Título: Brown quer linha de US$ 100 bi para comércio
Autor: Lyra, Paulo de Tarso
Fonte: Valor Econômico, 27/03/2009, Brasil, p. A6
O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, anunciou ontem a intenção de criar uma linha de crédito no valor de US$ 110 bilhões para estimular o comércio entre os países. O anúncio foi feito durante entrevista coletiva ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio da Alvorada, em Brasília. Segundo Brown, a crise econômica cortou as linhas de crédito internacional e é importante que as fontes de financiamento sejam retomadas. "Sem crédito, a economia vai atrofiar", concordou Lula.
Esta será uma das propostas a serem levadas pela Grã-Bretanha para a reunião do G-20, marcada para o próximo dia 2, em Londres. A proposta de criação de uma linha de crédito para financiamento internacional também foi defendida pelo governo brasileiro. Segundo o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, o Brasil precisa analisar de quanto será a contribuição do país e os mecanismo pelo qual ela será feita. "O ministro Mantega (Guido Mantega, da Fazenda) deixou claro que a contribuição não pode afetar as reservas brasileiras", lembrou.
Outra sugestão que será levada pelos dois governantes é a intensificação da campanha contra o protecionismo. Brown defendeu que "seja dado nomes aos bois dos países que praticam protecionismo, incluindo a apresentação de representações contra eles na Organização Mundial do Comércio (OMC)".
Lula afirmou que até entende que os governantes pensem primeiro em seus países em um momento de crise. Mas comparou o protecionismo a uma droga. "As duas provocam uma euforia no começo, mas é passageira. Depois vem a depressão. E no caso da economia, isto significa mais recessão, mais desemprego e mais instabilidade", acrescentou Lula.
O presidente brasileiro definiu o encontro do G-20 na próxima semana como um "encontro político". Disse esperar que os técnicos ajudem os governantes a tomarem as decisões corretas, mas que chegou o momento de os líderes mundiais se posicionarem diante da crise. "Será o momento das grandes decisões políticas", declarou.
Brown lembrou que, pela primeira vez em 30 anos, haverá uma retração no nível comercial mundial. Citou números como a queda de 24% da balança comercial chinesa, de 21% na Alemanha e de mais de 40% no Japão. "O Consenso de Washington morreu, precisamos estabelecer uma nova arquitetura financeira internacional".
Os dois governantes tiveram posições divergentes em relação ao pacote de US$ 1 trilhão anunciado esta semana pelo presidente americano Barack Obama. O objetivo é limpar o mercado dos chamados ativos tóxicos, mas alguns analistas teriam achado que esta era uma maneira tangencial de se evitar a discussão sobre a regulação dos mercados. "Eu acho saudável que o governo americano apresente um plano para lidar com os ativos tóxicos uma semana antes da reunião do G-20. De qualquer maneira, Obama prometeu uma outra ação para promover a regulação dos bancos e dos mercados", justificou o primeiro-ministro britânico.
Lula foi bem mais reticente. Disse que as diversas crises enfrentadas pelo Brasil fizeram com que os "ativos tóxicos fossem chamados por aqui de títulos podres". Buscou ser cauteloso, ao declarar que "não comenta decisões soberanas tomadas por governantes de outros países". Mas completou: "Eu acho que se a compra desses títulos significasse que esse US$ 1 trilhão iria voltar para a economia e financiar o comércio externo e interno, seria ótimo. Não sei se virá".
Lula ainda teve que enfrentar constrangimento diante da pergunta de um jornalista inglês. Durante o discurso, o presidente brasileiro repetiu a tese de que a crise foi gerada pelas nações do primeiro mundo, por "banqueiros louros e de olhos azuis", e que não é justo que ela venha prejudicar os negros e os índios e os imigrantes, que cruzam o mundo em busca de oportunidades de trabalho e renda. O jornalista indagou se por trás desta informação não estava um viés ideológico. "Não existe nenhum viés ideológico. Existe a constatação de um fato. Um fato que as fotografias dos jornais mostram todos os dias, que a televisão mostra todos os dias. Como eu não conheço nenhum banqueiro negro ou índio, eu só posso dizer que não é possível que essa parte da humanidade, que é a mais, eu diria, vítima do mundo, pague por uma crise. Não é possível".