Título: Exportação acentua queda da produção industrial
Autor: Lamucci , Sergio
Fonte: Valor Econômico, 02/04/2009, Brasil, p. A3

No primeiro bimestre do ano, o volume exportado de manufaturados caiu muito mais intensamente do que a produção industrial. No acumulado de janeiro e fevereiro, a indústria brasileira produziu 17% menos que em igual período do ano passado, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) enquanto o embarque de produtos ao exterior caiu 34,7%.

Na média, a indústria exporta 20% do que produz, mas em alguns setores o peso do mercado externo é mais expressivo. Por isso, o impacto da recessão global acentuou, de forma distinta entre os setores, o efeito da contração do mercado interno neste início de ano. Para muitos analistas, quanto mais exportadora, maior será o tombo setorial da indústria ao longo deste ano.

No primeiro bimestre, o volume exportado de veículos automotores caiu 56,2% em relação ao mesmo período do ano passado. Nesse intervalo, a produção do segmento caiu 32%. Entre 2006 e 2008, o segmento destinou ao exterior 20,4% do que fabricou, segundo cálculos da LCA Consultores. As perspectivas são um pouco mais animadoras para os setores que dependem mais da massa de rendimentos (salários e benefícios previdenciários e assistenciais), como alimentos e bebidas e perfumaria, sabões, detergentes e limpeza. No entanto, como as condições de emprego e renda devem piorar ao longo do ano, esses segmentos também podem perder fôlego nos próximos meses.

O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, chama a atenção para a magnitude do recuo das exportações, um movimento disseminado pela indústria - embora diferenciado. As quantidades exportadas de manufaturados caíram 34,7% no primeiro bimestre, de acordo com número da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex). "Mesmo que a fatia exportada seja relativamente pequena, um tombo muito forte, na casa de 40% a 50%, faz estragos consideráveis", diz Vale.

"O colapso do comércio internacional tem afetado especialmente as exportações industriais", reforça o economista-chefe do Santander, Alexandre Schwartsman, observando que as vendas de veículos para México e Argentina recuam com força. Na sexta-feira, a Ford anunciou um programa de demissão voluntária para os empregados das fábricas de Camaçari, Taubaté e São Bernardo do Campo, alegando que os ajustes são necessários pelo recuo das exportações.

No primeiro trimestre, o setor se amparou na redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de veículos, o que deu alento às vendas no mercado interno, apesar da importância do crédito. Segundo cálculos da LCA, o licenciamento de veículos e comerciais leves em março ficou em 11,9 mil unidades por dia, o que dá, feito o ajuste sazonal, 5,3% acima dos 11,3 mil registrados em setembro de 2008, quando os efeitos da crise ainda não haviam sido sentidos plenamente sobre a economia.

Para o economista-chefe da LCA, Bráulio Borges, a prorrogação da redução do IPI até junho pode manter o fôlego do setor. A economista-chefe da Rosenberg & Associados, Thaís Marzola Zara, é mais cética, por acreditar que muitos consumidores já anteciparam as compras entre janeiro e março. Com isso, não seria possível manter o ritmo do primeiro trimestre.

O mergulho das vendas externas também afeta os fabricantes de produtos intermediários (insumos para a indústria), como o de metalurgia básica, onde estão as empresas de siderurgia. Em janeiro e fevereiro, caiu 31% o volume exportado do setor, que destinou 35,6% da produção para o mercado externo na média de 2006 a 2008. A fabricação de metalurgia básica caiu 31,6% no primeiro bimestre. No caso de aços planos, a queda chegou 55,5%, segundo números do Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS).

Um setor menos exportador, como o têxtil - que destina algo como 13% da produção ao exterior - viu a a produção recuar 12,5% no acumulado neste ano. No período, as exportações caíram 27,7%. Já o de vestuário e calçados, que exporta pouco mais de 2% da sua fabricação, viu a produção recuar 17,9% no primeiro bimestre, período em que as vendas externas tiveram baixa de 41,1%.

A demanda interna também vai mal, como observa Thaís. Segundo os seus cálculos, da queda de 16,9% da indústria de transformação em fevereiro sobre o mesmo mês de 2008, 16,3 pontos percentuais vieram da demanda doméstica e 3,6 pontos, do setor externo. Para piorar, muitos segmentos, como o de siderurgia, estavam com estoques elevados, lembra ela.

Vale ressalta também o impacto negativo sobre a produção de alguns setores causado pela retração do investimento, o componente da demanda que mais sofreu com a crise internacional. Em janeiro e fevereiro, por exemplo, a produção de bens de capital caiu 19,5%. É mais um caso influenciado pela forte queda no mercado interno e no externo, diz Vale.

A quantidade exportada de bens de capital recuou 40% no primeiro bimestre, segundo a Funcex. A queda na confiança dos empresários e a expectativa de baixo crescimento da economia levam alguns analistas a prever neste ano queda superior a dois dígitos para o investimento na construção civil e em máquinas e equipamentos. Em 2008, houve crescimento de 13,8%.

Setores que dependem do crédito também têm perspectivas bastante desfavoráveis, diz Schwartsman. Com a crise, há mais cautela por parte de quem concede empréstimos e financiamento, pelo aumento do risco. A queda na confiança e a perspectiva de deterioração no mercado de trabalho também faz o potencial tomador de crédito ficar mais cuidadoso. Em fevereiro, as novas concessões de empréstimos e financiamentos para as empresas encolheram 9,5% em relação a fevereiro do ano passado. Para a pessoa física, a baixa foi de 5,1%.

A piora nas condições de crédito afeta especialmente os setores de bens duráveis, como o de eletroeletrônicos. Em janeiro e fevereiro, a produção de material eletrônico, aparelhos e equipamento de comunicações caiu 45,1% na comparação com o mesmo período de 2008. As exportações também atrapalharam bastante o setor, recuando 39,7% no mesmo período de comparação. Entre 2006 e 2008, as empresas do setor exportaram 39,5% do que produziram.