Título: Miro elogia Severino e defende aproximação com o PSDB e o PFL
Autor: Janaina Vilella
Fonte: Valor Econômico, 08/03/2005, Política, p. A8
Recém-chegado ao PT, o deputado federal Miro Teixeira fez uma boa avaliação da atuação de Severino Cavalcanti (PP-PE) à frente da Câmara dos Deputados. Segundo ele, nas últimas três semanas, o parlamentar priorizou projetos de interesse da bancada das mulheres, votou propostas de iniciativa parlamentar, além de ter comandado uma sessão, em plena quinta-feira, o que, segundo Miro, "não se via há tempos", em Brasília. Em entrevista ao Valor, o ex-ministro das Comunicações afirmou que já imaginava que a proposta de reajuste dos salários dos parlamentares não chegaria a ser votada em plenário, tamanha a reação de alguns deputados ao projeto. Miro disse ainda ser contra a polêmica proposta de Severino de prorrogar mandatos. "Se houver prorrogação, eu protocolo minha renúncia", afirmou. O deputado contou que começou a costurar sua ida para o PT quando era ministro das Comunicações. E justificou sua saída do PPS, alegando motivos pessoais. Deixou claro, no entanto, que não gostaria de passar mais uma vez pela "aflição" das últimas eleições presidenciais, em 2002, quando só conseguiu apoiar o então candidato, Luiz Inácio Lula da Silva, no segundo turno, porque seu partido, na época, lançou candidatura própria no primeiro turno. A seguir, a entrevista dada por Miro. Valor: Como o senhor avalia a correlação de forças na Câmara depois da vitória de Severino Cavalcanti? Miro Teixeira: Eleição reflete a vontade do eleitor. A vitória de Severino é uma vitória política, ela não deve ser subestimada. Qualquer análise em sentido contrário está errada. Não foram 300 votos no Severino em troca da promessa de salários ou de carro oficial. Isso foi política. Foi uma união de forças que perderam para o Lula, no segundo turno, em 2002. O PSDB não votou no Severino por causa de aumento de salário ou por causa de carro oficial, votou como ato de oposição. O Severino tem que ser respeitado. Nós podemos concordar ou não com a sua trajetória política, mas ele hoje é presidente da Câmara e tem que ser respeitado. Os atos do Severino, como presidente da Câmara, é que precisam ser analisados. E a primeira semana dele foi ótima, saiba disso. A exceção foi a questão de aumento de salário dos deputados. Porém, você teve, pela primeira vez na Câmara, funcionamento no mês de fevereiro, antes da eleição das Comissões. Você também teve votação de projetos de iniciativa predominantemente parlamentar, ele priorizou ainda projetos de interesse da bancada das mulheres, que acabam com velhos preconceitos. Houve sessão na Câmara quinta-feira à tarde, o que não se via há muito tempo. Então, nós temos que acompanhar o Severino. Valor: Como o sr. avalia a proposta de Severino de prorrogar os mandatos? Miro: Em 2002, fui eleito para um mandato que vai de 2003 a 31 de janeiro de 2007. Se houver prorrogação de mandatos, no dia 31 de janeiro de 2007 eu protocolo a minha renúncia. Valor: Como o sr. vê esta derrota que Severino teve na questão do aumento do salário dos deputados? Miro: Não existe aberração que prospere, por isso o projeto não vai ser votado. Valor: Uma vez derrotado na Câmara, o que o PT deve fazer daqui para a frente? Miro: A primeira coisa é uma pauta de prioridades para o ano. Já elegemos o novo líder da bancada petista na Câmara (deputado Paulo Rocha). O PT tem tranqüilidade. Nós temos uma relação muito civilizada com todos os outros partidos. Valor: Como vocês estão desenhando esta pauta de prioridades? Miro: Agora, diante desse resultado da Câmara, temos que exercitar mais a capacidade de conversar com contrários, PSDB e PFL, especialmente. Sou a favor de conversar com os partidos e saber, por exemplo, quais são as prioridades que eles têm em políticas públicas. Essa tem que ser a nossa rotina. Valor: O sr. foi do PDT, em 1988, foi para o PPS, em 2004 e agora para o PT. Como foi sua entrada no PT e por que o PT? Miro: É uma discussão