Título: G-20 traz otimismo e Brasil promete medidas
Autor: Moreira , Assis
Fonte: Valor Econômico, 03/04/2009, Internacional, p. A12
Embalado pelas decisões do G-20, que animaram os mercados ontem, o governo brasileiro diz que novas medidas fiscais estão a caminho para encurtar a crise e estimular a retomada do crescimento. O país manterá uma "política fiscal forte", com novas medidas de redução de tributos e outros estímulos.
"Quero ser o Cassius Clay dessa crise e dar um nocaute nela", afirmou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ilustrando com a referência a um dos maiores boxeadores da história americana a determinação brasileira de não deixar a economia estagnada.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que uma das diretrizes aprovadas no G-20 foi que os "os países continuarão todos com estímulos fiscais importantes. Além da ação internacional combinada, cada pais continuará fazendo política fiscal forte e o Brasil também".
Lembrou que em Brasília, a cada semana, "estamos apresentando novas medidas para estimular a economia" e que isso continuará. "O Brasil está fazendo uma política anti-crise de modo a estimular mais rapidamente a recuperação."
Como antecipado pela imprensa brasileira, os líderes do G-20, reunindo 85% do PIB mundial, aprovaram ontem um pacote adicional de US$ 1,1 trilhão para restaurar o crédito, crescimento e empregos na economia mundial.
Agindo juntos, os países do G-20 dizem esperar tirar a economia global da maior recessão dos últimos tempos e prevenir novas crises como a atual. O grupo se diz confiante de que as ações acertadas pelos líderes, ontem em Londres, conduzam a um crescimento global acima de 2% ao final de 2010, comparado a contração de mais de 2% prevista este ano por diferentes instituições internacionais.
Segundo o G-20, o plano global é sem precedentes, representando até o final do próximo ano representará US$ 5 trilhões, aumentando a produção em 4%. Além de estímulo fiscal, o grupo das maiores nações desenvolvidas e emergentes promete manter ações "excepcionais" dos bancos centrais de redução das taxas de juros pelo tempo que for necessário, utilizando inclusive instrumentos "não convencionais".
"Todos nós nos tornamos pós-keinesianos, e Keynes ficaria espantado com o tamanho das intervenções que estão sendo feitas", disse o ministro Mantega. Ele destacou que, além dos recursos adicionais de US$ 750 bilhões para o FMI, visando restabelecer parte do crédito, novas regras vão vigorar. "Política econômica é decidida no G-20, e não mais no FMI, essa é uma grande mudanças da instituições e do cenário", disse.
O presidente Lula considerou que a ação do G-20 terá um impacto "importante" também no Brasil. Mas logo depois deixou claro que o governo aposta mesmo é nos investimentos internos já decididos que, segundo ele, somam R$ 350 bilhões até 2012.
"Essa reunião foi muito importante na história do mundo", afirmou Lula, acrescentando que em seis anos como presidente foi sua primeira reunião com chefes de Estado com tal impacto "na história da humanidade, se os países não se apequenarem".
Mas o próprio Lula não escondia os limites da ação do grupo, ontem em Londres. "O crédito desapareceu no mundo. Tomamos medidas aqui para restabelece-lo. Houve sinal extremamente importante. Outra coisa é se vamos ter competência para transformar em políticas ativas."
O G-20 confirmou o retorno forte do Estado. "O mercado não é o senhor da razão, porque quando aperta, o que sobra é o Estado como salvador", disse Lula.
Como sempre, muita coisa ficou ainda pouco esclarecida. O aperto na regulamentação do sistema financeiro internacional será detalhado em negociações de ministros de Finanças. O próprio G-20 dos líderes deve voltar a se reunir provavelmente em Nova York, em setembro, à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas. Lula pediu para cada país mostrar como está "fazendo o dever de casa".
O Brasil foi confrontado no G-20 também sobre a contribuição que deverá fazer ao FMI nessa fase de emergência, para restabelecimento dos fluxos de financiamento. A China anunciou ajuda de US$ 40 bilhões, o Canadá de US$ 10 bilhões, a Noruega de US$ 4,7 bilhões, o Japão de US$ 100 bilhões, a União Europeia também de US$ 100 bilhões e os americanos pretendem fazer o mesmo.
O Brasil estuda comprar bonus do FMI, ajudando assim ao mesmo tempo em que não reduz as reservas internacionais, e sim as diversifica. Mas quer condicionar a concessão do dinheiro a países pobres mais necessitados.
"Eu gostaria de passar para a história como um presidente que emprestou alguns centavos ao FMI", ironizou Lula, lembrando seus tempos de ataque à instituição que então ditava lições ao Brasil em tempos de crise.
O governo brasileiro tratou também de reiterar a importância do G-20 como novo diretório global da economia.