Título: CPI aprova convocação de Dantas e De Sanctis
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 27/03/2009, Política, p. A11

A CPI das Escutas Clandestinas da Câmara aprovou ontem requerimentos de convocação para que o banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity, e o juiz Fausto De Sanctis, da 6ª Vara Federal Criminal de São Paulo, prestem depoimentos à comissão. Os deputados querem explicações do juiz sobre a sua decisão de negar à CPI o compartilhamento de dados da Operação Satiagraha.

Em ofício encaminhado à comissão, De Sanctis recusou o pedido de compartilhamento de informações da Satiagraha, feito pela CPI. No início da semana, integrantes da comissão estiveram em São Paulo para solicitar a quebra do sigilo da investigação e o repasse do conteúdo de escutas clandestinas. Na ocasião, De Sanctis disse que não repassaria os dados sigilosos.

A atitude de De Sanctis irritou parlamentares da comissão. O deputado Raul Jungmann (PPS-PE) ingressou com requerimento para a sua convocação depois da negativa do juiz. O presidente da CPI, deputado Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), considerou "oportuna" a convocação, uma vez que o juiz se recusou a colaborar formalmente com as investigações - na interpretação dos integrantes da CPI.

Em relação a Dantas, a comissão quer explicações sobre o seu suposto envolvimento em escutas telefônicas clandestinas. Itagiba disse nesta quarta-feira que a comissão já tem elementos para sugerir o indiciamento do banqueiro ao final das investigações, assim como do delegado Protógenes Queiroz, que comandou o início da Satiagraha. "Esta comissão também vê a necessidade de indiciamento do banqueiro Daniel Dantas. O delegado Protógenes, no meu entender, faltou com a verdade a esta CPI, por isso incorreu em falso testemunho´´, afirmou Itagiba.

Ao prestar depoimento na CPI no ano passado, Dantas disse que nunca teve acesso aos relatórios da agência Kroll, contratada pela Brasil Telecom, à época sob seu controle, e acusada pela Polícia Federal de investigar integrantes do governo federal.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou solenidade ontem de comemoração pelos 65 anos da Polícia Federal para fazer uma crítica indireta ao delegado Protógenes Queiroz e outros servidores públicos que usam muito a mídia. Lula disse que existem pessoas que "acham que vão ficar importantes aparecendo nas capas de jornais, fazendo pirotecnias ou dando entrevistas para rádio e televisão". Diante do diretor-geral da PF, Luiz Fernando Correa, e do ministro da Justiça, Tarso Genro, Lula foi claro: "Nem o Ministério da Justiça, nem a Polícia Federal nem o Ministério Público precisam disto. O que precisam é agir com serenidade", afirmou o presidente.

Lula disse que os policiais devem deixar para os políticos exercerem o papel de fascinados pela mídia. "Político quando abre a geladeira de manhã para pegar água começa a dar entrevista porque acha que aquela é uma luz de televisão. Depois vai fazer a barba e confunde o barbeador com microfone", acrescentou Lula, provocando risos na plateia. "A melhor forma de vocês serem vistos pelo público é serem olhados pelos outros como justos. Quando agirem assim, serão mais respeitados, tanto individualmente como institucionalmente".

As operações da Polícia Federal durante o governo Lula sempre foram questionadas, algumas vezes na Justiça. Após a deflagração da Operação Satiagraha, no ano passado, conduzida por Protógenes, que usou funcionários e a estrutura da Abin e grampeou até o assessor mais próximo ao presidente Lula, Gilberto Carvalho, seu chefe de gabinete, e que levou à prisão do banqueiro Daniel Dantas, as críticas aumentaram. O presidente do Supremo Tribuna Federal, ministro Gilmar Mendes, concedeu dois habeas corpus para Dantas, abriu uma guerra com a PF, a Justiça e o Ministério Público e afirmou que existe um "Estado policialesco no Brasil".(Com agências noticiosas, colaborou Paulo de Tarso Lyra, de Brasília)