que nós já vínhamos travando desde que eu estava no ministério (das Comunicações). Eu só posso contar essa história por uma razão; porque o Genoino (José Genoino, presidente do PT) disse. Se ele não tivesse contado eu não poderia contar. Escolhi o primeiro dia dos trabalhos legislativos, 14 de fevereiro, para entrar no partido. Eu já tinha um entrosamento muito grande com a bancada. Nós estivemos sempre nos mesmos campos e nos mesmos palanques. Houve um reencontro, agora sob a mesma legenda. A legenda de um campo onde eu sempre estive. Eu comecei minha vida política no MDB, então o campo é o mesmo. Valor: Se o campo era o mesmo, por que então o senhor não voltou para o PDT? Miro: Até chegamos a cogitar. O PDT é um partido digno com um grande programa. Mas eu entendo ser necessário apoiar o Lula. Eu quero continuar apoiando o Lula e quero votar no Lula, em 2006. Eu não quero viver a aflição de, de repente, ter uma outra candidatura lançada pelo meu partido. Se não fosse isso, eu estaria resolvido. Parece que há grupos e, aí, não me refiro ao PDT ou exclusivamente ao PDT, que parecem ter medo ou vergonha de ser governo. Nós adquirimos o cacoete de ser oposição. Nós sabemos fazer oposição. Eu acho até, quando fico olhando lá no plenário, que falta isso ao PSDB e ao PFL. Eles não sabem fazer oposição. Eles sabem ser governo. Digo isso com bom humor para eles. Valor: O sr. está se referindo ao PPS ao dizer que alguns grupos da esquerda parecem ter medo ou vergonha de ser governo? Miro: Estou me referindo a um conjunto de personalidades. Você está falando de pessoas de bem e não de canalhas, que têm posições históricas, são relevantes, são ótimas, mas que no meu ponto de vista estão cometendo um equívoco enorme, que também será histórico. Há setores da esquerda, alguns estão até deixando o PT, que têm problemas de ser governo. Eu, ao contrário, quero ser carimbado como governo Lula e quero lutar pelas minhas idéias dentro do governo, o que não significa apoiar tudo. Valor: E quais são os erros dos setores de esquerda que têm problemas em ser governo? Miro: Eles estão errando na intransigência. Ninguém pode ser intransigente, nem na vida pessoal. A intransigência não conduz a bons caminhos. Valor: Como o sr. analisa as últimas declarações do Lula de que abafou corrupção no governo anterior? Miro: É curioso. Quem ler a íntegra do discurso do presidente Lula verificará que, em nenhum momento, ele disse que abafou corrupção no governo anterior. Pura e simplesmente não existe qualquer frase que possa levar a este tipo de interpretação. Valor: Na esfera estadual, a sua decisão de sair do PPS teve algo a ver com a possibilidade de a deputada Denise Frossard ser a candidata do partido ao governo? Miro: Eu até me surpreendi com essas coisas porque me dou muito bem com a Denise. Absolutamente. A Denise é um bom nome para tudo. Valor: O sr. seria uma opção do partido para o governo do Estado, em 2006? Miro: Zero. Você não sabe da minha disposição de voltar a minha advocacia... Valor: Alguns cientistas políticos defendem que o sr. será um grande articulador das esquerdas no Rio. Miro: Não. Venho para o partido como militante. Não venho articular nada. O PT tem grandes articuladores aqui, o Saturnino Braga, todos os deputados da bancada federal, outro que é um ótimo mobilizador, é o Wladimir Palmeira. Valor: O Wladimir será mesmo o candidato do PT ao governo do Rio? Miro: Não sei. Eu li isso que você está dizendo no jornal. Quando li, o Wladimir passou a ser o meu candidato. E tenho certeza que ele aceitará a candidatura se lhe for proposto este desafio. Valor: Existe uma polarização no Estado entre Cesar Maia e Garotinho, como fica o PT, neste meio? Miro: Não vejo o PT no meio e sim em uma das pontas. Eu acho que o Cesar Maia e o Garotinho disputarão para ver quem fica na outra ponta. Mas isso é lá no processo eleitoral. Agora nada pode nos impedir de sentar com eles e ver o que é necessário fazermos juntos pela cidade ou pelo Estado. Nada pode nos impedir.