução do faturamento da indústria estão próximas de zero. No fim de 2008, a CNI previa crescimento do PIB de 1,5% a 2%. "Só a construção civil está com perspectiva melhor para este ano", diz ele. Os segmentos de transformação e de extrativa mineral podem ter resultados negativos. O executivo lembra, no entanto, que mesmo dentro do grupo de transformação, o impacto não é uniforme, e existem áreas, como alimentos, ainda com bom nível de atividade.
A expectativa, segundo Monteiro Neto, é que no segundo trimestre haja algum crescimento, mesmo que "modesto", sobre o primeiro, o que permitiria visualizar um cenário melhor para o ano. "Temos de ter uma atitude realista, mas também confiança em um quadro melhor no segundo semestre."
As condições para que isso ocorra dependem, segundo Monteiro Neto, da recuperação do crédito para as pequenas e médias empresas, algo que, para ele, se mantém curto e caro. O executivo esteve reunido ontem em São Paulo com associações setoriais e federações estaduais da indústria no Fórum Nacional do setor, um órgão consultivo da diretoria da CNI. Os empresários discutiram as implicações da crise financeira na atividade industrial, e elegeram a questão do crédito como a mais urgente a ser solucionada. "A ações principais dos governos devem ser para melhorar as condições de financiamento. O maior problema da economia brasileira hoje é crédito", diz o presidente da CNI.
Os empresários reclamam que linhas de crédito abertas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para incentivo à indústria, como a voltada para capital de giro, não estão sendo bem operacionalizadas, e acabam não chegando às companhias. "As medidas pontuais do governo não estão surtindo o efeito necessário", diz Monteiro Neto.
Segundo ele, para permitir que as empresas tenham acesso aos recursos, será necessário criar incentivos aos bancos que se comprometerem a repassar as linhas de crédito oferecidas pelas instituições financeiras públicas. "Os bancos não aplicam as linhas do BNDES porque não querem assumir riscos."
Outras questões levantadas pelos empresários na reunião estão ligadas à capacidade dos governos investirem, considerando que a arrecadação este ano deve ser afetada pelo baixo crescimento da economia. Além disso, há a preocupação em relação à burocracia, que trava os investimentos públicos. "Nós temos a todo momento informações de que as obras do PAC não estão tendo desenvolvimento necessário e precisamos cobrar para que novos programas que terão impactos importantes, como o de habitação, aconteçam num prazo mais curto", diz Monteiro Neto.
Para os investimentos privados, a pauta continua ligada - além do crédito - à reivindicação de redução de tributos. "O Brasil ainda é um país que tributa os investimentos, e hoje mais do que nunca é necessário sustentar um nível de investimento", diz o presidente da CNI. Quanto à retomada da demanda por produtos, ele admite que o Brasil dependerá muito da recuperação da economia externa. "Todo mundo já sabe que a crise é muito forte, e lamentavelmente lá fora a crise não deu sinais de que está arrefecendo."