Título: Encontro com Lula não reverte cortes na Embraer
Autor: Lyra , Paulo de Tarso
Fonte: Valor Econômico, 26/02/2009, Empresas, p. B9

O presidente da Embraer, Frederico Curado, afirmou ontem que não há como a empresa rever a demissão dos 4,2 mil trabalhadores anunciada na semana passada. Após reunião de quase três horas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, da qual participaram os ministros do Desenvolvimento, Miguel Jorge; da Casa Civil, Dilma Rousseff; e da Fazenda, Guido Mantega, além do presidente do BNDES, Luciano Coutinho, Curado culpou o mercado internacional pelo momento que a empresa atravessa. Marisa Cauduro/Valor

Curado, presidente da Embraer, apresentou números considerados sigilosos a Lula, três ministros e o presidente do BNDES

Segundo o executivo, a crise provocou uma redução de 30% nas encomendas para o período de 2009 e 2012 e a consequente diminuição de U$ 1 bilhão na expectativa de receitas da empresa para este ano, de US$ 6,5 bilhões para US$ 5,5 bilhões. "O problema não está no Brasil e sim no mercado internacional, que representa 90% do nosso faturamento", disse.

Curado confirmou que não houve qualquer negociação prévia com o governo, mas disse que a empresa não foi "inconsequente, irresponsável ou intempestiva" ao tomar a decisão das demissões. "Só poderemos rever essa situação quando o cenário melhorar a médio prazo. Trabalhamos com a hipótese de dois a três anos de crise", declarou ele.

Segundo o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, apesar da "consternação e inconformismo", Lula não pediu, em nenhum momento, que a Embraer desistisse das demissões. O único pedido foi para que a empresa fizesse algo a mais pelos demitidos. A proposta inicial da Embraer é custear as despesas médicas dos demitidos e dependentes por um ano. "Vamos estudar se é possível oferecer algo a mais", disse Curado.

O executivo afirmou ainda que em setembro de 2001 a empresa foi obrigada a demitir 15% do seu quadro de funcionários em virtude dos atentados ao World Trade Center, em Nova York, que reduziram sensivelmente as encomendas de aviões em todo o mundo. Mas dois anos depois os trabalhadores foram recontratados. "Não podemos dizer hoje se, quando o cenário melhorar, chamaremos os mesmos trabalhadores. Os profissionais da Embraer têm a característica de serem bem qualificados, o que facilita um processo de recolocação profissional", declarou ele.

Curado disse que a conversa com o presidente Lula serviu para dar explicações detalhadas sobre os motivos das demissões. "Estávamos trabalhando esta questão há oito meses", afirmou ele, lembrando que a expectativa era de uma produção de 270 aeronaves este ano, ante 204 do ano passado. Mas as contas foram revistas para 242. "Mesmo assim, são aeronaves pequenas, que não cobrem o faturamento previsto anteriormente", afirmou. Apesar disso, ele assegurou que não estão nos planos da empresa novas demissões.

Miguel Jorge disse que a explicação da Embraer foi clara, incluindo dados confidenciais da empresa. O ministro afirmou também que o presidente só soube das demissões na quinta-feira, quando começaram a ser efetivadas. E negou que a Embraer tenha financiamento do BNDES. "O BNDES financia as empresas que compram os aviões. É uma confusão muito grande que fazem com este assunto."

Pelo lado da Embraer, além de Curado, estavam presentes o presidente do conselho de administração, Maurício Botelho; o vice-presidente de finanças Luiz Carlos Siqueira; e o vice-presidente de assuntos corporativos, Horácio Forjaz.